O que está havendo com nossas comunidades?

O que está havendo com nossas comunidades?

Não sei se existe o conceito ou como procurar, deve existir algo que explique a desarticulação ou desagregação de algumas comunidades. Vou falar livremente, como sempre, não criando nada novo só tentando entender o nosso cotidiano. Uma mulher foi brutalmente espancada, em uma comunidade, devido a um falso boato de que seria uma seqüestradora e que usaria crianças para a prática de “magia negra”. Espancar uma “bruxa” em praça pública não chega a ser uma novidade, modo de agir em comunidade há muito superado, alguém não gosta de alguém por algum motivo e cria uma mentira (um pasquim) difamatória, acusando o outro de um ato horrendo e incita a população a agir com barbaridade. Uma comunidade se forma tendo como base o amor, a lei, a ordem, a confiança,na  busca  por algo em comum, um lugar para morar, um lugar para se expressar e viver. Na comunidade as famílias vão se formando e as lideranças também. Dentro da comunidade começam a haver tensões, disputas por território, mercado, liderança comunitária, gerando amores e desamores. Macro e micro, as mesmas coisas que vão acontecendo na comunidade menor acontecem na maior, a cidade, o estado, o país. O Brasil saiu recentemente de um regime político e social de repressão, onde nada era permitido. Há mais ou menos três décadas está vivendo uma experiência de governo democrático, mas será que sabemos viver em comunidade com uma liberdade responsável? Nestes anos todos uma parcela da população viveu ainda amedrontada e confinada em bairros mais pobres ou nas favelas, sob o comando de uma autoridade paralela, cruel e armada: o tráfico de drogas. A outra parcela foi subindo muros, colocando cerca elétrica, aumentando barreiras, na tentativa de se proteger e não conviver com a realidade de violência das comunidades mais pobres. No meio está um governo que quer ser democrático, quer diminuir a diferença entre as classes ( e isso perpassa as três décadas), mas que não quer parecer ser autoritário, tem que ser autoridade. Na nossa sociedade que instituição tem o poder de armas para impor a lei? A polícia, militar ou civil, mas só a polícia pode andar armada, com a intenção de preservar a ordem e aplicar a lei, não para sair matando. Quando o poder paralelo enfrenta o oficial e parece que é mais forte, que estamos “perdidos” a população começa a agir no “Vale Tudo”. Ninguém vai ser preso, ninguém vai ser punido, não temos nada a perder ou pior essa comunidade não aceita mais a autoridade. Nesse terreno fértil surgem os fanáticos religiosos, os manipuladores, os profetas do caos, os aproveitadores. Como viver em comunidade sem “temor”? Com educação cidadã. Os recentes casos de violência nos apontam que algo precisa mudar e com urgência. Alguma coisa vai acontecer, para melhor ou para pior. As autoridades tem que assumir o seu papel de autoridade, sem cair no autoritarismo, a escola mesmo vem se debatendo com essa questão há muitos anos, relativa ao papel dos professores e das diretorias, a família vem enfrentando essa dificuldade nos papeis de pai e mãe, ou de quem educa as crianças. Uma família que mata uma criança por dinheiro, uma mulher difamada que é espancada até a morte em praça pública, uma mulher que é arrastada por um carro da polícia, policiais que são espancados e agredidos por populares,ônibus queimados, dois agricultores mortos por posse de terra em litígio com indígenas, pessoas sendo retiradas a força de terrenos, quanta coisa mal gerenciada e que poderia ser evitada? Como reverter essa onda de ações coletivas ou individuais que está mostrando que algo precisa ser feito, como se o país estivesse com “febre alta”. Como a imprensa atua? Tem ela uma parcela de contribuição neste cenário? E os políticos, os artistas, o judiciário, os profissionais de saúde, educação, segurança, empresários, são atores também deste “drama”? Nós blogueiros e internautas? O que estamos fazendo? Que tipo de sentimentos e de “atmosfera” estamos construindo? Que tudo isso acontece na dimensão do ser humano. Que seres humanos nós somos?


Fernanda Blaya Figueiró  

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