Livro III de Poemas


Livro III De Poemas ou

Todas as mendigas tem o teu nome



Autoria: Fernanda Blaya Figueiró
E-Book


Direitos autorais de propriedade da escritora
Proibido Copiar

Viamão - 2012





Introdução

A Velha (Maria)

Sou mendiga, e não tenho quem me veja.
Despertei,tinha a morte nos meus braços
E chorei,porque eu era a mãe de Deus”
Fernando Pessoa


Hoje encerro o Livro III de Poemas, uma coletânea de poemas que escrevi do "Poemas do Deserto" para cá. Espero não esquecer nada, meu computador apresenta sinais de cansaço e temo perder essa produção, claro que é toda publicada no blog, as tabuletas dos dias de hoje. Como minha escrita é pouco comercial produzo aquilo que a "Literatura Oficial Brasileira" chama de “lixo cultural”. Mas como todo lixo hoje não vale nada, quem sabe um dia venha a ser necessário, quando os produtos pasteurizados perderam o prazo de validade. Iria terminar essa fase com um poema que queria chamar de “Todas as mendigas se chamam Maria”. Na minha experiência, de alimentadora de mendigas, sei que quando se dá uma moeda e se pede em troca o nome de quem estendeu a mão a resposta é Maria, se não for a moeda foi para uma charlatã. Tenho a "Maria Grampinho" de Cora Coralina como exemplo e hoje, tentando tirar vida dessa máquina que apitava como quem está sofrendo, precisava esperar o tempo de recuperação, ao abri um livro  encontrei os versos acima, que contém todo o meu poema. Ando com esse problema de quem escreve, os Grandes Mestres Escreveram Tudo. Então para nós ficam as migalhas. Precisamos sobreviver com elas. Sou como mendiga da literatura, a que vive das sobras do conhecimento alheio. Quando me propus a fazer essa coletânea pensei em ir já fazendo um arquivo único com todos os poemas, mas tenho um monte de prosa perdida e inútil no meio, no fim salvei três ou quatro poemas e o resto esta cada um num arquivo. Devo levar o dia nisso. Minha minha alma é pequena, mestre, minha alma é pequena, por isso não sei se vale a pena. Meu próximo projeto se a máquina não morrer antes, será um diálogo com essa Maria Mendiga de Sabedoria. Pensei e vou misturar, nesse arquivo, a prosa literária e a poesia. A prosa sobre as cosias como política, corrupção, cinema, arte, vou deixar morrer. Que morrer vamos todos mesmo um dia. Então vou seguir o blog é muito mais fácil do que procurar arquivo por arquivo. Tinha separado poemas até 29 de dezembro de 2011, então 2012 vai ser do meu blog, da Linna já está praticamente tudo compilado ou seria sepultado? A coletânea Poemas do Deserto, está em alguns post muito antigo dividida em duas parte, só por questões práticas, são um só documento. Recentemente fui indagada do porque não elaboro mirabolantes “projetos” aproveito esse espaço para justificar então: há muitos anos atrás... participei de uma atividade cultural e resolvi, na minha santa ingenuidade, criar um texto literário e encaminhar ao poder público para avaliação. O texto chama-se Rota Náutica Cultural e está publicado no blog de Linna Franco, minha personagem infanto-juvenil. Na época eu fui a secretaria de cultura da cidade que moro e entreguei ao então secretário uma cópia do texto e ele disse: Oh, que belo! Irei ler! Buenas, desci as escadas e encontrei uma pessoa, falei sobre o texto e voltei a sala de secretario e o texto já havia saído para uma outra gaveta. Bom, duas semanas depois retornei ao estabelecimento e perguntei sobre o texto. Um funcionário me disse - Oh! Lemos sim, mas... Entendi tudo. Anos depois voltei a mesma secretaria em companhia de um amigo, senhor Newton que, em reunião com outro secretário, perguntou inocentemente por um “projeto” que havia encaminhado ao secretário anterior, que não era o mesmo de anos atrás, e este com o peito estufado disse: tudo o que o outro fez nós abandonamos, mas faça novamente que “EU” tomo as... Isso nos leva a perceber porque os escritores criam cidades imaginárias, para se livrar das cidades reais. As vezes ainda me pego falando em coisas que existem, por hábito, mas não faz bem para a literatura. Para escrever é preciso estar livre, do mercado editorial, do poder publico e do leitor. Lembro agora de um fragmento de texto do livro “ Confesso que vivi”, de Neruda, ele diz em determinado momento que há livros de mais no mundo e solicita que não os enviem, pois não tem como ler tudo, fala que a poesia acaba sendo de poeta para poeta e não vê sentido nisso. E isso é verdade, nem tudo o que é escrito é lido. A literatura mesma é feita de mitos e histórias, muitos escritores tem um nome famoso, mas não são lidos, daí se conclui que é preciso escrever por escrever, não para ser lido e assim atingir a liberdade da arte, que consiste em não servir para nada.

Fernanda Blaya Figueiró
15 de setembro de 2012


De como morreu uma antiga arte



Achar que antigamente a arte era livre do mercado

É um erro

Toda a arte é de alguma forma prisioneira



Não vou mais perder tempo com isso



Nenhum livro é livre



Tenho tentado libertar meu inconsciente mas acho que

Não é tão fácil assim, somos treinados para policiar todas as

Nossas ações, reações e pensamentos



Minha cadeia de pensamentos acaba superficial

É como caminhar em um bairro desconhecido a

Cidade esconde particularidades em um conjunto de ruas



Acho que o verdadeiro fluxo do inconsciente não pode ser ordenado



Como coisas que conhecemos

Mas nunca vivenciamos



Uma pessoa me perguntou como terminou a novela

Digo que terminou em Pizza, ninguém sabe mais o enredo

Todos os personagens desapareceram sem deixar marca alguma



Os mesmos atores estão na novela nova, representando os mesmos personagens, como se alguns atores desconhecem a sua independência do personagem que é emprestado a eles





A corrupção no Brasil é cultural. É o famoso jeitinho.

Fiquei muito feliz de abandonar o barco furado

De não ver meu nome numa lista suspeita

Já apostei no meu cavalo

Mas tirei o foco mudei o curso

Faz muito calor aqui



3 de dezembro de 2011





Relendo o mundo



O mundo, o mundo

É mundano



Hoje a felicidade é

Um imperativo tão

Poderoso



Responde ela a todos os anseios

Humanos



Que mentira

Que bela mentira



Liberdade, igualdade, humanidade

Fraternidade, solidariedade, justiça



O Imperativo agora é

Imensurável, subjetivo, impessoal


O ouro da nossa era é a

Constante felicidade

Impressa em fotografias

Publicada no complexo mundo social da

Face exposta e latejante


O Ser Humano Coisa

Sorri em todas as fotografias


Está sendo engando e sorri

Está sendo violado e agradece

Está sendo roubado e aplaude


A felicidade impera

No horror

Maquiagem e rendas pretas

Enobrecem a morte



O Vermelho sangue

Banha as telas e a

Explosão dos corpos

Domina os jogos

E isso é pura felicidade

Mate todos seus adversários e

Ganhe um exclusivo ensaio fotográfico com a morte





A face da morte nas revistas e no
Cinema
É  branca, bela e  sedutora



Vende remédios e mais remédios

Exames e fórmulas de combate

Fórmulas de se manter vivo por mais tempo

Quanta felicidade!


Tenho, sim
Uma renda preta
Mas é de Bruxa e
Batizada

É uma renda  de noite
De vez em quando sou muito feliz
Mas nas outras sou muito triste
E tem  até as vezes em que não sou nada disso


4 de dezembro de 2011




O que melhor eu sei fazer é olhar


Olho a “faxina” e penso

Ela deveria se estender

A estados e municípios

Depois penso que se deveria

Ter um sistema comunitário

De controle. Abandono a ideia

Pela lembrança das notícias

Sobre o famigerado Sistema

De Delação que há pouco

Assombrou a Europa



Controle, medo, denuncismo

Levam a opressão

A erros, vingança, tirania



Como então revalorizar a ética e

Diminuir o espaço da corrupção?

Como fazer a sociedade voltar

A ser mais justa sem o uso da coação policial

Ou emocional

Sem um dedo apontado de Deus ou de vizinhos



A América é a filha rejeitada da Europa

Os filhos da América são o excedente

Da população da Europa, da Asia e da África

Esse meu olhar é de espanto, é dos indígenas

É de quem tenta entender o que está acontecendo

Mais de quinhentos anos tem este meu olhar

Atônito



Ser brasileiro é ser este ser Múltiplo

Que nunca sabe exatamente a que memória vai recorrer

É ser aquele que foi arrancado do seio da mãe África

O que foi expulso, pela fome ou falta de oportunidade, da Europa

O que não coube na Ásia

Aquele que estava aqui quando o vento trouxe as caravelas.



