Não tem volta!
Mais de
quinhentos anos após a “chegada” dos povos europeus as Américas
a questão da relação entre os descendentes destes povos e a
população indígena ainda é polêmica. Uma parte da minha família
paterna está neste solo desde 1760, vieram com “casais del rey”,
saídos da ilha terceira dos Açores. Duzentos e cinqüenta anos. Uma
parte da minha família materna veio da Espanha acho que a mais de
cem anos. O resto de mim, é formado pela população nativa, que já
estava aqui, e pela miscigenação, foram anos de convívio. Neste
tempo a propriedade foi passando de geração para geração, alguns
“braços” da família preservaram a posse e outros não.
Propriedade é um antigo conceito humano que a população indígena
não tinha. Hoje é o dia em que foi assinada a lei Áurea, na
atualidade uma conturbada memória, ato bom ou ato danoso? Devemos
comemorar ou odiar a data? Cento e vinte e seis anos passados e a
data é mal vista pela população que “teoricamente” libertou. O
que não tem volta? Não tem volta a chegada dos europeus na América,
nem o tempo que houve de escravidão, nem a mudança que tudo isso
teve na vida da população indígena, ou o efeito das inúmeras
guerras e golpes que as sociedades enfrentaram. Não tem como
“devolver” aos indígenas a Terra, tem como delimitar algumas
partes de terra para que eles vivam bem e com dignidade, mas voltar a
ser exatamente como eram não tem volta. Não tem como apagar o fato
de que um dia houve uma escravidão e que só poderia deixar de haver
por força de lei, a Lei Áurea. Minha parte européia oprimiu minha
parte indígena e sufocou a negritude que há em mim. E tudo isso é
“História”, hoje a luz do que a sociedade virou ninguém mais
quer viver sem energia elétrica, sem carro, estrada, farta e
diversificada alimentação, nem a população indígena, que gosta
do que existe e vive neste tempo. Pegar em armas e matar deve fazer
parte do passado, mas alguém está criando nos locais em que há
problemas de posse da terra a vontade de resolver o conflito com
armas, tanto de “um lado” quanto do “outro lado”. O governo é
a Pessoa que deve dizer, por força de lei, o que cada um tem e quais
são os seus direitos. Nada nessa vida dura para sempre, o conceito
de propriedade é muito antigo e enraizado na nossa cultura, as
tentativas de acabar com ele, como as experiências comunistas (na
minha opinião, olhe que coisa restrita, essa é a minha opinião,
não é uma verdade) falharam. Ninguém quer perder o que adquiriu.
Dificilmente alguém que perde a “herança” por problemas dos
ancestrais, ou por mudanças nas regras, não fica altamente
frustrado. A posse de algo seja terra, casa, dinheiro, ideia, obra,
poder, sei lá, qualquer coisa material ou imaterial, é motivo para
a guerra. Para a sensação de que alguém quer aquilo que você tem.
“Perdeu”. É uma expressão que os assaltantes usam atualmente.
Você perdeu o que tinha, porque eu tenho uma arma e se você não me
passar o objeto que eu quero eu tiro a sua vida, poderíamos dizer
que a palavra perdeu tem esse novo significado. Você perdeu o
continente, você perdeu a liberdade, você perdeu a terra, você
perdeu quem você era. “Uma pessoa, entre quatro paredes, escreve
um monte de bobagens, não sabe fazer nada, não sabe pregar um prego
numa estopa e quer dizer o que está acontecendo, o que eu tenho que
fazer...” Ouvi esta frase, ou algo parecido, numa roda de conversa,
referente aos jornalistas, mas claro que também aos intelectuais,
políticos e a nós blogueiros, uma indireta meio direta. Só que
essa mesma pessoa tem algumas competências, mas não todas. Sabe,
por exemplo, cozinhar mas não pode fazer tudo o mais plantar,
colher, transportar, armazenar, vender, filmar receitas, congelar,
gerar energia... Não sabe ir para as quatro paredes e da folha em
branco tirar um texto, bom, ruim, certo, errado, que sirva, que não
sirva, mas um texto. Não consegue tirar notas de um instrumento, mas
sabe e aprecia ouvir uma boa música. Mas tudo isso é para chegar a
um ponto: porque, mais de quinhentos anos após a chegada dos
europeus ao Brasil ainda não foi definida a situação indígena?
Desde de 13 de maio de 1888 não existe mais escravidão no Brasil,
mas ainda existe uma enorme diferença entres as populações
afrodescendentes e euro descendentes? Você vai dizer e terá uma
parcela de razão, que isso é devido a propriedade. As tentativas de
mexer nesse conceito foram desastrosas, porque o que as populações
almejam é a propriedade. A possibilidade de ter, de ser proprietário
de algo, material ou imaterial. O conceito mais importante passa a
ser a “responsabilidade” sobre a propriedade, seja ela um
montinho de terra, uma pilha de notas, uma composição de acordes, a
possibilidade de ir e vir, uma folha em branco. Ter uma folha em
branco, poder dizer nela o que se pensa livremente, sem censura,
agradando ou desagradando ao leitor, ou interlocutor é sim uma
posse, uma possibilidade e pode sim mudar a relação do ser humano
com o seu mundo. Não precisa mudar, não precisa transformar, mas
pode. Existe só pela possibilidade de existir. Cumpre a existência,
só por estar aqui e poder ser lido. Ao interlocutor cabe indignar-se
mesmo, cabe ficar emocionado, irritado, furioso, amar ou odiar o
escrito. É sua parte da existência no texto e uma parte importante
do processo de ler e escrever, do processo de viver. Testar e julgar
o escritor, o músico ou jornalista também, tá certo. O bom da
escrita artística é que ela não precisa comprovar nada, isso é
com os cientistas, eles podem até provar que a ou b estão corretos,
ou errados, remetem a tal ideologia, eles podem dissecar um texto.
Estamos todos aqui, dois mil e quatorze anos após a vinda do
“Senhor”, neste calendário, vivendo com internet, com luz
elétrica, aparelhos sofisticados, somos todos brasileiros, uns
chegados antes, outros chegados depois, uns eram oprimidos, outros
opressores e cada um tem que ser entendido dentro do seu próprio
tempo. Mas aqui e agora precisamos resolver da melhor foram a nossa
realidade, os nosso conflitos. O que nos espera ao dobrar a rua?
Ninguém sabe. Podem estar alienígenas armados nos dizendo perderam,
vocês humanidade perderam. Ou podemos nos ver com a arma na mão
dizendo perderam vocês outros que não nós perderam algo. A folha
em branco é um espaço do autor, que não é necessariamente a mesma
pessoa numa conversa trivial, porque o escritor precisa estar só
para desenvolver a sua escrita. Perdeu tempo vindo até aqui? Era só
largar lá em cima. Era só dizer: perdeu minha atenção sua
blogueira, é o seu direito, seu poder sobre o texto.
Fernanda
Blaya Figueiró
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