Textos de Oficina

Bom dia!

Ano passado participei de uma oficina de Literatura para Mulheres, promovida pela Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul em parceria com o SESI, com coordenação de Lívia Petry. Ao longo da oficina produzi alguns textos, cada oficinando escolheu cinco textos para um livro que deverá sair até o fim do ano, então estes devem permanecer inéditos. Já os outros decidi publicar aqui.
Fernanda

Amargo Fruto.

Drogas... Menino encontrado morto, com quatro tiros.
Íris sentiu um arrepio, ao ler, de relance, a manchete. O que mais chamou sua atenção foi o número de tiros... A arma cumpriu a sua função - pensou - foi construída para isso. Que falta de originalidade destes meninos brasileiros que insistem em morrer tão igualzinho. Não perdeu tempo lendo a matéria. Tudo parecia tão previsível e tão sem importância. Quantos meninos são mortos por dia?
A porta do cemitério já estava aberta, ainda não eram sete horas, a geada cobria o capô dos carros e o sol deixava tudo muito bonito. Tinham decidido não passar a noite velando o corpo de Maria. Íris foi a primeira a retornar, não conseguiu dormir, seus pensamentos estavam confusos. Conhecia a amiga há anos, uma mulher de garra, batalhadora, militante ardorosa, que tinha fé na vida. Morreu em casa, dormindo, como morrem os anjos, sem mover um braço.
O triste de ficar velho é que os companheiros vão aos poucos partindo. Os filhos, netos, conhecidos, foram chegando e enchendo a pequena sala de uma conversa despretensiosa. Quem ficaria com a casa, quem esvaziaria o guarda roupa, quem pagaria o funeral.
Saiu para fumar e viu a capela ao lado recebendo o pequeno esquife e uma mãe desesperada. Familiares atordoados. Gritos e sobressalto. Olhou para um funcionário do cemitério, que desviou o olhar e evitou a pergunta - O menino do jornal – disse. Virou as costas e saiu carregando uma marreta. Um diácono chegou para orar por Maria. E a realidade foi rasgando as ilusões. A gente já sabe que é tudo sempre igual. A gente sabe que morrem tantos meninos, porque há tanta gente no mundo. Em alguns tempos é a guerra, em outros a fome, em outros a peste e sempre a morte.
- Porque o meu filho, e não o dela? – perguntava atordoada a mulher apontando para a patroa. Essa é a pergunta que não tem resposta. Íris olhava e tentava entender, o que não tem explicação.
Terminado o rito, partiram todos.
Ela era a única que tinha a chave. A casa estava úmida e escura, abriu as janelas e lavou a louça. Arrumou a cama, varreu o chão e chorou sentada no sofá. As plantas estavam secas, o cachorro chorava na pequena área. Serviu água e ração. Mas os olhinhos dele indagavam por Maria. Íris percebeu que ele já sabia.
Os filhos e netos foram chegando. Pediram-lhe que ficasse com o cachorro. Suas vidas estavam muito atribuladas, não havia lugar para ele.
Íris partiu levando o pequeno amigo. Ela morava no outro lado da cidade e nunca mais regressaria aquela casa, que visitava todos os dias a mais de cinqüenta anos. Da esquina percebeu que havia perdido algo. Uma parte de si mesma havia ficado para trás.
Entendeu o fim abrupto da vida daquele menino.
Maria acreditava que era possível construir um mundo diferente. O Mundo é sempre o mesmo, não importa o que a gente faça. Íris percebeu que sua vida havia cruzado com a do menino, quando leu a manchete. Falhamos Maria, pensou, falhamos com este menino. O cachorrinho olhou para ela e parou diante do poste.

