conto

Ele fechou a porta.

Alguém bateu desesperadamente em uma porta que não deveria estar fechada. Tudo parecia urgente, imperativo, importante...Isso chamou minha atenção e aguçou minha curiosidade. Abriram a porta e este alguém entrou. Logo em seguida um grupo chegou e a história repetiu, a porta deveria esta aberta, só que para estes bastou um leve toque e logo foram atendidos. Quem abriu a porta fazia algo errado e foi tomado de susto ao descobrir a pequena multidão e gaguejou ao tentar justificar sua atitude... Disse que precisava ficar sozinho para criar, queria saber como se sentiam os grandes atores da antiguidade, precisava de um pouco de privacidade junto ao palco. Ninguém acreditou, mas todos ficaram satisfeitos. Não era nada de mais, nenhum grande crime ocorreu. O grupo entrou e a porta passou a ficar como deveria, aberta. Somos todos loucos! Para o jovem ator o ato de loucura de fechar a porta por alguns breves instantes rendeu um olhar atento do grupo. As bobagens que disse, em sua defesa, despertaram a atenção. Esta atenção, justamente ela, iria detonar um mecanismo de intrigas, invejas, maledicências, tão importante na formação de um ídolo. O escândalo de fechar a porta abriria sua passagem para o mundo dos loucos. Uma loucura sem dúvidas, o garoto foi arrogante, prepotente e insano. Imaginar que tinha o direito de manter a porta fechada, diriam alguns. Já outros ficariam espantados com sua coragem, fechar a porta na presença do diretor do Teatro. E essa necessidade de estar só, de tornar-se uno com o palco, para uns uma grande tolice, para outros uma genialidade. Toda a vez que a luz ilumina um ponto o ator que nele esteja está só e nu, despido de si e vestido de uma outra persona. Não é preciso ter portas trancadas e nem ausência de público, o silêncio do palco é o mesmo do centro do furacão, ou da percepção da loucura. È um pisar firme e ver o que ninguém mais vê, ouvir o que não foi dito... Contestavam os especialistas. Ele passou a ser visto como um garoto especial, fino, belo, instigante. Há quem diga que só se tornou um grande nome pelo ato de desobediência ao estabelecido. Depois daquilo nunca mais teve um instante de Paz, tudo o que fazia ou dizia era “o louco” fazendo ou dizendo. Todos os seus personagens eram vistos e sentidos como frutos de uma busca solitária. Todas as peças a ele oferecidas tinham esta irascível marca. Cada texto que lia e escolhia podia ser assim entendido. Até que sua morte deixou o lugar para que sua vida fosse recontada com o florido da rebeldia, suas palavras ganhassem o tom lilás da sabedoria. Suas histórias viraram belas metáforas e sua humanidade foi destilada, como as fortes bebidas são. Só ele sabia que tudo isso se deu por que comeu muito, fechou a porta para poder soltar um humano Pum. Não buscava nada além de aliviar o desconforto do instestino... Nesta época em que viveu, o ser humano ser um animal, era quase um crime. Assim logo que morreu virou uma espécie de Deidade: O Deus da Porta Fechada. Levou consigo seu grande e aterrador segredo.

Viamão, 16 de julho de 2010

Fernanda Blaya Figueiró

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