Reli uma crônica antiga de 13 de maio de 2014
"O que não tem volta? Não tem volta a chegada dos europeus na América, nem o tempo que houve de escravidão, nem a mudança que tudo isso teve na vida da população indígena, ou o efeito das inúmeras guerras e golpes que as sociedades enfrentaram. Não tem como “devolver” aos indígenas a Terra, tem como delimitar algumas partes de terra para que eles vivam bem e com dignidade, mas voltar a ser exatamente como eram não tem volta. Não tem como apagar o fato de que um dia houve uma escravidão e que só poderia deixar de haver por força de lei, a Lei Áurea. Minha parte européia oprimiu minha parte indígena e sufocou a negritude que há em mim. E tudo isso é “História”" Eu, Fernanda Blaya Figueiró...
Chato e egocêntrico citar a si mesma, mas na época havia uma coisa que vem há tempos acontecendo, um desmerecimento da Lei Áurea. Mais do que nunca depois do decreto de Temer em que o trabalho escravo corre o risco de sair do bueiro e retornar a lei e a ordem, é preciso defender essa lei. Eu não saberia como.
Mas se de fato o decreto de Temer afronta contra a liberdade do povo brasileiro: Fora Temer!! Mesmo que a economia desabe, ter escravidão novamente é o fim da picada.
E agora, hoje, como se comportam as pessoas diante dessa terrível possibilidade??
http://fernandablaya.blogspot.com.br/2014/05/nao-tem-volta.html
"O que não tem volta? Não tem volta a chegada dos europeus na América, nem o tempo que houve de escravidão, nem a mudança que tudo isso teve na vida da população indígena, ou o efeito das inúmeras guerras e golpes que as sociedades enfrentaram. Não tem como “devolver” aos indígenas a Terra, tem como delimitar algumas partes de terra para que eles vivam bem e com dignidade, mas voltar a ser exatamente como eram não tem volta. Não tem como apagar o fato de que um dia houve uma escravidão e que só poderia deixar de haver por força de lei, a Lei Áurea. Minha parte européia oprimiu minha parte indígena e sufocou a negritude que há em mim. E tudo isso é “História”" Eu, Fernanda Blaya Figueiró...
Chato e egocêntrico citar a si mesma, mas na época havia uma coisa que vem há tempos acontecendo, um desmerecimento da Lei Áurea. Mais do que nunca depois do decreto de Temer em que o trabalho escravo corre o risco de sair do bueiro e retornar a lei e a ordem, é preciso defender essa lei. Eu não saberia como.
Mas se de fato o decreto de Temer afronta contra a liberdade do povo brasileiro: Fora Temer!! Mesmo que a economia desabe, ter escravidão novamente é o fim da picada.
E agora, hoje, como se comportam as pessoas diante dessa terrível possibilidade??
Não tem volta!
Mais de quinhentos anos após a “chegada” dos povos europeus as Américas a questão da relação entre os descendentes destes povos e a população indígena ainda é polêmica. Uma parte da minha família paterna está neste solo desde 1760, vieram com “casais del rey”, saídos da ilha terceira dos Açores. Duzentos e cinqüenta anos. Uma parte da minha família materna veio da Espanha acho que a mais de cem anos. O resto de mim, é formado pela população nativa, que já estava aqui, e pela miscigenação, foram anos de convívio. Neste tempo a propriedade foi passando de geração para geração, alguns “braços” da família preservaram a posse e outros não. Propriedade é um antigo conceito humano que a população indígena não tinha. Hoje é o dia em que foi assinada a lei Áurea, na atualidade uma conturbada memória, ato bom ou ato danoso? Devemos comemorar ou odiar a data? Cento e vinte e seis anos passados e a data é mal vista pela população que “teoricamente” libertou. O que não tem volta? Não tem volta a chegada dos europeus na América, nem o tempo que houve de escravidão, nem a mudança que tudo isso teve na vida da população indígena, ou o efeito das inúmeras guerras e golpes que as sociedades enfrentaram. Não tem como “devolver” aos indígenas a Terra, tem como delimitar algumas partes de terra para que eles vivam bem e com dignidade, mas voltar a ser exatamente como eram não tem volta. Não tem como apagar o fato de que um dia houve uma escravidão e que só poderia deixar de haver por força de lei, a Lei Áurea. Minha parte européia oprimiu minha parte indígena e sufocou a negritude que há em mim. E tudo isso é “História”, hoje a luz do que a sociedade virou ninguém mais quer viver sem energia elétrica, sem carro, estrada, farta e diversificada alimentação, nem a população indígena, que gosta do que existe e vive neste tempo. Pegar em armas e matar deve fazer parte do passado, mas alguém está criando nos locais em que há problemas de posse da terra a vontade de resolver o conflito com armas, tanto de “um