Esse é o olhar de quem já viu tudo

Do que sabe que as coisas se repetem

Que dorme de olho na porta e

Ouvido no mato



Esse ser que toca tambor, bebe mate,

Tece renda, atua em todos os palcos

Desempenha todos os papeis.



Quem quer prever o futuro olha para o presente com a luz do passado.



Fernanda Blaya Figueiró

5 de dezembro de 2011




Devoluto

Silêncio
Não conheço mais o silêncio

Exacerbado
Há uma infinidade de partículas no ar

Denso
A realidade esta coberta por uma camada de sujeira

Erro
Tem algo se dissolvendo

Decomposto
Esse mundo está em acelerado estado de decomposição

Bom
Isso é muito bom é revigorante

Tenho
Um claro e lúcido rumo

Fernanda Blaya Figueiró

08 de dezembro





Um sonho de poema

Sonhei com um lindo poema
Essa noite
Ao acordar não recordei como era

Só recordo que era lindo
Tênue
Leve
Translucido

Abordava a controversa questão do
Tempo
Da eterna luta entre cordeiros e lobos
De como sobreviver aos leões e
Atravessar a ponte
Entre agir e se omitir

É preciso ser muito forte
Para habitar o mundo do
Poema
A opressora vontade da
Palavra

Quem imaginava que eu fosse uma
Descobriu que eu era outra pessoa

Do sonho restou pouco
Este poema é uma construção

Não expressa a beleza que deveria

Fernanda Blaya Figueiró
26 de dezembro de 2011




Canto do Ano Novo

Conta o conto
Reza a lenda
Trança a renda
Por encomenda

Sempre estou
Onde deveria
Ano vai
Ano vem

Ano que vem
Vou correr estrada e
Subir o topo da mais alta
Montanha

Ano que vem
Traço planos de
Grandes feitos e
Conto os seus efeitos

Ano que vem
Traz na garupa
Grandes constelações e
Alinhamentos

Ano que vem
Tem história boa
Para contar ou
Encantar

Que venha o mágico
Ano com sua tropa de
Velhas novidades
Bem fresquinhas

Entro no ano com a
Força de São Jorge
A benção do Deus Menino
De Maria e José

Esqueço os erros e
Agradeço os acertos
Assim o ano novo
Será bendito


Fernanda Blaya Figueiró




O traçado


Escrevo para mim mesma
As cigarras estão cantando forte
As formigas fazendo o carreiro
O vento brinca com os cabelos das
Árvores e com meus sonhos
O operário quebra pedra com a
Melodia dos séculos e milênios
O bentivi na cerca
Busca as minhocas que na Terra
Afundam a semente da figueira
O Sol a tudo assiste e a chuva
Logo deve cair

Milagre?

Rola uma folha na calçada de pedra
Quebrada e a vida se
Recria na misteriosa luz e sombra
Da mata nativa
Não é milagre
O maior problema da problemática humana
Esta na pergunta

Como tudo começou?
Não começou
Simples assim
Ou sempre existiu ou não existe

De onde viemos?
Já estávamos aqui

Para onde vamos?
Para lugar nenhum

Que sentido tem tudo isso
Não tem sentido tem os sentidos

Fernanda Blaya Figueiró
29 de dezembro de 2011


Poema de ontem




Poema de ontem

Algumas pessoas se sentiram
Ofendidas pelo poema de ontem

Não as entendo
Porque insistem
Em ler poemas dos quais não gostam?

São os viciados em sofrimento
Conheço muitos
Ou
As vítimas em potencial

É um poema
Niilista?
Não sei se é
Provavelmente sim

Mas rodamos e rodamos sobre o mesmo eixo
Como aros de bicicletas
Sem sair do lugar gerando movimento
Nunca vi um aro que não estivesse ligado a uma roda
Girando no mesmo lugar

Já a bicicleta
Está se desloca sobre uma grande roda
Não fugindo muito a mesma estagnação

É a ação pela ação
O movimento pelo movimento
E se tudo fosse muito simples?

Como chamariamos uns aos outros?
De iguais

Meu pensar vale tanto quanto o teu
Meu conhecimento me torna igual a ti
Meu desconhecimento também

Foi uma minhoca quem
Plantou a figueira
O vento, o sol e a chuva a
Alimentaram e as formigas, os bentivis e
As pessoas dela se orgulham sem lembrar da
Pequena minhoca

Se o aro pudesse navegar solto pelo universo
Talvez pudesse alcançar um novo entendimento
Perguntar novas coisas

Apenas pelo velho hábito de perguntar
Posso agora afirmar que
Nunca houve um início do mundo

Com a certeza de que só veio até esta sentença
Quem quis
Não sei se há limite entre arte e ciência
Entre literatura e filosofia

Entre intelectual acadêmico e orgânico
Todos nós somos dotados da faculdade de
Pensar

Fernanda Blaya Figueiró
31 de dezembro de 2011

Teatro Municipal

Neste antigo prédio existia o
Primeiro Teatro da cidade
Deviam ser negras ou vermelhas as
Antigas cortinas que 
Com o tempo devem ter desfiado
Desbotado
Das cadeiras não deve ter restado nem os
Cacos assim como do palco e do frontão que
Separava o público do palco
Mesmo assim a arte da representação
Sobreviveu nas ruas

Como é opressor o silêncio das
Salas abandonadas

Mesmo com todas as reformas a
Densa camada de
Massa acrílica que cobriu as paredes
Que no lugar do palco hoje fique a cozinha
No lugar da orquestra as gôndolas de frios e saladas
Na platéia as mesas e o espaço

Ao cair da noite, ao  fechar o
Restaurante o velho Teatro se
Restaura

Seus antigos artistas vagam
Perdidos pelas ruas a
Contar caducas histórias
De grandes feitos
Das noites de gala
De sala cheia
De maquiagem caprichada
Os amores inesquecíveis as
Velhas rixas e malandragens

As escadas laterais denunciam a
Verdadeira e antiga natureza das coisas
Foi dada a cidade um lugar para sonhar e
Logo em seguida foi roubada a ilusão

Ainda existem artistas vagando em busca de
Um lugar para estar
Parece que a cidade tem uma pequena conta a
Ajustar

Fernanda Blaya Figueiró
5 de janeiro de 2012  
Ooh de Casa!!!!

Quem vem lá?
O terno do dia de Reis

Se aprochegue minha porta abro para os bons amigos
minha porta fecho para os malvados
Somos três e vossa permissão pedimos
Para cantar sobre o bom menino

Dia de Reis é dia de festa
De comer doces e lembrar das coisas boas

Os Reis a minha casa são bem vindos
Que tragam a chuva que anda escassa
O perfume da Terra Molhada a
Regar o ouro milho

Se não neste no outro ano
Que esta é Terra fértil e bendita
Gente Buena
Não se apoquente que uma hora Chove
Guarde o grão seco
Do ano molhado
Para o ano falhado
No Rio Grande é assim
É preciso ter força para aguentar o
Repuxo que o mar é revolto.

Fernanda Blaya Figueiró
06 de janeiro

Chapéu de Verão



Parece que todo adulto tem no
Fundo do coração escondida uma criança
Isso é a mais pura verdade

A Boneca Mukua tem um encanto
Um quebrante não muito escondido
Que faz brincar a vovó como se fosse
Uma guriazinha

Adivinhem só
Sobrou um restinho da linha
Pobre linha
Parecia que não serviria para nada
Mas a crocheteira sentada ao pé da Porteira
Não podia ver sobrinha e foi muito ligeirinha
Com a agulha certa e sem a medida
Acertou em cheio
Com a mágica transformação
De bater agulha
Bem na hora certa
Restinho de linha virou
Chapéu de Verão

E o Sol estava tão forte...  

