Ser "lá de fora"



Ser “lá de fora”


Ter tradição ou viver a tradição gaúcha, dentro da minha história pessoal, não tem relação com a música, as danças, a indumentária do folclore gauchesco. São memórias e lembranças de infância. Meus avós paternos tinham duas propriedades  em distritos rurais de Cachoeira do Sul. Ontem estive visitando as antigas estradas e caminhos e toda uma “coleção de lembranças”. Ser de fora ou "ir pra fora" para mim tem uma relação imediata com a terra, com poeira,com os animais, com atoleiros. com as condições das estradas ou dos rios. Fizemos o caminho longo, que chamávamos de “a volta”, cruzando o   Rio Irapuá e voltamos pelo caminho curto chamado de “pela barca”, atravessando o Rio Jacuí. Durante toda a minha infância, aos finais de semana íamos para o campo.As férias eram divididas entre ir para fora e ir para a praia, na casa de meus avós maternos. Campo, cidade e mar são para meu imaginário a mesma coisa. São um. Ouvia Teixeirinha em Capão da Canoa e Chico Buarque lá fora e para mim tudo está certo. Só sei dançar livremente, seguindo melodias que só eu percebo e como eu entendo. Todos os lugares são mágicos e igualmente importantes. Minha filha Luiza fez algumas imagens de nosso passeio em que foram também meus pais, meu filho João Gabriel e meu marido . As fotografias vão retratar um pouco da vida do campo nos dias de hoje e do quanto a memória e as ações presentes estão interligadas. Viver a tradição gaúcha é uma questão muito ampla e em constante processo de transformação. A energia elétrica chegou lá fora quando eu era adolescente, então sou do tempo da vela,do candeeiro, do motor, de puxar a água no poço com corda e balde, de banho aquecido no fogão de lenha... De brincar na lama no inverno e tomar banho de chuva no verão. De ver os tachos cheios de geleia, os potes cheios de bolachinhas.Para mim há três butiazeiros, que são um simbolo de resistência, desde que me lembro de ir para fora eles estão  lá e são belos. Sou do Tempo Antigo, de temperar o peru com agulhas e engordar porco na encerra. Já comi as gemas de ovinhos sem o ovo posto. Os problemas lá são o carrapato que ataca o gado, os graxains que comem galinhas, os fede-fede que comem os tomates, os bugios que atacam os pêssegos... A seca e a chuva.   Mas fui criada na cidade e amo o mar. E tudo isso, além de muita literatura é para mim parte do ser “de fora”, do ser uma mulher gaúcha.

Espero que as imagens falem por si só , selecionei só algumas.
Fernanda Blaya Figueiró 


























Comments

This comment has been removed by a blog administrator.