Viamão, 7 de junho de 2009
Fernanda Blaya Figueiró
Atena


Um amor ateniense, Celina vivia um amor ateniense. Esculpido em grandes blocos de mármore branco, cantado em versos perfeitos. Marcado por ditas e desditas. Um amor de Deuses, envolto em arte, mistério, sabedoria, gozo.
Vivia uma bela criação dramática, era, Atena, Helena, Afrodite. Que sordidez julgar estas mulheres fora de seu tempo. Fora de seus Templos. Celina queria despertar a deusa-mulher que havia adormecida em si, neste amor que liberta e não escraviza. Que entende e admira. Estava vivendo um amor liberto, nestes tempos espartanos, onde o amor virou um produto para cartões e venda de ingressos.
Era bela, altiva, amável. Um ser humano adorável. Que pecado pode haver nisso? Receber flores, palavras sussurradas com magia e sensualidade. Um toque forte e ao mesmo tempo suave. Um amor de deixar boas lembranças, de dar inveja, de criar. Criar o belo. Criar a palavra, o verbo, o Deus.
Amores assim, tão raros, exigem silêncio. Exigem recolhimento. Exigem energia.
Celina amava... Quando acordou tinha a seu lado um simples mortal, no espelho a sombra borrada, no relógio o tempo correndo, no quarto ao lado o pedido de leite, na televisão a previsão de chuva, na campainha o carteiro trazendo a realidade. Ainda voltaria a Atenas... Os deuses sabem amar!

Viamão, 10 de julho de 2009.

Fernanda Blaya Figueiró

Ela

Os tempos andavam sombrios e os seres desanimados até que o Universo, cansado das conseqüências de tais vibrações, emanou uma nova energia criativa. Habitaria tempos e seres uma nova onda de energia... Aos poucos passou a existir. Ninguém sabia de onde vinha e nem para onde ia. Ninguém podia mensura-la ou aprisioná-la. Alguns definam como uma onda de calor, outros como uma onda de euforia... Outros como uma nova melodia. Uma nova cor, mais suave, mais tênue e delicada. Um gosto de nuvens. Era perceptível mas abstrata.
Logo espalho-se a notícia de que habitava entre os seres a Filha de Deus. Dotada de todos os poderes do universo, em eterna expansão, mutável, imensurável, amável. Porém, destruível.
O Universo mudou, ficou mais alegre. Os tempos iluminados. Os seres mais leves.- Eu estive com Ela... - Eu posso senti-la como se estivesse dentro de meu pensamentos. Hinos de louvor. Poemas. Na angústia de expressão: um retrato. Está é Ela, a Filha de Deus. Linda, perfeita, intocável.
Os seres, dentro de suas limitações, dividiram-se, entre os que acreditavam e os que não acreditavam. Entre os que percebiam e os que nada sentiam.
Mas Ela existia! Seus poderes espalharam milagres por toda a parte. Na intenção de protege-la uma torre muito alta foi erguida, um altar ornado com ouro, pedras, coberto por tapetes tecidos com os fios dos seres mais belos.
A quem pertencia?
Aos que acreditavam. Só a eles!... Um tratado, guardando seus ensinamentos garantiria que nunca fossem corrompidos, definiria quem eram os seus seguidores.
E assim foi dito, estas são palavras sagradas, eu creio! Ela, a Filha de Deus, habitou Tempos e Seres. Foi concebida sem corrupção, pelo Universo. Falou ao seres como se habitasse seus pensamentos. Espalhou milagres. E foi Destruída pelos que não acreditavam. Sofreu descrédito. Sofreu a tortura de ser mensurada, de ser estagnada e aprisionada. Mas, como uma onda de energia retornou ao Pai, onde expandiu, em sua grandeza. Deixando com os seres estas palavras: Sou o pensamento de cada um de vocês.
O pensamento de cada um ficou repleto de sentimentos. Cada um fez com eles o que queria. Para uns Ela foi cruel, para outros adoravél. Para uns bela, para outros horrenda. Povou o mundo das mesmas coisas que sempre existiram. O Universo observou, que só isso lhe restava a fazer.
Assim, Tempos e Seres aguardam até hoje seu retorno... Isso, se Ela existiu... Eu acredito!