07 de janeiro

O mundo é dominado pela palavra

Igualdade
Ninguém quer
As pessoas precisam adorar

Liberdade
É uma ilusão
A liberdade traz responsabilidade

Fraternidade
É um discurso
Fraternidades são grupos restritivos

Humanidade
É um jogo
Onde sobrevive o mais forte

Conhecimento
Uma construção
Legitima as desigualdades

Amor
Um comodo sistema
De proteção

Ódio
Um incomodo sistema
De vingança

O outro
Padrões 
De ação reação

A força do verbo domina nossa
Mente
A palavra bem utilizada
Transforma o mundo
Para melhor ou para pior
Quando você fala sobre alguém
Revela aquilo que realmente pensa
Quando contamos uma história ela
Acontece
Preste atenção a tudo o que você anda
Falando e descubra quem são as pessoas com
As quais você decidiu viver
E ouça a si mesmo
O que você aceita e o que condena no outro?
Ouça as palavras da sua construção
Do que você se orgulha e do que se arrepende

Acabo, mais uma vez, percebendo
Que tudo está como deveria e
Repete algum padrão

Nosso livre arbítrio é limitado
Sempre foi
Mas é uma belíssima construção

Você é o único responsável pelo
Caminho que seus pés marcaram?”


Fernanda Blaya Figueiró
12 de janeiro de 2012  
É a vida !

A tão esperada chuva chegou
Demorou um pouco mas chegou
Veio justificando tanta coisa
Acertando tanto ponteiro

Você deve estar se perguntando
-Vamos combinar que este interlocutor é
Irreal, como toda a comunicação que não comunica.

Porque abordar um assunto assim
Tão cotidiano
A quem poderá interessar essa banalidade
Nós vivemos cotidianamente

Temos que fazer mais uma combinação
Estamos limitados ao que somos e
Nossa construção é feita a imagem e
Semelhança
Depois que terminam os problemas da falta de chuva
Temos os problemas da presença da chuva
Por isso as vezes parece que tudo foi solucionado e
Os problemas retornam

Será que a crise econômica que o mundo está vivento é
Real
Será que as crises não são um velho hábito
Uma manipulação da realidade
Se isso é um poema?
Provavelmente não

Fernanda Blaya Figueiró
13 de janeiro de 2012  
É a vida !

A tão esperada chuva chegou
Demorou um pouco mas chegou
Veio justificando tanta coisa
Acertando tanto ponteiro

Você deve estar se perguntando
-Vamos combinar que este interlocutor é
Irreal, como toda a comunicação que não comunica.

Porque abordar um assunto assim
Tão cotidiano
A quem poderá interessar essa banalidade
Nós vivemos cotidianamente

Temos que fazer mais uma combinação
Estamos limitados ao que somos e
Nossa construção é feita a imagem e
Semelhança
Depois que terminam os problemas da falta de chuva
Temos os problemas da presença da chuva
Por isso as vezes parece que tudo foi solucionado e
Os problemas retornam

Será que a crise econômica que o mundo está vivento é
Real
Será que as crises não são um velho hábito
Uma manipulação da realidade
Se isso é um poema?
Provavelmente não

Fernanda Blaya Figueiró
13 de janeiro de 2012  


Energia perdida?


Eu ia começar este texto dizendo que tenho uma bela Dog Alemã chamada Bessi Patrolinha, mas ter não é a palavra correta. Bessi tem a avançada idade de treze anos, para um cão de grande porte significa estar aqui a mais tempo do que a expectativa de vida. Em novembro de mil novecentos e noventa e oito estávamos procurando um cão de guarda pois mudaríamos de um apartamento para nossa atual casa, tínhamos uma ovelheira, Gorducha da Água Doce, que só faltava falar. Fomos até a Morungava, um bairro de Gravataí, quando chegamos o portão foi aberto, entramos e fomos cercados por uma enorme família de dogues. Estávamos em dúvida se ficaríamos com um dos cachorrinhos e a proprietária nos olhou e disse: - Vocês não vão levar um dos filhotinhos? Nos olhamos e a Bessi estava entre nossos pés puxando e mordendo os cordões dos sapatos. Gorducha olhava apavorada de dentro do carro então precisávamos decidir logo, acho que fomos escolhidos por ela. Com a singela quantia de 150, 00 reais ( acho que o Brasil já tinha esta moeda) colocamos a “filhotona” no porta-malas. Gorducha andava há anos de carro e nunca havia descoberto que o porta-malas era ligado a frente por uma “portinha”, Bessi precisou de dois minutos para dar uma cabeçada e abrir o forro, assim descobrimos seu temperamento forte e imperativo, mas profundamente meigo e fiel. Com o tempo Gorducha nos deixou e muitos outros cães dividiram a vida conosco e cada um teve a sua história, sua personalidade e suas próprias características. Mas todos foram fiéis e nos amaram incondicionalmente. Na semana passada nossa “velhinha” teve uma desidratação devido ao forte calor, ficou cansada, lenta, sem conseguir se levantar sozinha, mas lutando bravamente pela vida. Enquanto estou escrevendo este texto ouvi seu chamado e fui levá-la até a grama para fazer suas necessidades, primeiro puxo seu dorso até que firme as patas dianteiras, depois empurro seus quartos para que fique em pé e assim seguimos. Até quando? Não sei, mas com a Bessi aprendi a viver a vida passo a passo, ela sempre exigiu muito da vida e sempre conseguiu tudo de “seus humanos”, retribuindo com cuidado, amor, carinho e dedicação. Nunca deu um passo para trás se adquiria um privilégio não abandonava mais, seus paninhos, sua cama dentro de casa, suas “manhas”. Vou sentir muito a sua falta o dia em que não estiver mais aqui, mas sei que lá no céu dos cachorros vai ser uma correria danada para deixar tudo como a Bessi exige. Algumas pessoas tem dificuldade em entender a relação entre as pessoas e seus animais de estimação. Somos seres sociais e nossa sociedade está deficiente, está deformada pela competição excessiva, o individualismo e o egocentrismo. Recebemos muitas mensagens, que na minha opinião contradizem nossa natureza, de que para ser feliz é preciso ser “autônomo, livre, poderoso, forte, independente”. O Homem da atualidade é assim... a Mulher é assado. Ficamos muito ocupados em tentar ser “de determinada forma” e acabamos não sendo nada. Já a nossa relação com os animais é autêntica, eles são  quem são e nós podemos ser quem realmente somos: algumas vezes amorosos outras irritados e sem paciência; algumas vezes alegres, outras tristes. E nossos amigos animais sabem disso e não nos cobram falsas atitudes. Bessi aos poucos perde sua energia vital e uma hora vai partir, mas até lá vai vivendo com sabedoria. Não tem como explicar, para quem não entende, esse amor.


Muros

É verde ou dourada a época da
Minha existência
Aos poucos desacredito neste
Complexo discurso
Vejo o aparecimento
De uma fala intransponível
Entre facções

Façam seus muros
Mas não esqueçam de deixar
Janelas e portas para que
O sol e o ar possam entrar

Construções muito seladas
Mofam com o tempo
Um pouco de ar fresco
Faz bem 
Fernanda Blaya Figueiró

16 de janeiro de 2012  


A Glória de Ser


Quanta bela coisa já
Fez o Ser Humano
Quanta beleza
Já produziu a arte

A melhor colheita é a
Repartida, Compartilhada
Uma pequena pausa
Antecede os grandes movimentos

Neste momento estamos assim
Numa pausa entre dois movimentos
Não tão profunda que peça o aplauso
Nem tão tênue que seja despercebida

Não colherei os frutos da minha
Semeadura e isso tem um bom lado
A semente que dorme no ventre da
Terra por mais tempo desperta
Numa outra época
Testemunha dois mundos

Não estarei mais aqui quando estes versos forem lidos
Leio minhas antigas angústias e esperanças e
Não recordo a que história a que momento
Estão ligadas

Estou experimentando
Viver sem planos
Escrever para nada
Sem ideologia
Seria possível?
A Glória pela Glória de Ser

Fernanda Blaya Figueiró
18 de janeiro de 2011  
Como a seca

as múltiplas faces 
da sociedade
da saciedade

nada de novo
no horizonte
estamos quase
no final do
segundo mês de
um ano muito esperado

vivemos uma seca
das mais antigas e
a colheita vai ser fraca
a velha tradição do dinheiro e
propriedade mudando de
mãos

as gentes que anseiam pelo fim
do capitalismo estão contentes
como se iludem
um sistema tão sólido não
há de cair tão facilmente
sem resistência
sem dor e sangue

ao que tudo indica o
dia que acabar
será substituído por algo
tão ruim quanto
ruim para uns
bom para outros

estéril para uns
fértil para outros

não tem como ser bom
para os interesses de todos
como a seca

Fernanda Blaya Figueiró
19 de fevereiro de 2012 







Se
Eu

fosse

uma
Deusa

Seria
Ísis

Pena que sou só uma mulher

Escolhi para o feriado a poesia de

Sylvia Plath

Não conhecia

As grandes obras de artes despertam um êxtase,
meio perturbador, no leitor

Dos dezoito aos quarenta a vida é densa, difícil de entender
depois parece que acalma
aparentemente acalma...
Acho que se algumas mulheres chegassem a passar a barreira dos
quarenta não se matariam

Assustadora é a beleza dos versos do desespero
Alguns significados não consegui decifrar
Mas ler poesia estrangeira é assim mesmo
Muda o código e faltam alguns sentidos ocultos e culturais

Mesmo com esta limitação gostei muito

Precisava ler algo bom

Os romances morreram para mim
não tenho mais concentração suficiente para eles
prefiro estas bofetadas da poesia
talvez eu acorde

O cervo desenhado na capa é tão frágil e capturável
tão necessitado de cuidado
de amor
Comprei o livro um pouco pela capa e por
 algumas poucas frases “É então isso o mar, esta enorme suspensão.”... Fui fisgada e valeu,
Que lindo!!!
Minha poesia se libertou da prosa 
não aguentava mais prosear 

Fernanda Blaya Figueiró
19 de fevereiro de 2012

Falando no amor?