lado” quanto do “outro lado”. O governo é a Pessoa que deve dizer, por força de lei, o que cada um tem e quais são os seus direitos. Nada nessa vida dura para sempre, o conceito de propriedade é muito antigo e enraizado na nossa cultura, as tentativas de acabar com ele, como as experiências comunistas (na minha opinião, olhe que coisa restrita, essa é a minha opinião, não é uma verdade) falharam. Ninguém quer perder o que adquiriu. Dificilmente alguém que perde a “herança” por problemas dos ancestrais, ou por mudanças nas regras, não fica altamente frustrado. A posse de algo seja terra, casa, dinheiro, ideia, obra, poder, sei lá, qualquer coisa material ou imaterial, é motivo para a guerra. Para a sensação de que alguém quer aquilo que você tem. “Perdeu”. É uma expressão que os assaltantes usam atualmente. Você perdeu o que tinha, porque eu tenho uma arma e se você não me passar o objeto que eu quero eu tiro a sua vida, poderíamos dizer que a palavra perdeu tem esse novo significado. Você perdeu o continente, você perdeu a liberdade, você perdeu a terra, você perdeu quem você era. “Uma pessoa, entre quatro paredes, escreve um monte de bobagens, não sabe fazer nada, não sabe pregar um prego numa estopa e quer dizer o que está acontecendo, o que eu tenho que fazer...” Ouvi esta frase, ou algo parecido, numa roda de conversa, referente aos jornalistas, mas claro que também aos intelectuais, políticos e a nós blogueiros, uma indireta meio direta. Só que essa mesma pessoa tem algumas competências, mas não todas. Sabe, por exemplo, cozinhar mas não pode fazer tudo o mais plantar, colher, transportar, armazenar, vender, filmar receitas, congelar, gerar energia... Não sabe ir para as quatro paredes e da folha em branco tirar um texto, bom, ruim, certo, errado, que sirva, que não sirva, mas um texto. Não consegue tirar notas de um instrumento, mas sabe e aprecia ouvir uma boa música. Mas tudo isso é para chegar a um ponto: porque, mais de quinhentos anos após a chegada dos europeus ao Brasil ainda não foi definida a situação indígena? Desde de 13 de maio de 1888 não existe mais escravidão no Brasil, mas ainda existe uma enorme diferença entres as populações afrodescendentes e euro descendentes? Você vai dizer e terá uma parcela de razão, que isso é devido a propriedade. As tentativas de mexer nesse conceito foram desastrosas, porque o que as populações almejam é a propriedade. A possibilidade de ter, de ser proprietário de algo, material ou imaterial. O conceito mais importante passa a ser a “responsabilidade” sobre a propriedade, seja ela um montinho de terra, uma pilha de notas, uma composição de acordes, a possibilidade de ir e vir, uma folha em branco. Ter uma folha em branco, poder dizer nela o que se pensa livremente, sem censura, agradando ou desagradando ao leitor, ou interlocutor é sim uma posse, uma possibilidade e pode sim mudar a relação do ser humano com o seu mundo. Não precisa mudar, não precisa transformar, mas pode. Existe só pela possibilidade de existir. Cumpre a existência, só por estar aqui e poder ser lido. Ao interlocutor cabe indignar-se mesmo, cabe ficar emocionado, irritado, furioso, amar ou odiar o escrito. É sua parte da existência no texto e uma parte importante do processo de ler e escrever, do processo de viver. Testar e julgar o escritor, o músico ou jornalista também, tá certo. O bom da escrita artística é que ela não precisa comprovar nada, isso é com os cientistas, eles podem até provar que a ou b estão corretos, ou errados, remetem a tal ideologia, eles podem dissecar um texto. Estamos todos aqui, dois mil e quatorze anos após a vinda do “Senhor”, neste calendário, vivendo com internet, com luz elétrica, aparelhos sofisticados, somos todos brasileiros, uns chegados antes, outros chegados depois, uns eram oprimidos, outros opressores e cada um tem que ser entendido dentro do seu próprio tempo. Mas aqui e agora precisamos resolver da melhor foram a nossa realidade, os nosso conflitos. O que nos espera ao dobrar a rua? Ninguém sabe. Podem estar alienígenas armados nos dizendo perderam, vocês humanidade perderam. Ou podemos nos ver com a arma na mão dizendo perderam vocês outros que não nós perderam algo. A folha em branco é um espaço do autor, que não é necessariamente a mesma pessoa numa conversa trivial, porque o escritor precisa estar só para desenvolver a sua escrita. Perdeu tempo vindo até aqui? Era só largar lá em cima. Era só dizer: perdeu minha atenção sua blogueira, é o seu direito, seu poder sobre o texto.
Fernanda Blaya Figueiró
http://fernandablaya.blogspot.com.br/2014/05/nao-tem-volta.html
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