O vigiar
Foi tão forte a sensação de estar sendo observado que Enigma virou a cabeça e procurou um olhar. Eram tempos de muita violência e esta sensação colocou todo seu corpo em estado de alerta. Mesmo cruzando a rua e vacilando em seguir em frente sua atenção continuou redobrada. Disfarçadamente entrou no museu e deu uma volta, queria olhar a rua de um ponto seguro e avaliar se esta sensação tinha sentido. Era jovem, alto, magro, usava jeans, cabelos longos e uma mochila preta. Atento e confiante retornou seu caminho. Mas, só relaxou quando chegou a seu destino. O salão estava uma “zona”, uma exposição havia sido desmontada e outra ocuparia seu lugar. Da mochila retirou seus equipamentos e começou a trabalhar. Assim que pegou a furadeira foi advertido, pela chefe da segurança, que não deveria perfurar nada. A sensação de estar sendo vigiado voltou com uma força avassaladora. A mulher ligou para seus superiores que enviariam um responsável. Enigma informou que a orientação de fixar os fios de energia era uma exigência dos bombeiros. Isso colocava a “poderosa chefe” numa posição inferior em alguma hierarquia e criava um impasse. Ele não curtia hierarquia, por isso era autônomo. O imenso salão parou por meia hora para que alguém conseguisse uma autorização para perfuração do solo ou assumisse o risco de não fixar os fios. Perfurar o solo, parecia um ato de muita importância. Furar o piso tosco de um salão. Canaletas. Enigma sugeriu que alguém providenciasse canaletas para proteger os fios. Mais meia hora de espera. O serviço já estaria pronto se não fosse toda essa indecisão. A mulher falava em código com algum superior, ou algum amigo imaginário. Faltavam duas horas para a inauguração e tudo estava parado por causa de um furo. Enquanto as canaletas não vinham ele aproveitou para conferir as mensagens em seu celular, nada de mais. A mulher olhava para ele com desprezo, com o rádio na mão. Enigma foi até a porta do prédio e acabou tomado de assalto pela abordagem rápida da polícia. Uma senhora, acompanhada de dois policiais apontava para ele. Foi esse rapaz!- disse- Ele que me assaltou. Tomado pelo pânico, puxou a carteira para mostrar os documentos. Foi jogado contra a parede e não teve tempo de dizer nada. O policial reagiu a seu movimento brusco puxando uma arma. Com a boca colada na parede ele balbuciou que era eletricista e que esteve a tarde toda trabalhando na instalação da rede elétrica do salão. O policial não ouviu uma palavra, algemou o rapaz e o levou para a delegacia. Os olhos da chefe de segurança brilharam, com o rádio na mão pediu que ele fosse substituído. Não moveu um músculo para ajudá-lo. Não era um problema seu. Ele chegou na delegacia com a boca inchada e foi jogado num canto. Tinha direito a um telefonema. Ligou para sua mãe, que gaguejava no outro lado da linha : - O que você fez meu filho?. Nada. Não havia feito nada. Tudo aquilo não passava de um engano. Foi invadido por uma sensação de abandono, misturada com uma raiva danada. A mãe ligaria para um tio, que ligaria para um advogado. O delegado perguntou então a mulher, se ela confirmava que esse era o homem do assalto. A mulher parou e olhou para ele e respondeu que sim, informou que tinha as imagens da Lancheria, havia gravado tudo. Enigma respirou aliviado. As imagens provariam que ele não tinha nada com isso. O policial entregou uma fita ao delegado. Na fita um homem de cabelos curtos, baixa estatura e tronco largo, que usando jeans e tênis, invadia a Lancheria e roubava o dinheiro do caixa, saía correndo... a mulher saía de trás do balcão e corria para a porta gritando... os policiais apareciam logo depois.Tudo numa rápida seqüência. O ângulo da filmagem era ambíguo e não mostrava o rosto do homem e nem detalhes da roupa, além de distorcer as proporções do corpo do meliante. Enigma disse que estava no salão trabalhando e que não era ele na filmagem. O delegado explicou que as imagens não eram claras, assim como podia ser ele, também podia não ser. Dez angustiantes horas passaram. Ele estava exausto quando saiu da delegacia, acompanhado pelo tio e pelo advogado. Duro foi olhar a mãe e ver em seus olhos uma pontinha de dúvida. Ele não havia feito nada, mas ninguém acreditava. Perdeu qualquer chance de conseguir um novo contrato com a empresa. Foi jogado para fora do mercado. Passou a vagar pelas ruas, viver de biscates e conviver com a estranha sensação de estar sempre sendo vigiado. Descobriu que não existe um ponto seguro para olhar a vida, a qualquer momento o chão pode tremer e o mundo desabar sobre a sua cabeça. A Lancheria continuou sendo assaltada, o salão continuou sendo modificado. A “chefe de segurança” continuou com o rádio na mão. Enigma cortou o cabelo, abandonou os jeans, ganhou peso e virou uma sombra, uma sombra do que queria ter sido. Tudo isso foi exposto por um pequeno furo no chão tosco de um velho salão.
Viamão, 12 de abril de 2010.