Mas tudo já foi dito sobre o amor
Choveu bastante e isso para a Terra foi amor
Ventou e havia amor no ar

O amor
Anda a meu lado
Em minha companhia
As casas são repletas de amor

Gostaria que as pessoas soubessem
Que o que eu escrevo
Não é necessariamente o que eu vivo

Poeta precisa ser lido
Não assistido
Os atores é que sabem encantar na atuação
Os retóricos são fluentes com a palavra falada
Nós com a escrita
Porque, como diria o Rei do Futebol
O Edson não o Pelé e
Nisso tem uma grande sabedoria

Quem me encontra na rua, num café
Não encontra a pessoa que escreve e
Sim a que está sentindo, absorvendo o mundo
A que elabora, a que transforma está
Aqui
Sentada e inserida neste mundo o do Texto Escrito
Não da gramática
Do imaterial mundo da palavra

Acho que isso é a abstração
Já eu que ando por aí sou distraída

As vezes sinto que as pessoas querem
Que eu fale sobre poemas que já foram
Os amo sim, apaixonadamente
Mas depois de publicados
Eles fenecem
Meu tempo, brilhante ou escuro, é esse aqui,
Um minuto antes da
Publicação

Depois
Muitas vezes me distancio do escrito e olho 
Com alguma criticidade mas
Como leitor e não mais como parte dele 
Para poder escrever outros 



Fernanda Blaya Figueiró
23 de fevereiro de 2012 

Olá!!!

Tem alguém aí?????

Que quietude
Que sensação estranha

De quem são estes olhos
Escondidos na escuridão

Esse hálito morno e fétido
Denunciando uma presença

Ouço a sofrega respiração e
o batido errado do vossos corações

Quanto ódio há neste
Anonimato?

Nunca gostei de quem se oculta sob
O pretexto de não ser reconhecido

São perigosos estes falsos
Profetas do caos

Eu os ouço e os conheço
Não adianta fingir e se esconder

A única vantagem de uma pessoa grande
É que fica muito difícil de ficar despercebida

Se não tens coragem de assinar algo
Não escrevas pois o anonimato sempre cai e

O Verdadeiro nome aparece
Sempre!

Fernanda Blaya Figueiró

24 de fevereiro de 2012 


Os Butiás da Avenida Mauá

Estive hoje andando a colher imagens
Sobre a legalidade colhi uma frase entre tantos registros
Fala numa antiga plataforma política dos idos de
Sessenta que prometia combater a corrupção.

O dia está lindo e
Mais estranho que ter belos e nutritivos
Frutos caídos no chão é tentar entender o
Enraizamento
Da Corrupção na nossa sociedade

Nomes, rostos, fatos, arte
Natureza
Civilização, ação, transformação
Estagnação
Sombra, luz, loca emoção
Vai entender os coquinhos do mundo

Minha salada de frutas virou e
Soltou o aroma doce da vida

A moça que encontrei na escada
Caminho entre andares da exposição
Digo é sempre bom virar as
Coisas mudá-las de lugar
Cria outra perspectivas

Aquele “ainda bem que somos magrinhas”
Soou como uma boa falsa verdade e parar
Nos degraus permite um minuto de panorâmica

Fotografia, aroma, palavra, melodia
Havia uma totalidade entre o interior e o exterior
Das coisas

Ouvi dizer que Porto Alegre completa anos
Deixo esta humilde percepção de uma linda manhã de fim
De verão

Não sei bem porque ganhei esta trégua de euforia
Nuvens pesadas turvarão minha visão? É um ciclo
Como outro qualquer.

Fernanda Blaya Figueiró

Ingenuidade
 Tenho um celeiro repleto de sonhos
 Transbordam ideias e emoções
 Boas e más
Que as más existem também e
É preciso saber disso
 Não se pode viver num mundo de suspiro
 É preciso ter noção do amargo

 Ninguém entende os felinos
 Que andam nos muros, nos telhados ou
 Pesam no campo e nas florestas seus corpos volumosos
Todo o felino tem um olhar inquietante
 Contundente, pouco confiável
Transparente

 No meu celeiro os felinos combatem as
 Ratazanas e guardam os sonhos da
 Maldade do mundo

 Fernanda Blaya Figueiró 20 de março de 2012


Sobrenatural
 Ter acesso ao Sobrenatural é uma Capacidade de alguns de nós
 O natural é tão impossível e
 Improvável quanto o Além do natural só é mais
 Facilmente aceito
Por ser a percepção da maioria
 E talvez seja uma percepção tolhida
 Para fazer funcionar a máquina da
 Interação do ser humano no mundo

 O metafísico é um produto da nossa mente
 Mas isso não significa que não exista
É preciso estar aberto para as outras
 Possibilidades da existência
 É preciso que uma sociedade tenha loucos e
 Permita que eles se expressem
 Em alguns momentos a loucura é importante
 O lado bom na loucura
 A loucura que cria e não a que destrói
 Minha piramide seria assim construída:
 
Amor 
Natural 
Aberto ao 
 Sobrenatural 
  O Deus A Deusa 
  Equilíbrio Cósmico
  Sustentando o Universo

 Aos amigos do Pronaus Rosa Cruz Viamão.

 Fernanda Blaya Figueiró

21 de março de 2012

Hoje eu estou sem assunto


Que estranhamento isso causa
Minhas amigas bruxas estão soltas
Por isso essa ventania toda

Chiiiiiiiiii Chia o vento
Não decifro
Não entendo seu chiado

Não! Não fui eu a chamá-las
Não fui eu a soltá-las de sua
Clausura mas quem o fez
Não sabia bem o que fazia

Estão em festa
Varrendo o mundo com suas vassouras
Assustando com sua estética

É a ética da profissão!” A ética do roubo e das
Coisas arranjadas. O cheiro da latrina do hospital
O esparadrapo superfaturado. O caixinha

Acho que vieram fazer sangria
Emplastro ou fumegar

Tem jogo de cartas marcadas e agora é
Público e sabido
Pior é que vem de longe essa “ética”

As bruxas com seu poder
Varrem um pouco da pó
Mas é tanto do pó que a “faxina”
Vai ser só onde o olho vê
Onde o povo dança
Levanta o tapete

Viu no que dá se achar sem assunto?


Fernanda Blaya Figueiró
27 de março de 2012  


As velhas ideologias

Estão morrendo
Todas as antigas ideias sobre o mundo

Um mundo desprovido de ideias é
Como a terra lavrada pronta para receber
A nova semente

Claro que a plantação será a mesma
Mas essa possibilidade do novo
Traz esperança e preocupação

O que seria de nós sem uma grande
Preocupação para dar sentido ao fazer diário?

Fernanda Blaya Figueiró 
Posted 5th April by Fernanda Blaya Figueiró





Galeria de vaidades


Todos meus ídolos
Já pularam para o outro lado
Eu mesma sou do outro lado

Do lado translúcido do conhecimento
Mesmo que este meu corpo seja pesado e denso
Minha alma é leve e livre

Livre de ilusões?
Que ilusão!

