Andarilho e mendigo não
são a mesma pessoa
Ontem comprei um arco e
flecha de artesanato de uma jovem mãe índia, no centro de Viamão.
Uma senhora olhou o bebê enroladinho e deitado sobre um pano e ficou
horrorizada, disse: - A gente cuida tanto de um bebê! Outra pessoa
respondeu a ela:- Mas eles se criam bem e com saúde... E eu falei:-
Temos que entender que é uma outra cultura. A mãe índia estava
trabalhando, devia ter por volta de quinze ou dezesseis anos, alguém
produziu o material, com qualidade, o mesmo tipo de adereço que seus
ancestrais trocavam por espelhos do “Homem Branco”. Quem ensinou
o seu povo a trocar foi a civilização que hoje condena a
sua ocupação dos centros urbanos. Eles viviam livremente por aqui,
colhiam, pescavam, caçavam. O arco e a flecha garantiam sua
existência. Vender artesanato não é mendigar, na minha opinião. Se não queremos ver estas mães sentadas nas calçadas devemos
encontrar soluções urbanas, espaços próprios para que elas
possam comercializar seus produtos, mas que respeitem sua autonomia,
sua cultura, as mães indígenas levam seus filhos para o trabalho e estão sempre com eles próximos do corpo, até que possam andar
sozinhos. Trabalham no horário que querem, na medida em que
necessitam, são andarilhas, pertencem a toda a América e transitam
por ela. Já os mendigos também sempre existiram, precisamos
compreender isso, sem nos escandalizarmos: algumas pessoas, em algum
momento quebram o elo com a “civilização”, quem são elas, o
que acontece e que direitos tem? Os drogados também sempre
existiram, querer tirá-los das ruas à força é um paliativo, não
uma solução. Quem são os drogados, como acabam na situação de viver nas ruas e roubando para sustentar o seu vício? Usuário de droga também é gente, não é coisa para ser removida a laço! Essa ocupação do espaço público deveria ser
entendida de uma forma mais ampla. As cidades precisam de espaços
públicos, de teatros, bibliotecas, museus, igrejas, templos, centros de
convivência, praças, ruas e de um gerenciamento pacífico e inteligente das
diferentes ocupações e funções destes espaços. O Brasil está
crescendo, resolvendo alguns graves problemas sociais e tende a se
tornar cada vez mais um bom lugar para viver.Precisamos ajustar
algumas coisas, sem cair num controle excessivo sobre o outro. Na
minha opinião o Ser Humano aceita as regras sociais, o Estado de
Direito, mas precisa de “válvulas de escape” para a pressão,
isso não é nenhuma novidade, é um conceito bem fundamentado, mas
que não tenho como dar referência, pois as perdi na memória. Tenho
acompanhado com estupor alguns programas sobre a retirada dos
“usuários de crack” das ruas, a eliminação dos “fumantes”,
a discriminação contra os “alcoólatras”, logo teremos contra
as prostitutas, os “diferentes” entre eles os religiosos, as
pessoas que não tem ou não usam a cor da moda, a sexualidade
permitida. Isso já foi superado, não podemos sob hipótese alguma
deixar que retorne. Não quero o retorno a um pensamento
discriminatório e excludente. Não que eu ache que a senhora que
olhou a mãe índia estivesse sendo preconceituosa, mas as vezes nos
horrorizamos com coisas que não são horríveis, são diferentes. Já
recebi diversas vezes um e-mail, que fala que Cazuza foi um ídolo
idiota, pois morreu drogado e não serve de “modelo”. Cristo
seria nesta ótica um idiota, já que também morreu jovem? Vejamos outros : Joana D'arc, Elis
Regina, Raul Seixas, Amy, Janis Joplin, Michael Jackson, Edith Piaf,
Van Gogh... São tantos que fica difícil de enumerar. Cazuza eu te
amo, mesmo que tu tenha sido diferente. Cazuza eu queria saber melhor quem foi este menino, porque sua memória causa tanto medo e horror em algumas pessoas?
Deixem válvulas de escape, pois senão o mundo estoura como uma
panela de pressão cuja válvula estragou. Um bom Fórum Social
Temático para todos nós! Estarei lá...
Fernanda Blaya Figueiró
19 de janeiro de 2012
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