Conto

Os tamancos de Esperança


Esperança era filha de dona Felicidade, as duas moravam bem rente ao rio e viviam de bolinhos de peixe, Felicidade os fazia e Esperança os vendia. As mulheres levavam a vida como a vida as levava. Seus bolinhos eram afamados em toda a região
– Bem quentinho, são os bolinhos... De Felicidade!!! Entoava Esperança, desde criança. – Bolinhos, bolinhos... Bem temperados e fresquinhos. Felicidade os faz, Esperança os vende.
O vilarejo cresceu, virou cidade, mas ninguém esquecia das duas mulheres que um dia ali viviam, como a vida as levava. Os peixes eram fornecidos pela colônia de pescadores, sempre frescos e bem escolhidos. Um pouco antes do almoço e um pouco antes do jantar Esperança passava com a cesta cheia de bolinhos, fizesse chuva ou sol e sempre vendia tudinho, tudinho . Menos no domingo... No domingo Esperança calçava seus tamancos e dançava no antigo salão. No tempo em que havia bailes e festejos, coisa antiga mesmo. Felicidade nem aos bailes ia, gostava de ficar em casa e de andar na beira do rio. Quem olhasse a casinha sempre bem arrumada, com delicadas flores no jardim não entendia a falta de luz e outros confortos da modernidade. O fogão era a lenha, o banho aquecido com caldeira e a luz de lampião. O maior luxo que as duas se permitiam ter era um velho e grande rádio, que funcionava com pilhas. Com o tempo os bailes foram escasseando a cidade se tornou metrópole e a história das duas virou uma atração. Quem diria? Os bolinhos ganharam selo, franquia e publicidade. A casa recebia visitas importantes e tudo na volta mudou a margem do rio ganhou um largo calçadão, bares e uma vida agitada. O lugar passou a chamar “Dona Felicidade” e a praça defronte ao rio de “Esperança”. Um dia uma menina, muito faceira, resolveu fazer um filme sobre a história das duas mulheres. Buscou velhas fotografias, baús e bilhetes – A gente leva a vida, como a vida nos leva!A receita dos bolinhos, rabiscada em papel pardo, vinda diretamente de Portugal, trazida por uma antiga tia de Dona Felicidade. No domingo a menina descobriu que na velha casinha Esperança ainda dançava... Todo o Domingo, no fim da tarde, hora dos antigos bailes, ela calçava seus tamancos e dançava em frente ao velho rádio, que tocava antigas cantigas bem ao gosto popular. A menina ficou espantada olhando para as duas mulheres. Dona Felicidade caminhando rente ao rio e Esperança dançando com seus tamancos. Tamancos que viram as distantes terras de Portugal - como estava anotado nos bilhetes - tinham sido feitos pelo pai de Dona Felicidade, antes deste vir para o Brasil, atrás de trabalho e fortuna. Os tamancos eram de um lugar que tinha um rio, onde se faziam bolinhos de peixe. No fim do domingo a menina achou aquilo tão triste, tão abandonado e perdido. O sol se pôs e as duas acenderam o lampião, só então a menina percebeu que estava diante da Felicidade e da Esperança. Uma andava rente ao rio a outra dançava calçando tamancos... Vindos das distantes terras de Portugal... – Bem quentinho, são os bolinhos... De Felicidade!!! Entoava Esperança, desde criança. – Bolinhos, bolinhos... Bem temperados e fresquinhos. Felicidade os faz, Esperança os vende. Da menina diziam que ficou louca, encontrar Felicidade e Esperança, numa casa tão perdida e abandonada. Que filme, que nada, a história rendeu foi muita conversa e fiada...

Fernanda Blaya Figueiró

21 de agosto de 2010.

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