Foi tão forte a sensação de estar sendo observado que Enigma virou a cabeça e procurou um olhar. Eram tempos de muita violência e esta sensação colocou todo seu corpo em estado de alerta. Mesmo cruzando a rua e vacilando em seguir em frente sua atenção continuou redobrada. Disfarçadamente entrou no museu e deu uma volta, queria olhar a rua de um ponto seguro e avaliar se esta sensação tinha sentido. Era jovem, alto, magro, usava jeans, cabelos longos e uma mochila preta. Atento e confiante retornou seu caminho. Mas, só relaxou quando chegou a seu destino. O salão estava uma “zona”, uma exposição havia sido desmontada e outra ocuparia seu lugar. Da mochila retirou seus equipamentos e começou a trabalhar. Assim que pegou a furadeira foi advertido, pela chefe da segurança, que não deveria perfurar nada. A sensação de estar sendo vigiado voltou com uma força avassaladora. A mulher ligou para seus superiores que enviariam um responsável. Enigma informou que a orientação de fixar os fios de energia era uma exigência dos bombeiros. Isso colocava a “poderosa chefe” numa posição inferior em alguma hierarquia e criava um impasse. Ele não curtia hierarquia, por isso era autônomo. O imenso salão parou por meia hora para que alguém conseguisse uma autorização para perfuração do solo ou assumisse o risco de não fixar os fios. Perfurar o solo, parecia um ato de muita importância. Furar o piso tosco de um salão. Canaletas. Enigma sugeriu que alguém providenciasse canaletas para proteger os fios. Mais meia hora de espera. O serviço já estaria pronto se não fosse toda essa indecisão. A mulher falava em código com algum superior, ou algum amigo imaginário. Faltavam duas horas para a inauguração e tudo estava parado por causa de um furo. Enquanto as canaletas não vinham ele aproveitou para conferir as mensagens em seu celular, nada de mais. A mulher olhava para ele com desprezo, com o rádio na mão. Enigma foi até a porta do prédio e acabou tomado de assalto pela abordagem rápida da polícia. Uma senhora, acompanhada de dois policiais apontava para ele. Foi esse rapaz!- disse- Ele que me assaltou. Tomado pelo pânico, puxou a carteira para mostrar os documentos. Foi jogado contra a parede e não teve tempo de dizer nada. O policial reagiu a seu movimento brusco puxando uma arma. Com a boca colada na parede ele balbuciou que era eletricista e que esteve a tarde toda trabalhando na instalação da rede elétrica do salão. O policial não ouviu uma palavra, algemou o rapaz e o levou para a delegacia. Os olhos da chefe de segurança brilharam, com o rádio na mão pediu que ele fosse substituído. Não moveu um músculo para ajudá-lo. Não era um problema seu. Ele chegou na delegacia com a boca inchada e foi jogado num canto. Tinha direito a um telefonema. Ligou para sua mãe, que gaguejava no outro lado da linha : - O que você fez meu filho?. Nada. Não havia feito nada. Tudo aquilo não passava de um engano. Foi invadido por uma sensação de abandono, misturada com uma raiva danada. A mãe ligaria para um tio, que ligaria para um advogado. O delegado perguntou então a mulher, se ela confirmava que esse era o homem do assalto. A mulher parou e olhou para ele e respondeu que sim, informou que tinha as imagens da Lancheria, havia gravado tudo. Enigma respirou aliviado. As imagens provariam que ele não tinha nada com isso. O policial entregou uma fita ao delegado. Na fita um homem de cabelos curtos, baixa estatura e tronco largo, que usando jeans e tênis, invadia a Lancheria e roubava o dinheiro do caixa, saía correndo... a mulher saía de trás do balcão e corria para a porta gritando... os policiais apareciam logo depois.Tudo numa rápida seqüência. O ângulo da filmagem era ambíguo e não mostrava o rosto do homem e nem detalhes da roupa, além de distorcer as proporções do corpo do meliante. Enigma disse que estava no salão trabalhando e que não era ele na filmagem. O delegado explicou que as imagens não eram claras, assim como podia ser ele, também podia não ser. Dez angustiantes horas passaram. Ele estava exausto quando saiu da delegacia, acompanhado pelo tio e pelo advogado. Duro foi olhar a mãe e ver em seus olhos uma pontinha de dúvida. Ele não havia feito nada, mas ninguém acreditava. Perdeu qualquer chance de conseguir um novo contrato com a empresa. Foi jogado para fora do mercado. Passou a vagar pelas ruas, viver de biscates e conviver com a estranha sensação de estar sempre sendo vigiado. Descobriu que não existe um ponto seguro para olhar a vida, a qualquer momento o chão pode tremer e o mundo desabar sobre a sua cabeça. A Lancheria continuou sendo assaltada, o salão continuou sendo modificado. A “chefe de segurança” continuou com o rádio na mão. Enigma cortou o cabelo, abandonou os jeans, ganhou peso e virou uma sombra, uma sombra do que queria ter sido. Tudo isso foi exposto por um pequeno furo no chão tosco de um velho salão.
Viamão, 12 de abril de 2010.
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