Amigos do imaginário
Benta estava perplexa olhando para a amiga, ela havia visto tantos filmes de sua atriz preferida que seus traços, gestos, a entonação das palavras, tudo lembrava algum personagen. Expressões características, frases completas eram repetidas exaustivamente. Estava em dúvida entre dizer ou não, poderia magoar seus sentimentos. Optou pelo silêncio, no momento exato em que ela começou a contar uma coisa horrível que haviam dito sobre si. “- Imagine! A delinqüente da ex dele disse que eu imitava a Kate. Pode?” Benta sentiu um alívio por não ter dito o que todo mundo percebia. “Que horror!” a expressão saiu de sua boca espontaneamente. A ex dele! Jéssica estava morrendo de ciúmes de uma sombra. Odiava com toda a força dramática que o ódio pode atingir um ser que não conhecia: A ex. Um longo colóquio sobre as terríveis intenções da sombra tomou o centro da conversa. Estavam na beira da praia, o sol aquecia a água, o mar trazia pequenas conchas e Jéssica só conseguia pensar na ex dele. Benta ouvia a amiga e tentava identificar nos outros banhistas que personagens estavam interpretando. O senhor gordo com relógio de ouro e uma garota tipo capa de revista devia ser um Xeque. A senhora de túnica transparente e chapéu de palha uma Duquesa tirada de algum livro inglês. Os garotos e suas pranchas pareciam ter saído de uma novela americana. “ Então! O que você acha?” . Ela foi pega de surpresa e não teve tempo de assimilar a pergunta. “Acho que você tem toda a razão, ela tá dando em cima dele e ele tá dando mole...” Jéssica empalideceu e usou a performance de Kate em um de seus melhores filmes. Benta viu a amiga desmoronar, como um monte de areia levada pela água do mar. Que maldade, pensou, porque havia dito aquilo? “Calma! De repente não é nada disso!” Tentou disfarçar, mas Jéssica chorava copiosamente, como Kate quando descobriu sobre a morte inesperada de seus pais, na última novela. O sorveteiro, que parecia um sorveteiro e mais nada, passou e Benta pediu dois enormes sorvetes de chocolate. As duas riram como se isso fosse uma piada antiga. Jéssica concluiu que estava exagerando, Benta retirou sua fala dizendo que achava que eles formavam um par perfeito e que a “ex” estava era com inveja. Passado o susto, Benta perguntou a Jéssica. E eu? A amiga não entendeu e logo ela explicou: se eu fosse parecida com alguém, com quem seria? Como assim?? Deixa pra lá, respondeu sem perder tempo. De repente pareceu que todos os seus sentimentos eram imitados de alguém. Pareceu que seus sonhos tinham sido fabricados desde a infância. Revisitou seu imaginário e descobriu muitas emoções baratas tiradas de uma longa trilha sonora. Encontrou cenas parecidas com seus melhores e piores momentos. A noite caiu e a “ex” passou com ele, por elas. Benta viu Jéssica esnobar os dois como Kate havia feito na mini série de agosto... Benta pensou em buscar explicação nas antigas escrituras, ou nas histórias dos reis e rainhas, nas peças dos grandes dramaturgos... Tinha inúmeras imagens que poderiam sustentar a precariedade daquele momento. Mas, o sorveteiro passou entoando uma velha cantiga que era exatamente o que o momento exigia. Jéssica estava refeita como Kate ao perder o prêmio do ano. Benta estava encantada por aquela melodia. O sorveteiro não agüentou e disse: “ Alguém já lhe disse que você parece com aquela cantora ... Benta deu um beijo inesperado no homem que lhe disse enfim quem ela era.
Viamão, 27 de abril de 2010
Fernanda Blaya Figueiró
Benta estava perplexa olhando para a amiga, ela havia visto tantos filmes de sua atriz preferida que seus traços, gestos, a entonação das palavras, tudo lembrava algum personagen. Expressões características, frases completas eram repetidas exaustivamente. Estava em dúvida entre dizer ou não, poderia magoar seus sentimentos. Optou pelo silêncio, no momento exato em que ela começou a contar uma coisa horrível que haviam dito sobre si. “- Imagine! A delinqüente da ex dele disse que eu imitava a Kate. Pode?” Benta sentiu um alívio por não ter dito o que todo mundo percebia. “Que horror!” a expressão saiu de sua boca espontaneamente. A ex dele! Jéssica estava morrendo de ciúmes de uma sombra. Odiava com toda a força dramática que o ódio pode atingir um ser que não conhecia: A ex. Um longo colóquio sobre as terríveis intenções da sombra tomou o centro da conversa. Estavam na beira da praia, o sol aquecia a água, o mar trazia pequenas conchas e Jéssica só conseguia pensar na ex dele. Benta ouvia a amiga e tentava identificar nos outros banhistas que personagens estavam interpretando. O senhor gordo com relógio de ouro e uma garota tipo capa de revista devia ser um Xeque. A senhora de túnica transparente e chapéu de palha uma Duquesa tirada de algum livro inglês. Os garotos e suas pranchas pareciam ter saído de uma novela americana. “ Então! O que você acha?” . Ela foi pega de surpresa e não teve tempo de assimilar a pergunta. “Acho que você tem toda a razão, ela tá dando em cima dele e ele tá dando mole...” Jéssica empalideceu e usou a performance de Kate em um de seus melhores filmes. Benta viu a amiga desmoronar, como um monte de areia levada pela água do mar. Que maldade, pensou, porque havia dito aquilo? “Calma! De repente não é nada disso!” Tentou disfarçar, mas Jéssica chorava copiosamente, como Kate quando descobriu sobre a morte inesperada de seus pais, na última novela. O sorveteiro, que parecia um sorveteiro e mais nada, passou e Benta pediu dois enormes sorvetes de chocolate. As duas riram como se isso fosse uma piada antiga. Jéssica concluiu que estava exagerando, Benta retirou sua fala dizendo que achava que eles formavam um par perfeito e que a “ex” estava era com inveja. Passado o susto, Benta perguntou a Jéssica. E eu? A amiga não entendeu e logo ela explicou: se eu fosse parecida com alguém, com quem seria? Como assim?? Deixa pra lá, respondeu sem perder tempo. De repente pareceu que todos os seus sentimentos eram imitados de alguém. Pareceu que seus sonhos tinham sido fabricados desde a infância. Revisitou seu imaginário e descobriu muitas emoções baratas tiradas de uma longa trilha sonora. Encontrou cenas parecidas com seus melhores e piores momentos. A noite caiu e a “ex” passou com ele, por elas. Benta viu Jéssica esnobar os dois como Kate havia feito na mini série de agosto... Benta pensou em buscar explicação nas antigas escrituras, ou nas histórias dos reis e rainhas, nas peças dos grandes dramaturgos... Tinha inúmeras imagens que poderiam sustentar a precariedade daquele momento. Mas, o sorveteiro passou entoando uma velha cantiga que era exatamente o que o momento exigia. Jéssica estava refeita como Kate ao perder o prêmio do ano. Benta estava encantada por aquela melodia. O sorveteiro não agüentou e disse: “ Alguém já lhe disse que você parece com aquela cantora ... Benta deu um beijo inesperado no homem que lhe disse enfim quem ela era.
Viamão, 27 de abril de 2010
Fernanda Blaya Figueiró
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