Vida


Vida

Estou pensando em traçar um paralelo que talvez não interesse a ninguém, mas vou fazer igual.
Em dezenove de fevereiro de 1954 nascia no Brasil o jogador de futebol e médico Sócrates, em 24 de fevereiro de 1955 nascia nos EUA o inventor, empresário e magnata Steve Jobs. Em dois mil e onze o mundo perdia estes dois grandes homens, o doutor com 57 anos e o inventor com 56 anos. Estes homens tão diferentes estiveram aqui quase no mesmo período, viveram emoções diferentes, tomaram decisões diferentes, deixaram memórias e legados diferentes. Cometeram erros e acertos, conheço pouco a biografia dos dois, mas desde a notícia de seus falecimentos fiquei com a impressão que podem elucidar um pouco sobre o sentido da vida. Eles ajudaram a mudar o mundo e precisaram de pouco tempo por aqui. Algumas de suas declarações ficaram marcadas para mim, ambos falaram abertamente sobre a possibilidade de morrer, achei uma atitude de coragem. “Ninguém quer morrer”. Neste momento estamos todas aqui, aproximadamente sete bilhões de pessoas, dividindo um tempo da vida do planeta, uma fatia de tempo. Sete bilhões de pessoas vivendo, comendo, sonhando, trabalhando, construindo, destruindo, consumindo, modificando a realidade. Steve Jobs foi muito feliz ao ter a coragem de falar na face renovadora da morte, Sócrates foi muito feliz ao admitir que o uso do álcool contribuiu para que seu corpo adoecesse. Ambos tinham consciência da finitude, do limite, mas continuaram vivendo e lutando até o último minuto, modificando o mundo.
As vezes quem escreve tem um pouco de medo da repercussão do que escreve, do olhar do leitor, da interpretação que o outro tem condições de fazer e da sua própria capacidade  de expressar as ideias claramente . Medo de estar errado, dissonante. Mas a possibilidade do erro é o risco que o escritor assume, o risco de ser risível, odiável, adorável, de modificar as coisas, interferir no pensamento do outro, de ser piegas, de ser repetitivo, brilhante, enfadonho... Não escrever é não encarrar a morte e saber que uma hora ela vem. Eu tenho uma crença, isso mesmo! Não é uma teoria, é uma crença. Acredito, com a fé cega das crenças, que cada ser humano tem um tempo para estar no mundo. Nenhum ser, nem o que viveu apenas algumas poucas horas morre antecipadamente. Mesmo o ser que ficou aqui poucas horas teve uma inexplicável experiência de vida. E que cada um pode viver a vida de um jeito diferente da do outro. Por isso gostaria de entender os moradores de rua e suas vivências, aceitar suas opções, suas jornadas e acho que mesmo na mais "degradante forma de vida" algum motivo tem para que aquele ser tenha chegado naquela condição. O pior dos assassinos não deixa de ser um ser humano e carrega com ele algum mistério da nossa existência. Existem muitas teorias sobre isso, eu sei. Mas gosto de pensar e de escrever o meu pensamento, mesmo correndo o risco de estar dizendo bobagens. São as minhas bobagens... 

Fernanda Blaya Figueiró
20 de fevereiro de 2012 

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