- Eu desejo
Um dos maiores mistérios que temos a desvendar é o nosso desejo. Nosso desejo cria a realidade, ando um pouco sem palavras, elas sempre me ajudaram a mover meu processo criativo, que depois de algum tempo parece ter chegado a exaustão. Escrevi muito nos últimos tempos e essa produção parece que se tornou repetitiva. Também a produção do livro parece que cria um fim imaginário de um ciclo. De uma cadeia produtiva e acredito que seja mesmo isso, cria uma dimensão, uma barreira ilusória. A sensação que fica é a de que direi tudo novamente. E direi. Não sei se isso pode entusiasmar algum futuro leitor, mas creio que direi as mesmas coisas com um pouquinho mais de clareza, ou talvez cerceadas por esta autocensura. Resolvi falar sobre isso como uma redoma que preciso estilhaçar. As relações interpessoais são como meus textos de alguma forma repetitivas e similares, isso nos leva a erguer barreiras, para que padrões repetitivos não retornem. É cansativo iniciar uma nova interação sabendo que dela virão muitas etapas conhecidas. Toda a relação inclui expectativas, frustrações, ciúmes, alegrias, tristezas, fofocas... Blablabla... Essa invisível redoma que interpomos entre nós e o mundo impede o acesso a novas e reais experiências. O novo e o real vão vir exatamente como era o velho e o irreal. Mas, para além da redoma, algo realmente desconhecido está para ser revelado. Estilhaçar o vidro e ampliar a percepção independe de nós. Sempre vamos procurar manter o chão firme sob os pés e, é esse chão firme, que na verdade não existe, que mantém tudo acomodado. Até um tombo, que também não depende de nós, nos desequilibrar e nos obrigar a restabelecer o real. Criar um texto é estabelecer uma relação com um objeto, cada palavra tem um peso e um impacto num terceiro, o leitor, categoria na qual o próprio escritor se coloca, ao “reler” seu trabalho. Um poema, um quadro, uma música, uma atuação forma um triângulo. Envolve quem escreveu, o que foi escrito e quem lê. Deste triangulo surge uma idéia que passa a vagar sem dono. Essa idéia é um “desejo” , uma vontade, um mistério, gera raiva, amor, ódio, paixão, sabedoria, ignorância... Esses sentimentos retornam em palavras e elas, as palavras, criam a realidade e tecem a estética. Todo artista quer dizer algo novo, mas não precisa. Quando conseguimos dizer já não é mais novo é parte do velho. Mas, prepara o próximo passo. Por isso o “andar” está sempre tão presente na arte, nos mantemos conscientes desta aquisição pré histórica, para entender a vida. No texto Roteiro de Linna Franco, coloquei uma metáfora que sempre me acompanha desde pequena – Porque as preás atravessam a estrada? Isso sempre me incomodou ao ver um animalzinho morto na beira de uma estrada. Porque eles continuam tentando a travessia? A personagem responde : - Porque as pessoas vão de um lugar ao outro?- Essa é uma das minhas maiores questões. È o tema da minha poesia e prosa. È algo muito simples e todavia bem complicado, é uma velha indagação. De onde viemos, para onde vamos, etc... As hipóteses de resposta a esta questão são longos discursos. Estou com os pés no chão e preciso levantar a perna, inclinar o dorso e voltar a andar.
Escolhi hoje desejo, ou ela se apresentou a mim esta estranha palavra, que precedido de um pronome vai recriar meu mundo.
Eu desejo flutuar, ou fluir.
Fernanda Blaya Figueiró
22/11/2010
Um dos maiores mistérios que temos a desvendar é o nosso desejo. Nosso desejo cria a realidade, ando um pouco sem palavras, elas sempre me ajudaram a mover meu processo criativo, que depois de algum tempo parece ter chegado a exaustão. Escrevi muito nos últimos tempos e essa produção parece que se tornou repetitiva. Também a produção do livro parece que cria um fim imaginário de um ciclo. De uma cadeia produtiva e acredito que seja mesmo isso, cria uma dimensão, uma barreira ilusória. A sensação que fica é a de que direi tudo novamente. E direi. Não sei se isso pode entusiasmar algum futuro leitor, mas creio que direi as mesmas coisas com um pouquinho mais de clareza, ou talvez cerceadas por esta autocensura. Resolvi falar sobre isso como uma redoma que preciso estilhaçar. As relações interpessoais são como meus textos de alguma forma repetitivas e similares, isso nos leva a erguer barreiras, para que padrões repetitivos não retornem. É cansativo iniciar uma nova interação sabendo que dela virão muitas etapas conhecidas. Toda a relação inclui expectativas, frustrações, ciúmes, alegrias, tristezas, fofocas... Blablabla... Essa invisível redoma que interpomos entre nós e o mundo impede o acesso a novas e reais experiências. O novo e o real vão vir exatamente como era o velho e o irreal. Mas, para além da redoma, algo realmente desconhecido está para ser revelado. Estilhaçar o vidro e ampliar a percepção independe de nós. Sempre vamos procurar manter o chão firme sob os pés e, é esse chão firme, que na verdade não existe, que mantém tudo acomodado. Até um tombo, que também não depende de nós, nos desequilibrar e nos obrigar a restabelecer o real. Criar um texto é estabelecer uma relação com um objeto, cada palavra tem um peso e um impacto num terceiro, o leitor, categoria na qual o próprio escritor se coloca, ao “reler” seu trabalho. Um poema, um quadro, uma música, uma atuação forma um triângulo. Envolve quem escreveu, o que foi escrito e quem lê. Deste triangulo surge uma idéia que passa a vagar sem dono. Essa idéia é um “desejo” , uma vontade, um mistério, gera raiva, amor, ódio, paixão, sabedoria, ignorância... Esses sentimentos retornam em palavras e elas, as palavras, criam a realidade e tecem a estética. Todo artista quer dizer algo novo, mas não precisa. Quando conseguimos dizer já não é mais novo é parte do velho. Mas, prepara o próximo passo. Por isso o “andar” está sempre tão presente na arte, nos mantemos conscientes desta aquisição pré histórica, para entender a vida. No texto Roteiro de Linna Franco, coloquei uma metáfora que sempre me acompanha desde pequena – Porque as preás atravessam a estrada? Isso sempre me incomodou ao ver um animalzinho morto na beira de uma estrada. Porque eles continuam tentando a travessia? A personagem responde : - Porque as pessoas vão de um lugar ao outro?- Essa é uma das minhas maiores questões. È o tema da minha poesia e prosa. È algo muito simples e todavia bem complicado, é uma velha indagação. De onde viemos, para onde vamos, etc... As hipóteses de resposta a esta questão são longos discursos. Estou com os pés no chão e preciso levantar a perna, inclinar o dorso e voltar a andar.
Escolhi hoje desejo, ou ela se apresentou a mim esta estranha palavra, que precedido de um pronome vai recriar meu mundo.
Eu desejo flutuar, ou fluir.
Fernanda Blaya Figueiró
22/11/2010
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