Gente nasce neste momento e
Gente parte neste momento

Os anciãos são testemunha disso
Não existe verdade sobre uma pessoa
Cada ser remanescente vai contar
Algo e neste algo é
Sobre alguém e sobre um lugar
Sobre um fato, uma invenção
Toda história é uma ilusão
Haverão mágoas e decepções
Ilusões rompidas e mitos
Verdades e mentiras e com o tempo
As verdades se consolidarão e
Assustarão

Amor, Amar, Amo, Ame, Amém
Meu parco saber não vale
Vale, não vale, vale, não vale


Fernanda Blaya Figueiró
8 de abril de 2012



Cativo


Você é responsável pelo que cativa”
Até um ponto o da
Emancipação

Amor cativo aprisiona
Amor cativo corrói
O verdadeiro amor liberta


Fernanda Blaya Figueiró
21 de abril de 2012  



Mesa para uma pessoa


Hoje o mundo dedicou-se a refletir sobre a Terra
E a mim coube uma parte pequena no discurso

A Terra reflete em mim

Como é Bela, Poderosa e Forte

Ando preocupada, não deveria,
Com a radicalização do discurso
eco- guerrilheiro”

Guerreiros são guerreiros
Sempre existiram
São pessoas predispostas a guerra
Que usam qualquer artifício para
Conseguir a Guerra

Não aceito este discurso do “dedo apontado”
De um pensamento que quer se tornar verdade a
Força

A Terra não é motivo de guerra e nem
Pertence a facção nenhuma

Vamos sim cuidar do planeta e de sua comunidade
De Vida Única
Buscando as soluções não a delação

Com respeito ao outro e a suas ideias e
Seu “tempo de amadurecimento”

Caminho pela Terra em Estado de Solitude e
Há uma beleza neste silêncio profundo do andar
Sozinho em meio ao público

Fernanda Blaya Figueiró 
Posted 22nd April by Fernanda Blaya Figueiró



Sobra do tempo

A planta sobe belamente até a
Janela de pedras
A chuva fria encharca a terra seca
Uma dádiva no fim do verão a possibilidade de
Renovação

As plantas sorriem para a tarde
Nada sobra no tempo de ser

Vamos partir e nossos Castelos
Vão ficar
Que sentido há nisso?

Nenhuma energia é perdida

Fernanda Blaya Figueiró
1 de maio de 2012  

Espaço Interior


Eu sou essa casca
Com a qual as pessoas estão acostumadas

Mas também sou essa densa massa interior
Que quase ninguém conhece
Nem quem me conhece há muito
Nem meus leitores mais antigos

Tem dias que flutuo e em outros me sinto soterrada
E as duas sensações são verdadeiras

A vida é uma experiência solitária
E é assim com todo mundo
As outras pessoas da vida da gente
São importantes e necessárias
Mas são outras pessoas
Acho que é assim para todo mundo

Fernanda Blaya Figueiró
7 de maio de 2012  

 O quarto de bonecas: um conto sob encomenda.


Observe que me foi encomendado um conto, eu venho disfarçando e desconversando mas quem encomendou me encontra e diz: e a história, já escreveu? Penso que normalmente a história nunca sai como a encomenda. E também já faz tempo que deixei a arte dos Contos, são normas e prisões de mais que os contistas inventaram para poder “julgar”, ou quem sabe classificar, de 01 a 10, ficam atribuindo notas uns aos outros. Que coisa. Mas em meio a esta noite acordei contando esta história que se segue: O quarto de bonecas. Por um uivo muito forte dos cães e nem era dos meus, pois fui verificar, acordei em meio ao conto. Não sou uma pessoa covarde e decidi que assim que o sol apontasse no céu sentaria e escreveria a história. Só que o sol nasceu, preparei o café, tratei dos cães e quando ia lavar a louça do dia anterior, o conto voltou. Com uma força criativa própria e autodidática. Mas totalmente diferente do encomendado e como autora que sou, a maiorias dos contistas não tem domínio sobre sua obra atende as normas do mercado e não a força da criação. Resolvi contar exatamente o que o  conto queria e não o que a encomenda pedia. Onde salvarei, uma vez que não tenho mais uma pasta para contos? Entre os poemas, já que crônica não é.
Dona Gertrude ou simplesmente Gerta vive em meio as fantasias, em sua casa há um grande e espaçoso quarto as altas janelas pintadas de branco, adornadas com belas cortinas bordadas a mão, iluminam o seu interior de paredes cobertas de papel florido. Um capricho! A cama de ferro fundido e colchão macio tem uma colcha de retalhos feita por ela. Anos levou para deixar tudo assim bonito e decorado. Gerta sempre trabalhou, quando era pequena precisava recolher gravetos para o fogo, alimentar os porcos e amassar o pão. Tinha pouco mais de dez anos quando foi mandada para o colégio interno, lá aprendeu a bordar, passar, lavar, rezar, pedir esmolas. Como odiava aquilo, vestir um uniforme surrado e ir pedir esmola para o orfanato, as freiras diziam que a esmola engrandece quem doa e dá humildade a quem pede. É preciso um coração puro e humilde para pedir esmolas. Mas Gertrude sentia vergonha e humilhação, assim acreditava que seu coração não era puro. Um domingo no mês podia ir até a Colônia e ficar perto da mãe e dos irmãos. A casinha de madeira era cheirosa e limpa, a mãe sentava na ponta da mesa e lia para todos. O Pai era caldado e ausente, ouvia tudo e sacudia a cabeça: - Não enche a cabeça das crianças com bobagens, dizia irritado, a vida da gente é só trabalhar e pagar conta. O cabelo da mãe tinha um brilho e seu corpo exalava um calor que no colégio não tinha. Em casa era Gerta, a menina de ouro, que estudava para ser freira. Dos oito irmãos cinco ainda eram vivos. Depois da missa a comunidade se reunia para o almoço da paróquia e Gerta tinha que pedir esmola para a Igreja. Lembrava que era um tempo feliz mas difícil. A noite a mãe servia cuca e linguiça, a melhor coisa que havia no mundo, o pai então falava da Guerra. Prometa para seu pai que não vai ter filhos, porque os filhos da gente acabam indo para a guerra ou para as fábricas. Ele falava de seu irmão mais velho que havia sido esmagado por uma peça com defeito na fábrica. Falava também do Tempo da Grande Guerra, que o havia mandado para este País. O pai havia perdido tudo, veio com a cara e a coragem buscar abrigo na casa do tio. Casou, se estabeleceu, ganhou confiança, só que seu coração permaneceu amargo. Na segunda pela manhã tinha que pegar o ônibus e voltar para escola, nem sempre era frio, mas a estrada deixava o calor para trás. Gertrude sentia um frio interior, que fazia doer os ossos e o peito. Na escola um dia confessou que queria voltar e o padre disse: Filhinha a vida vai sempre pra frente, não volta... No fim do mês serás algo que ninguém em tua família é, uma enfermeira. Imagina a emoção de teus pais, formar a filha. Quinze anos e as meninas ricas debutavam usando longos vestidos bordados, pelas internas do colégio, usariam sapatos altos e fitas nos cabelos. O Padre tinha razão o pai e a mãe quase não aguentavam de orgulho. Na Colônia foi organizada uma grande festa. Gerta , a pedido do padre, conseguiu muitos donativos para a construção do hospital. A esmola tinha mudado de nome e ela já não se sentia tão mal. Conseguiu emprego antes mesmo do verão e só ia em casa duas ou três vezes no ano. O tempo foi passando,a maioria das amigas casou. A Colônia ficava cada dia mais longe. Já passava dos trinta anos quando casou. Seu companheiro já tinha cinco filhos, dois do primeiro casamento, dois do segundo e um com uma garota que deu no pé. A pequena Martinha criou com se fosse sua. - Amanhã ela vem aqui me visitar, contou para a visita. Sabe a Martinha la já tem duas filhas. Se as bonecas são delas. Não! São minhas, dizia Gerta, eu abro todos os dias o quarto , para arejar, depois sento na cama e penteio uma por uma. Uma vez por semana troco as roupinhas e quando está frio coloco blusa de lã e sapatinhos combinado, eu que tricotei tudo isso. Guardo no armário com sachê de lavanda e folhas de louro. Meu marido acha engraçado, eu com essa idade, quase oitenta, brincando de bonecas... Mas sabe, no fundo elas são minhas filhinhas... Não contei mas eu olhava a mãe e via o brilho de seu olhar, o calor de seu corpo e pensava... Um dia vou ser assim, só que não deu... É a vida. A pessoa que me encomendou este conto contou que Gerta brilhava, seus olhos se iluminavam com as bonecas. Ela dizia que se fosse uma formiga seria operária, sabia disso, precisava fazer. Fazer sempre alguma coisa. Gertrude foi mãe na tardia hora da fantasia, que une a menina, a mulher e a senhora. Essa é a sabedoria da Grande Mãe, se transformar como a lua no céu.

