Cápsula do tempo
Ontem passei pela propaganda política na televisão
e nos poucos minutos que assisti um político, não gravei o nome ou a
sigla partidária, falava algo como: “O Brasil, na verdade, vive
uma ditadura”, nem parei para ouvir a explicação. Achei a
expressão leviana. Por mais problemas que o país tenha enfrentado
ao longo do ano usar o termo “ditadura” para tirar algum lucro
político da instabilidade que aconteceu é um absurdo. Quantos
países passaram por problemas parecidos com os do Brasil? Todos são
“ditaduras”? Aqui está fazendo um calor memorável e isso
atrapalha um pouco o sono, no meio da noite acordei sonhando que
alguém me entregava uma “cápsula do tempo” com dados do ano em
que nasci 1968 e a pessoa dizia: isso foi uma ditadura. Então posso
afirmar que a fala politiqueira atrapalhou meu sono. No sonho não vi
o conteúdo da tal cápsula, mas sei que naquele ano o mundo era
outro. O discurso político no Brasil precisa melhorar. O eleitor de
hoje não quer mais engolir sapos, ouvir banalidades ou barbaridades
e ficar quieto. Tudo no mundo de hoje é massificado, jogar uma
expressão assim na massa é colocar o nome de todas as instituições
no lodo. As instituições estão corrompidas? Sim! Mas não estão
perdidas. O maior desafio que enfrentamos é “em quem votar”, o
povo perdeu a confiança nas pessoas que estão atuando na política.
O jogo político baixou o nível, o discurso está ultrapassado.Se as
pessoas aprendessem a protestar civilizadamente não haveria
problemas de repressão. Em qualquer lugar do mundo alguém que ataca
um policial, civil ou militar, está atacando o Estado e
vai ser reprimido. Protestar é um direito de todos, mas tem suas
regras. Se vamos viver num mundo desregrado então a conversa muda, o
“poder paralelo” com o qual o Brasil coexiste, acontece em todo o
mundo. A exagerada violência urbana não é privilégio do nosso
país, a dificuldade de controlar o mundo das drogas e da pirataria
também não. O jogo econômico também não é brincadeira, quais os
mecanismos que estão ocultos na “busca pelo capital estrangeiro?”
O valor das coisas é artificial, é produzido de forma artificial.
Acho que os políticos terão que ampliar um pouco a sua visão: não
existe mais o meu país, meu estado, minha cidade, sem conexão com
os outros países, com outros estados ou departamentos, outras
cidades. Mas uma coisa pode ir melhorando a paisagem começando por
valorizar a nossa democracia, palavra difícil começa com Demo, de
povo mas também de demônio. Precária, frágil mas democracia. É
a que temos, precisa melhor e muito, mas usar “o fantasma da
ditadura “ofende a quem ainda tem a ilusão de viver em liberdade.
De quem tem passaporte, cidadania, infraestrutura básica
funcionando, que tem a liberdade de falar e escrever... O mecanismo
oculto é o medo. O medo de expressar sua visão. Os pedagogos adoram a expressão paradigmas, parece que vivemso uma crise de falta de paradigmas. Basta assitir aos filmes americanos ou recorrer a literatura para encontrar tudo o que se vive aqui em outros países. Na semana passada assisti novamente a um velho filme "Sonho de liberdade" e as atrocidades que foram denunciadas esta semana pela OEA sobre a situação caótica que o sistema penitenciário brasileiro está enfrentando estão lá, sem a terrível superlotação, mas as guangues, a violência, o abuso de autoridade, a corrupção. Tudo está lá. E nós estamos ficando com medo desta realidade ela está muito próxima, então ouvir que estamos numa nova foram de ditadura é tão preocupante.Não queremos que a ditadura volte, queremos corrigir a democracia que está ai. Nem que para isso seja preciso encontrar novos lideres, novos políticos, novos discursos, novas realidades.
Fernanda Blaya Figueiró
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