Questão de gênero


Questões de Gênero
Normalmente evito falar diretamente sobre questões de gênero, mas me perguntei sobre isso e resolvi escrever especificamente. Para mim as conquistas femininas e ou feministas são conquistas da humanidade, não só das mulheres. Assim como entendo que a superação da escravidão é um avanço de toda a sociedade e não só das populações que eram escravizadas. Não concordo muito que as mulheres antes eram “inferiores” as de hoje e nem que já não exerciam poder, as mulheres sempre tiveram poder, talvez não o poder político como entendido hoje. Superar uma barreira como por exemplo a da escravidão, depende de uma ação conjunta de toda a sociedade e até de quem se opõe a mudança. Eu me vejo como uma mulher que escreve, não como uma mulher feminista que escreve, porque concordo com alguns pontos e discordo de outros do movimento feminista. Acho que sem este movimento não teríamos hoje as oportunidade que temos, mas o pensamento feminista não pode se tornar um dogma ou uma obrigatoriedade, não pode minimizar a opção das mulheres que preferem viver de uma outra forma. Nem toda a mulher precisa ser “poderosa”, tem que se assegurar o direito a liberdade de expressão e de escolha. Se os ideais feministas, os quais conheço pouco, forem um imperativo vão falhar com as mulheres da mesma forma que falharam o patriarcado, o matriarcado, as formas convencionais de poder. É preciso respeitar a mulher que não quer ser mãe, tanto quanto a que quer ser. Assim como é preciso assegurar a mulher os direitos sobre o seu corpo, mas também o direito de um bebê de nascer, de uma criança, menino, menina, homo, hétero ou bissexual de vir ao mundo. Esse é o ponto no qual o feminismo mais se distancia de mim e eu dele. Sou absolutamente contra o aborto, por entender que o feto, mesmo minúsculo é uma vida. Sou a favor de prevenção da gravidez indesejada ou acidental, mas entendo que a mãe não tem o direito sobre a vida do filho, assim que ele é concebido, não é mais parte do seu corpo, é um novo indivíduo, um cidadão. Sou espiritualista, com formação católica e defendo o direito da ideia de Deus, e com ela o direito a vida. O argumento de que muitas meninas morrem nas mãos de “carniceiros” fazendo o aborto ilegalmente não justifica a legalização do mesmo, assim como a quantidade de jovens que morrem por acidentes de moto não justificaria o fim das motos, ou a legalização das drogas, devido ao índice de violência que gera... Legalizar o aborto e ou as drogas, só pioraria as coisas, no meu ponto de vista. Acredito no acesso aos meios anticoncepcionais, na prevenção com educação sexual, na esterilização pelo sistema único de saúde a quem queira, tanto para o homem que não quer filhos, quanto para a mulher. Eu tive meus filhos, um casal de gêmeos, aos dezessete anos, e não me arrependo, fui uma mãe jovem, casei e continuo casada até os dias de hoje. Na época da minha gravidez fui indagada sobre a possibilidade do aborto e decidi que sob hipótese alguma tomaria este caminho, meu marido concordou, casamos e seguimos a vida, com os caminhos livres e os trancos e barrancos que toda a relação longa tem. A vida tem altos e baixos e é feita de decisões. Todos os dias decidimos coisas importantes. Todos os dias travamos novas batalhas. Decidimos que não teríamos mais filhos e cuidamos para que isso não ocorresse. Sempre brinco que quando eu pensava “em quem sabe uma gravidez” acabava ganhando um cachorrinho, passarinho, ou gatinho, a família aumentava, minha vontade de ser mãe passava e todos ficavam contentes, acho que isso foi ótimo. Tenho amigas que abortaram e respeito a decisão delas, mesmo não concordando. Tenho amigas que se separaram e acho que essa para elas foi a melhor decisão. Tenho amigas que trabalharam a vida toda, outras lideres políticas, religiosas, diretoras de escolas, empresárias. Tenho amigas donas de casa, que adoram ser donas de casa, e acho isso louvável. Já trabalhei fora, já deixei de trabalhar, hoje acho que trabalho em casa, pois vejo a minha escrita como trabalho... Trabalho para mim não é só o resultado de uma ação remunerada é uma ação que transforma. Nas esferas do poder vou até um ponto, quando qualquer ambiente fica muito competitivo pulo fora, quando acho que é autodestrutivo não continuo. Me acho, talvez eu não seja, uma pessoa moderada, não tenho o perfil da política e acho que numa organização só de mulheres os mesmos jogos de poder se estabelecem, algumas atitudes humanas são inerentes ao poder, alguns esteriótipos são reproduzidos incansavelmente por homens e mulheres. Gostaria de chegar a um ponto em que as pessoas lessem um texto e pensassem sobre ele independentemente de ter sido escrito por uma mulher ou por um homem, por um pobre ou um rico, um branco ou um negro, um ateu ou um religioso, um jovem ou um velho, um famoso ou um anônimo. Ler o que está escrito sem a preocupação de vincular a um grupo ou uma ideologia. Respeito muito a história do feminismo e das feministas, mas defendo a liberdade de cada pessoa de tomar suas decisões, homem, mulher, homossexual, transsexual... Este é o mesmo cuidado me mantém sempre com uma postura crítica com relação ao pensamento do conceito de “sustentabilidade” e o discurso “eco”, que acredito que seja muito importante desde que não se torne mais uma forma de segregação e de poder, onde o “discurso” acabe se tornando único e opressor. Defendo o direito de ser vegetariano, onívoro ou carnívoro. Na prática acho que sou uma pessoa acomodada e consciente disso e acho que ser ou pensar assim não é nenhum “pecado” ou “alienação”. Sou submissa a alguns conceitos e momentos e subversiva em outros e essa dicotomia faz parte de mim e se reflete na minha escrita. Não sou uma pessoa coerente, sou volátil. Tenho um poema, “A loucura como uma metáfora poética” que diz algo assim: “... Digo nos verdes prados dos meus olhos Dormem a gazela e o leopardo Nunca sei bem qual deles há de acordar Primeiro
Se eu pudesse escolher um termo seria humanista, não machista ou feminista, gostaria de me ver como ser humano, gosto e admiro os homens e suas opções e gosto e admiro as mulheres e suas opções.

Fernanda Blaya Figueiró

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