Fernanda Blaya Figueiró
25 de abril de 2012


Sobra do tempo

A planta sobe belamente até a
Janela de pedras
A chuva fria encharca a terra seca
Uma dádiva no fim do verão a possibilidade de
Renovação

As plantas sorriem para a tarde
Nada sobra no tempo de ser

Vamos partir e nossos Castelos
Vão ficar
Que sentido há nisso?

Nenhuma energia é perdida

Fernanda Blaya Figueiró
1 de maio de 2012

Espaço Interior


Eu sou essa casca
Com a qual as pessoas estão acostumadas

Mas também sou essa densa massa interior
Que quase ninguém conhece
Nem quem me conhece há muito
Nem meus leitores mais antigos

Tem dias que flutuo e em outros me sinto soterrada
E as duas sensações são verdadeiras

A vida é uma experiência solitária
E é assim com todo mundo
As outras pessoas da vida da gente
São importantes e necessárias
Mas são outras pessoas
Acho que é assim para todo mundo

Fernanda Blaya Figueiró
7 de maio de 2012  
Dalva nome de estrela

Para Dalva e Jane

O quarto de Dalva guardava um encantamento protegido por um segredo: quando era pequena não tinha bonecas. Um dia olhou para o céu e sua estrela esta lá, resplandecente, iluminada, sozinha no imenso azul escuro. Estrela, estrelinha, que é só minha dá-me uma linda boneca. Lá no céu a estrela ouviu e lamentou. Dalva, Dalvinha, um dia, um dia teu desejo realizo. A menina cresceu, cresceu. Todas as noites olhava para a amiga e sabia que um dia, um dia seu sonho seria real. Não dá para dar mole para a vida, logo a menina cresceu e mãe se tornou. Um dia, um dia, passou pela frente de uma vitrine, seus olhos notaram que no alto havia uma estrela luzidia, iluminando uma linda boneca. Dalva, Dalvinha ela pareceu ouvir e a boneca pareceu sorrir. Na bolsinha carregava uma nota bem novinha. Que destino ela tinha? A poupança. Poupança? Que palavra popozuda. Pé ante pé a senhora, que já era vó na lojinha entrou. Uma linda mocinha olhou para ela e disse:- a vovó quer uma ajuda? Seu olhinhos brilhavam de alegria e a boneca parece que respondia. Quanto custa essa boneca, perguntou meio ofegante. Uma nota - disse a mocinha- Vai levar? O coração de Dalva pulava como o de Dalvinha, quando ela era pequeninha, a boneca parecia uma estrela brilhante. A nota pesava na carteira, que bobeira.- O que os outros vão pensar? Dalva, Dalvinha, hoje é o dia, hoje é o dia, a nota respondia. Embrulho pra presente? - pensou! Embrulha pra presente, respondeu, com um alívio. A estrela na ponta da vitrine soluçava de alegria. Dalva, Dalvinha chegou em casa com o pacote mas sem coragem. Seu marido, que já era bem velhinho, baixou o jornal, tirou os óculos e curioso perguntou:- Dalva, que presente é esse, quem te deu? Envergonhada ela contou tudo, tudinho. Seus olhinhos estavam opacos e cabisbaixos. O que ele pensaria? Então ele levantou e abriu uma caixinha, lá dentro sabem o que havia? - Um avião vermelho, de menino rico, que quando ele era pequeno não tinha. Dalva colocou o pacote sobre a mesa e aos poucos foi tirando o embrulho, todo de estrelas, que a mocinha havia feito. Retirou a caixa, a cordinha que amarava o pescoço dela, como sempre sonhara e deu um abraço na sua primeira bonequinha, que cheirava a flores do campo, A boneca usava um vestido todo rendado e o cabelo comprido. Estrela, estrelinha hoje tu é só minha. O marido riu de sua felicidade e entendeu o que acontecia. Dalva, Dalvinha nunca duvide: um pedido feito para uma estrela sempre acontece, um dia um dia...

Fernanda Blaya Figueiró

Posted 8th May by Fernanda Blaya Figueiró


A Bessie, nossa cachorrinha estava muito velinha e precisando de muitos cuidados então passei a ter sentimentos e sonhos estranhos. Queria tê-la para sempre comigo, mas não queria mais vê-la sofrendo, com dor, com dificuldade para andar, comer, beber, levando “tombos” a toda hora, precisando de ajuda o tempo todo, chamando no meio da noite e sem a a possibilidade de falar, só com o olhar e o latido rouco de quem tem pouca força. Há algumas semanas sonhei que havia enterrado uma pessoa viva, noutras que não conseguia respirar. Acho que isso é normal e hoje encontrei um artigo sobre esse “luto antecipado ”http://revistaseletronicas.pucrs.br fiquei contente pois relata sentimentos e pensamentos que eu tive. Não por um ser humano, mas por um cão. Amor é amor, não sei se há separação entre ser humano amado ou ser vivo amado. A hora mais complicada para mim não foi o sepultamento, foi a hora de dar comida aos outros cães. Tem um pote a menos para servir. Uma caminha a menos para arrumar. E a sensação de alívio por ela não estar mais sofrendo e a culpa por esta sensação, foi substituída pela amarga realidade de que ela não está mais aqui. Como a Drª Cristina estava junto e atestou então sua morte foi real, não foi enterrada viva, com meu sonho me atormentava. Esse encontro com a “dona morte” sempre nos lembra que ela vem para todo mundo, mais cedo ou mais tarde. Com dor e um longo padecimento ou repentinamente. Quem fica aqui tem que aproveitar o sol, por aquele que partiu e não pode mais. Tem que “latir” para dizer: - Estou vivo, não enterrado vivo. Achei que não deveria escrever sobre isso, mas outras pessoas podem aproveitar o texto, nem que seja para achar que é uma grande asneira e um sentimentalismo bobo. Que pensem!

18 de maio

A sombra


Não tenhas medo, Passarinho
É tua sombra que na pedra está
Projetada

São teus o longo e aterrorizante
bico e as famigeradas garras

Mais profundamente há a
Sombra da sombra
Espera o meio dia e tudo isso
Passará, Passarinho

Ao meio dia dançaremos nas nuvens e
Brincaremos com as estrelas

Fernanda Blaya Figueiró

20 de junho de 2012

 Ilusão? 

Talita, Antonieta e Francis trabalhavam na loja de ferramentas da esquina de uma antiga cidade brasileira. Sabe que não tem muita importância o nome da cidade, já que a grande parte delas se parece muito, então basta imaginar uma cidade metropolitana criada nos entornos de uma outra grande cidade e pronto temos nosso cenário. No dia quinze de dezembro, já fazem dois anos, a sorte delas mudou, a loja fechou. Primeiro porque os tempos são outros as ferramentas são vendidas em grandes lojas e poucas pessoas ainda as utilizam. A maioria das coisas vem pronta e descartável, muitas vezes consertar é mais caro do que comprar algo novo. As obras são feitas por grandes empreiteiras, que tem fornecedores diretos. Segundo porque seu Rosário faleceu e o prédio valia muito, então os herdeiros queriam transformar em um edifício de vinte andares. Na loja trabalhavam as três e seu Rosário. No edifício irão morar duzentas famílias, cada andar terá dez apartamentos, cada apartamento terá um box de garagem. Normalmente em um apartamento moram três pessoas então no lugar fixo de trabalho de quatro pessoas passarão a dividir o mesmo espaço seiscentas pessoas. Nos dias mais movimentados do ano a loja recebia entorno de duzentas ou trezentas pessoas, na maioria dos dias não passavam de cem. Talita e Antonieta atendiam no balcão, seu Rosário ficava no Caixa e nas compras, controle de estoque, toda a papelada. Francis cuidava da limpeza, do cafezinho, da correspondência. Seu Rosário morreu de repente, tinha a saúde de um touro, foi visitar o irmão e não voltou mais. Pegou todo mundo de surpresa, a loja estava funcionando normalmente e o dr. Gusmão veio dar a notícia, pediu que fechassem as portas e colocasse um recado para os clientes: Fechado por motivo de luto. A elas disse que deveriam ir para casa e esperar. Esperar uma ova! Decididas foram prestar sua última homenagem ao patrão. Sua presença causou um certo incomodo nos familiares, uma gente bem arrumada. Dr. Gusmão foi delicadamente agradecer a presença delas e informar que logo entraria em contato sobre a situação. Situação? Seu Rosário nem tinha esfriado e todos falavam na situação. Francis foi quem chamou as amigas para tomar um cafezinho e disse que achava que a presença delas estava sendo um problema. Não deixaram de notar que o velório tinha poucas pessoas e um ar de obrigação. Antonieta achou que elas deveriam sair de fininho. Talita disse que provavelmente todas estavam sem emprego. A realidade parece que bateu na porta da cafeteria, a vida delas mudaria. A loja nunca mais abriu as portas, o estoque foi vendido por uma bagatela, as mobílias viraram pó na demolição. Cada uma delas recebeu uma pequena indenização pelos anos de serviço e esse foi o fim de uma era. O novo edifício foi inaugurado com pompa e luxo, os herdeiros brigaram pela divisão do valor da venda dos apartamentos e nunca mais se falaram. Quinze de dezembro virou um dia marcante para as três amigas, elas sempre se reuniam para falar do “tempo da loja” e dos causos de seu Rosário. Cada uma refez a sua vida, continuou em frente, no início foi difícil ter perdido a loja, o chefe, a sua função, mas com o tempo as coisas voltaram PRO lugar. Seu Rosário sempre dizia: “Meninas, a vida é uma grande Ilusão! A desilusão é uma coisa sadia, quebra a ilusão, por alguns momentos e a gente pode ver a realidade. E como é bruta a realidade de uma história, por isso é preciso sonhar!”. Quando elas se reuniam, para lembrar, lá no fundo ouviam o velho jargão: “Meninas, vamos abrir as portas?” E uma risada debochada: “É hoje! É hoje que o velho Rosário enriquece...”

