Ilusão?



Oi, gente!

Andava um pouco sem vontade de escrever e hoje me obriguei a vencer este bloqueio e escrever qualquer coisa... A poesia é delicada e geniosa demais para qualquer coisa então saiu esse conto. Mas é um começo.


 Ilusão? 

Talita, Antonieta e Francis trabalhavam na loja de ferramentas da esquina de uma antiga cidade brasileira. Sabe que não tem muita importância o nome da cidade, já que a grande parte delas se parece muito, então basta imaginar uma cidade metropolitana criada nos entornos de uma outra grande cidade e pronto temos nosso cenário. No dia quinze de dezembro, já fazem dois anos, a sorte delas mudou, a loja fechou. Primeiro porque os tempos são outros as ferramentas são vendidas em grandes lojas e poucas pessoas ainda as utilizam. A maioria das coisas vem pronta e descartável, muitas vezes consertar é mais caro do que comprar algo novo. As obras são feitas por grandes empreiteiras, que tem fornecedores diretos. Segundo porque seu Rosário faleceu e o prédio valia muito, então os herdeiros queriam transformar em um edifício de vinte andares. Na loja trabalhavam as três e seu Rosário. No edifício irão morar duzentas famílias, cada andar terá dez apartamentos, cada apartamento terá um box de garagem. Normalmente em um apartamento moram três pessoas então no lugar fixo de trabalho de quatro pessoas passarão a dividir o mesmo espaço seiscentas pessoas. Nos dias mais movimentados do ano a loja recebia entorno de duzentas ou trezentas pessoas, na maioria dos dias não passavam de cem. Talita e Antonieta atendiam no balcão, seu Rosário ficava no Caixa e nas compras, controle de estoque, toda a papelada. Francis cuidava da limpeza, do cafezinho, da correspondência. Seu Rosário morreu de repente, tinha a saúde de um touro, foi visitar o irmão e não voltou mais. Pegou todo mundo de surpresa, a loja estava funcionando normalmente e o dr. Gusmão veio dar a notícia, pediu que fechassem as portas e colocasse um recado para os clientes: Fechado por motivo de luto. A elas disse que deveriam ir para casa e esperar. Esperar uma ova! Decididas foram prestar sua última homenagem ao patrão. Sua presença causou um certo incomodo nos familiares, uma gente bem arrumada. Dr. Gusmão foi delicadamente agradecer a presença delas e informar que logo entraria em contato sobre a situação. Situação? Seu Rosário nem tinha esfriado e todos falavam na situação. Francis foi quem chamou as amigas para tomar um cafezinho e disse que achava que a presença delas estava sendo um problema. Não deixaram de notar que o velório tinha poucas pessoas e um ar de obrigação. Antonieta achou que elas deveriam sair de fininho. Talita disse que provavelmente todas estavam sem emprego. A realidade parece que bateu na porta da cafeteria, a vida delas mudaria. A loja nunca mais abriu as portas, o estoque foi vendido por uma bagatela, as mobílias viraram pó na demolição. Cada uma delas recebeu uma pequena indenização pelos anos de serviço e esse foi o fim de uma era. O novo edifício foi inaugurado com pompa e luxo, os herdeiros brigaram pela divisão do valor da venda dos apartamentos e nunca mais se falaram. Quinze de dezembro virou um dia marcante para as três amigas, elas sempre se reuniam para falar do “tempo da loja” e dos causos de seu Rosário. Cada uma refez a sua vida, continuou em frente, no início foi difícil ter perdido a loja, o chefe, a sua função, mas com o tempo as coisas voltaram PRO lugar. Seu Rosário sempre dizia: “Meninas, a vida é uma grande Ilusão! A desilusão é uma coisa sadia, quebra a ilusão, por alguns momentos e a gente pode ver a realidade. E como é bruta a realidade de uma história, por isso é preciso sonhar!”. Quando elas se reuniam, para lembrar, lá no fundo ouviam o velho jargão: “Meninas, vamos abrir as portas?” E uma risada debochada: “É hoje! É hoje que o velho Rosário enriquece...”

Fernanda Blaya Figueiró
25 de junho de 2012  

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