Mini conto

Estranha vontade


Um dia, em terras muito longínquas, encontraram-se todos os mortos das últimas guerras. Todos! Independentemente de bandeira, credo, cor da tez, idade, cronologia. Eles tinham que andar. Andar e olhar. Olhar o irmão e o inimigo. O igual e o diferente. Inicialmente aparentavam a imagem que tinham um pouco antes de suas guerras começarem e eram tomados dos mesmos sentimentos. O sol iluminava um campo de gente bonita e cheia de esperanças. Na medida em que começaram a andar e olhar para os outros algumas pequenas rusgas começaram a aparecer e os seus sentimentos foram mudando. Uma certa raiva foi se instalando entre eles, um ranger de dentes. Uma rapidez em desviar, um esquivar de ombros e uma irritação foi pesando o ambiente. A luz diminuiu e as tensões turvaram os olhares. O silêncio invadiu o ar. Todos eles passaram a aparentar e a sentir o que sentiam um pouco antes de suas mortes. Medo, ódio, indignação, fé... Então uma pausa aconteceu e eles puderam se olhar no espelho. Depois continuaram andando e olhando e descobrindo no outro a sua própria dor. Anoiteceu. Eles pararam por alguns instantes e deram-se as mãos. Uma enorme corrente se formou. Uma corrente de perdão e sorrisos. Depois disso todos eles foram libertados de suas sortes, de seus pesares e medos. Cada um ganhou a missão de retornar ao mundo e de andar entre as pessoas, para sentir o que estavam sentindo e olhar as mudanças pelas quais passavam. Quando a esquiva e as rusgas apareciam eles tentavam buscar um sorriso. Uma ou outra pessoa correspondia e assim evitava que o ódio se instalasse. Se você andar por aí com uma ruga na testa, se esquivando dos outros e cheio de pesares e sentir uma repentina vontade de sorrir, lembre-se desta terra longínqua e sorria.

Viamão, 3 de abril de 2010.
Fernanda Blaya Figueiró

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