Fernanda Blaya Figueiró
25 de junho de 2012  
Perdi algo

E continuo aqui

Não tem um lugar para esse pensamento

Antigamente os pensamentos viviam em livros
Hoje eles se dissolvem tão rápido que pensar
Se tornou inútil

Então o ser humano
Age, Age, Age
Sem pensar

Os pensamentos perderam o emprego
Estão livres
Não são mais escravos

Ledo engano vive quem acha que
Vive um mundo sem ideologia
Tudo isso foi pensado
Arquitetado por alguém
Até esse descrédito do
Velho hábito de pensar

Quando esse poema,
se é que é um poema,
Cair na rede
Já será velho

Nada mais envelhece com lentidão
Nem o pão

Fernanda Blaya Figueiró
27 de junho de 2012

Leveza

Não se pode optar por ela
É quase como descontruir uma
Casa pedra por pedra

Haverão grandes
Mistérios
Coisas esquecidas

Não se sabia das formigas
Nem do mofo ou da umidade
Ninguem notou quem teceu teias e
Furou o reboco

A leveza vem por conta própria e
Desaparece assim sem aviso

Ficou bonita esta antiga janela
Que já não abrem nem fecha
Essa pedra que ainda guarda o charme
Do desfeito

Fernanda Blaya Figueiró

1 de Julho de 2012  
Errei o tempo

Contei erroneamente os degraus
Da escada no tempo da descida
Esse desequilíbrio cria uma sensação de
Quebra no cotidiano das coisas

O sarcasmo é uma poderosa arma
Das pessoas 
Acho legal!

Não me incomoda
Esse passo em falso
Que pode levar a uma queda

Ontem fiz tanto empenho em
Esvaziar a mente mas não consegui
Acho que a companhia dos canhões me deixou combativa

Que ironia
Deve haver algum poema escondido naquela prosa toda

Mas
Pelo jeito
Ando pouco iluminada
Para a poesia



Fernanda Blaya Figueiró
19 de julho de 2012  

Um conto contado

Estou aqui pensando em um exercício de oficina, não gosto de exercícios de oficina. Não acho bom para livre criação, se é que existe uma livre criação, ficar preso exercitando, agora confesso que gosto menos ainda de receitas. Na minha cozinha nunca usei receitas por isso as vezes acerto e em outras erro. Mas a vida é assim. Vamos exercitar: a proposição foi minha, é verdade.
A proposta foi ler o conto Coco verde e Melancia de Simões Lopes Neto e escolher, aleatoriamente 5 palavras, não necessariamente palavras típicas, só palavras e propor algo novo.
Nosso grupo lê mais poesia do que prosa então a proposta é escrever e ler prosa para o próximo encontro, para variar um pouco.

O Conto Contado

Tenho guardada na MEMÓRIA a visão de uma RAMADA de cipó COBREADO que balançava furiosamente batendo no dorso de um Tobiano, que de VENTA aberta empinou o corpo e saiu num trote marchado rumo ao campo aberto, em total INDEPENDÊNCIA. O cipó se esparramava por todo o matagal,com sua ramada  pendurada entre maricás,butiazeiros, figueiras e brincos de princesa. O Tobiano aventado desapareceu sem deixar rastro, deixando o cavaleiro solito da vida... Solito? Solito, solito não! Que este conto contado é uma velha história do tempo dos amores proibidos. Essa velha coruja, que já ouviu muito causo, que já viu muita coisa neste mundão velho de Deus, vai lhe recontar, rapidinho, o acontecido. Os tempos eram de peleia, os dias sombrios e secos, o gado andava magro, o rio barrento. E alguém disse: este amor não pode ser. Foi o que bastou. Se não pode ser daí é que será. Quem proibiu o mato não sabe, porque motivo, muito menos. Coisa de gente. Que gente gosta destas coisas de proibir e de libertar. Proibi para libertar, liberta para proibir. Vive pra lembrar, lembra pra esquecer... E o proibido foi encontrar abrigo nas ramadas cobreadas do cipó da mata. No tempo que tinha isso de ter mata. Tempo antigo. Anoitecia, o sol deitava o cabelo no céu tingindo ele de um alaranjado que só aqui no pampa acontece, os proibidos tinham a doçura e a ternura do amor novo. Que o amor é coisa muito boa, nos primeiros tempos. Chegaram no dorso do Tobiano, que foi amarrado, sem a montaria, no pé de uma grande árvore, pra descansar o lombo. Nisto apareceu uma cobra. Chiiiiiiiiiiiii, Chiiiiiiiiiiiiiii! Pucutum,pucutum,pucutum... A Proibida arregalou os olhos e o proibido foi logo tratando de encontrar um jeito de acalmar a amada. Hu.Hu.Hu... Piei para ajudar! Disse ele que o Tobiano haveria de voltar e que a cobra já havia partido. Ah, as cobras... Nunca perdem a chance de dar uma forcinha pra uma amor proibido. O vento soprou os longos cabelos da amada, que as amadas mantem longos cabelos, como os cipós cobreados, na pele forte do amado, que os amados tem uma pele forte, como os brados de independência. Todas as boas histórias de amor acontecem no tempo da juventude. Com a ajuda da cobra, do vento e da lua, que nessa hora já dominava o horizonte, o amor proibido aconteceu. Hu,hu,hu... Dizem que foi desse amor que nasceu... Não! Não foi a humanidade, que essa era uma história mais antiga. Nasceu desse amor um conto contado, dissimulado. Coco Verde e Melancia? Não sei não seu moço, não é bem o que a coruja tem guardado na memória... Que as corujas guardam os segredos bem guardados... Hu,hu,hu...

Fernanda Blaya Figueiró
Para o encontro do grupo de leitura da ACF


A maçã


E
Se
Existir?
Com que espanto
Com que falta de jeito
Com que sorriso encabulado
chegam ao mais céu
os
que
sempre
negaram

Coma vagarosamente este fruto desta possibilidade é só uma possibilidade

Fernanda Blaya Figueiró
Sonhar acordada


Ando pouco ocupada com o meu mundo

Mas ele continua aqui vivo
Brilhante e escuro

Paralelo
Único
Quieto
Misterioso

Como andar de pés descalços pela terra úmida
Estar entre suas próprias sombras
Descobrir vultos escondidos e formas antigas
Clareiras e aguadas
E uma história bela ou não

Preciso de uma nova história como as
Aves precisam de uma poça de chuva
Para afundar a cabeça, tomar golinhos de vida
Sacudir as penas e brincar

Meu mundo é completo e muito muito
Melhor que este Mundo
Que mais parece uma longa espera

Poucas das coisas que se diz ou faz tem algum
Sentido

Fernanda Blaya Figueiró
Posted 1st August by Fernanda Blaya Figueiró

Um sopro de vida


As mais belas cantigas
São cheias de cor

Tem a profunda humanidade que
Toda a dor tem
São repletas de memórias e de
Perfumes que a realidade não conhece

Todo o canto diz a mesma coisa
Este ser está vivo
Eu ser estou vivo

As cantigas que eu ouço
Os poemas que leio dizem
Aqui houve uma vida

Sonhei outro dia que
Estava num pregão
Muito antigo
Uma casa de penhores
Onde se pisava entre toras de madeira e do chão emanava
O som de um passo firme

Fui resgatar uma antiga melodia
Que eu havia penhorado
A felicidade tem um tom púrpura
Como uma canção composta pelo vento

Fernanda Blaya Figueiró
4 de agosto de 2012

Haverá??

Tenho uma sensação
De que em minha trincheira

Dentro de minha própria trincheria,
Cavada por estas mãos calejadas
Há um inimigo

E todos sabem que trincheiras não se constroem
Sozinhas
Que ninguém cava valos, ou empilha sacos de areia
Ninguém vira a ampulheta sozinho

Todos os pêlos da minha nuca estão erriçados e os
Meus sentidos estão aguçados
Meu olhar turva nestes momentos
Quem é?? De onde vem??
Quais são suas armas??
Pode ser qualquer um e
Vir de qualquer lugar
Trajando qualquer disfarce
Só conseguem transpor a barreira do medo
Os suicidas e os guerreiros
Todos que dão o passo sem volta
Que não tem mais como desistir
Já morreram
Apenas aguardam

Em todas as trincheiras há um traidor
A sorte foi lançada e aguardo

Aguardo com todos sentidos aguçados
Aqui neste espaço não há mais medo
Que antes do fim da batalha sou eu ou o inimigo 

Fernanda Blaya Figueiró

Posted 12th August by Fernanda Blaya Figueiró

Janela do Tempo


Quanta coisa acontece no mundo
Estou só matando o tempo
Sentindo a energia das coisas

Minha pergunta é o que está oculto?

Acho que produzi muita coisa em palavras
Com medo de que a palavra me faltasse
O drama das grandes cidades é a futilidade
Da vida contemporânea em que as horas se
Tornam quase eternidades
O que fazer com o tempo não é um dilema novo
Nenhum dilema é novo
É uma característica da aceleração da vida de consumo

Fernanda Blaya Figueiró
21 de agosto de 2012  





O Mundo está precisando


De um magnífico musical
Americano
Esplêndido
Clássico
Perfeito

Uma história de amor
Poder, dor e morte
Um conto de superação

Que nos lembre o quanto somos grandes e poderosos
Que sacuda a civilização

Tirei, recentemente, um ogro de sua toca e
Pobrezinho era tão sem sal
Sem vida

Acho que um bom musical colocaria as coisas no lugar
Quem sabe um épico grego
A Grécia bela

A Grécia de Apolo
De Atena

Chega de mediocridade!!!!!!!!!!!

Amiguinhos do cinema
Façam!!!! Criem a solução!!!!!

Fernanda Blaya Figueiró 
Posted 1 week ago by Fernanda Blaya Figueiró

O Entardecer da Humanidade

Resumo da ópera

Sobre as nuvens encontram-se Atena e Apolo
Do alto olham para a humanidade
Data: O Ano Maia
Horário: O entardecer da humanidade
Pauta: O sentido da vida
Sonoplastia: Carmina Burana

O imaginário diálogo entre os deuses sobre os rumos da humanidade é travado sob a égide da arte.
-Apolo!Protesto! Pelo bem da verdade, é grega, romana, anglo-saxônica, americana,oriental, africana, essa prosa??
- Bela Atena! O mundo adora novamente o dinheiro que reina soberano! Diga-me que diferença faz ?Ainda há essa separação das vozes
- Apolo, Apolo! Os mortais perderem o medo dela??? Dão seus pescoços a guilhotinas erradas? Falam e não ouvem... Esse parece o minuto que antecedeu ao das grandes guerras! Dizem eles: não há mais a guerra! E ela se avoluma vai se configurando diante de seus olhos cegos... Enquanto houver homens haverá a guerra. A fortuna do mundo aonde anda?
- Não havia lastro para a fortuna. Era feita da matéria desse nuvem. Acumulou tanto ficou pesada, mas chover não choveu. Os astros alinhados beberam a água que cria a fortuna do homem. Tem sede o cão, o gado, o pasto. Tem sede o homem.
- Calma! Em breve beberão a urina dos astros e tudo retornará! Como sempre tem acontecido desde que aqui estamos. Queres um gole do meu bom vinho retirado das pedras dos velhos castelos.
- No vinho a verdade! Que queres ouvir de mim? Ó oráculo de Delfos??
- Qual a tua soturna estratégia?Encho tua taça?
- Claro, jovem Apolo. Esperar, esperar, esperar!! A Fortuna muda como a lua, lembra a velha cantata. É ingrata e geniosa. Recebi de uma mortal, das mais comuns, um apelo!
-Um apelo! De intercessão?
- Uma súplica! Em nome do que mais adoro: a arte
- Arte!
- Atacaram o Teatro!
- O Teatro! Então foi por medo da verdade? Como os mortais temem a representação, os grandes feitos, as belas edificações. Lamentável! Querem tirar dos jovens a possibilidade de serem grandes, reduzindo-os a meros ruminantes. Pão e circo. O pão está contaminado e o circo banhado em sangue.
-  Que me dizer, querido Apolo, qual visão temos deste entardecer?
-Melancólica a luz entre a saída do sol e a chegada da lua. Vais atender a prece?
- Ainda não decidi. Minha espada ainda está guardada. Chorai, chorai, chorai!!!!O choro também rega a Terra.

Fernanda Blaya Figueiró
7 de setembro de 2012
Como nascem os déspotas?


Se você tivesse a chance de frear os déspotas e tiranos
Você faria?

Se você se aproximasse muito dos monstros
Monstro se tornaria?

Os déspotas nascem da passividade
Do medo do confronto

Sempre que nascem tiranos há
Uma vila de gente fraca

Uma falta de gente forte
Casas saqueadas e civilizações queimadas

Ausência do estado e
Estado de sítio

Supervalorização da morte e
Desvalorização da vida

Abuso de poder e
Direitos violados

Muita gente boa pereceu para que
Nós tenhamos hoje essa vida

É em nome dessa gente que
É preciso viver essa liberdade

Com responsabilidade
Não aceitando nenhuma forma de despotismo

Nem a da nossa própria mente
De achar que tem uma solução

Nunca, nunca, nunca
Há uma só solução

Fernanda Blaya Figueiró

08 de setembro de 2012







Estilhaços

Comprei hoje um livro antigo
Páginas amareladas guardam o cheiro
De guardado tem capa dura em cinza e a
Finesse de trazer só o título e o tradutor
Foi impresso em 1919, em Portugal
Na “Advertência” duas páginas charmosamente
Foram rasgadas, o mofo trabalhou as folhas e
Um furo vai da contracapa a página 115
Faminta traça nos leva a seguinte sentença
Quem eu sou?Parte da força, que,empenhada no mal,
o bem promove.
Fausto
Não te percebo o enigma.
Mephistopheles
Sou o espirito.”
dizes que é parte e eu te ve-jo completo!”
Há um detalhe este livro
Pertenceu a Belmonte de Macedo
Gravou seu nome em caneta tinteiro
Quem foi?
Não sei, só sei que deu seu nome a uma rua
Sua imagem é ligada a uma casa de religião
Logo em seguida há um emaranhado
Já em esferográfica indecifrável
Para não quebrar antigo rito
Grafo meu nome com a caneta
A única que tenho em mãos
Será que foi lido ou esquecido num canto de armário?
A vendedora o conhecia com a minúcias de uma amante
Ciumenta
Português bem antigo, totalmente decifrável
Colhi pequenas flores de jasmim do poeta, cinamomo e da
Pitangueira só as que as formigas ainda não haviam devorado
Assim o próximo comprador saberá que estamos quase na primavera

Mas
Não era sobre isso esse poema
Apesar de ser
Inicialmente queria falar sobre
Um tiro no escuro ou
Sobre um arremesso
Só que faltou uma caneta entre minhas coisas e
A ideia foi passando por uma mutação
Sem registro

Ao abril o livro em busca do fim do furo
Chego a esse esclarecimento
O fragmento é parte do completo
E tudo está explicado

Meu poema morre assim
Sem necessidade de ser escrito

Só lembro que seria em uma noite tomada
Pela tempestade e que a luz dos astros estava enterrada
De repente um apagão trazia para uma sinistra rua a
Respiração pesada e a consciência do som dos próprios
Passos
O peso da noite
A dúvida que surge no escuro
Peguei um pedaço de pedra estava febril
Joguei em um arbusto que sacudiu
Um zunido e um pequeno estrondo
E a luz voltou
Olhei para a minha mão e vi
Estava marcada pelo calor da pedra

Seria o fragmento de um corpo celeste
Decaído?


Fernanda Blaya Figueiró
13 de setembro de 2012

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