Viamão, 7 de agosto de dois mil e nove


Fernanda Blaya Figueiró

Idade das trevas
Ao longo da vida algumas fases são tranqüilas e outras nebulosas, como ao longo da história. As fases de transição são as mais complicadas, porque ninguém sabe o que vai acontecer. Os conflitos poderiam ser todos eliminados se tivéssemos garantias de onde vão nos levar os nossos passos. Seria o fim do cinema – pensou Helena de Tasso. Queria partir, sempre quis partir. De todos os lugares. Nunca quis estar na escola, nunca quis estar na sua cidade natal e em nenhuma outra. Nunca esteve realmente com alguém, não queria estar casada, não queria estar só. Uma densa nuvem escurecia algumas memórias, a adolescência é a idade média na história de algumas pessoas, na sua não era diferente. Rejeição, atração, rupturas, novas relações tudo estava coberto por um verniz, ora dourado e reluzente, ora turvo e quebradiço. Não tinha certeza de nenhuma de suas memórias, principalmente do julgamento sobre os fatos. Os amores não eram tão sublimes, nem tão odiosos. Sorriu! Se pudesse contar para aqueles jovens que o tempo pacificava tudo. Amarrou os coturnos, prendeu o cabelo com a renda, conferiu a arma. Logo que passou no concurso público achou que todos os seus problemas haviam acabado, estabilidade financeira, um salário acima da média, férias remuneradas, tempo para namorar. Bem diferente do corre-corre de vendedora. Plano de carreira. Sempre lembrava do plano de carreira, quando queria desistir. Se pudesse sairia pela porta e caminharia sem rumo. Como os loucos. Pensou nisso inúmeras vezes, sair caminhando e não olhar para trás. Mas não podia deixar a si mesma e com isso todos os seus problemas estariam caminhando sem rumo, sabia disso. A ocorrência era sobre um bando de jovens drogas e fazendo arruaça, mas seus sentidos estavam alerta. Além do normal. Um desconforto tomava conta do seu corpo. Os cabelos de sua nuca estavam arrepiados e uma sensação, familiar, de que havia perdido os limites de suas costas, como se seu tronco não coubessem no corpo, indicava que alguma coisa estava para acontecer. A porta do edifício ficou trancada, subiram ao último andar, a síndica falava como uma matraca. Do fundo do corredor vinha uma batida misturada com gritos e risadas. Helena ficou atrás do colega, faria a cobertura. A síndica dizia que essa não era a primeira Wave que os rapazes faziam. Toda a vez que os pais saiam eles aprontavam. Quatro e vinte e seis, marcava seu relógio. As garotas parecem umas “demônias” continuava a mulher, não usam quase nada de roupa e fumam e bebem mais do que os rapazes. A síndica continuava falando sem parar. Foi preciso que ela desse a ordem. Precisavam de silêncio para avaliar a situação. Será que essa mulher nunca fez uma festa, pensou. Um grande espelho, ao lado da porta do elevador, mostrava a porta do apartamento, estava escancarada. Seus olhos cruzaram com o do parceiro, alguma coisa extrapolava os limites de uma festa. Não deu tempo de segurar a síndica, cheia de razão a mulher avançou pelo corredor apontando o dedo e gritando que tinha avisado que iria chamar a polícia. Que cagada! – pensou – levando a mão na arma. Mas não teve tempo de evitar o tiro que repentinamente trouxe o silêncio. Os segundos que sucederam a este foram de pânico e desolação. Drogas, bebida, mortes. Odiava cheiro de medo. Odiava ver sangue quente. Odiava relatório... Imprensa! Teorias desfilaram a semana inteira! Especialistas em criminalidade, em adolescência. Helena de Tasso estava diante de um processo, precisaria justificar seus atos. Precisaria contar o que aconteceu. A menina comportada que nunca fumou maconha, estava gritando dentro dela, de que adiantou? A criança que sonhara em ser astronauta, cobrava onde ela estava. A adolescente que ouvia Raul e usava sandálias de couro, estava aborrecida. Queria sair. Sair caminhando sem rumo... O que a sociedade esperava mesmo?

Viamão, 28 de junho de 2009
Fernanda Blaya Figueiró

Maria! Amélia! Ama! Lia! Ria! Mar! Mel! Ária! Maria!


Eu vim a esse mundo para viver, não para sobreviver. Para separar a alegria e a dor. Intenso é meu dia. Suave minha noite. Leve minha vida. Minha gente merece mais do que agüentar. Mais do que ter força, garra, raça, marca. Mais do que fé na vida.
Acorda Maria. Chega de pranto, de carregar filho morto, de chacina e pedras de veneno.
O fruto tem um gosto amargo, não para mim, mas para os meus iguais. Não quero contar o gosto. Não quero passar esta semente.
Eu tive fé. Garra. Força. Raça. A democracia me traiu.
Acreditei que seria portadora de igualdade, de justiça social, de pão para todos. Sei que traiu a ti também Maria, Maria. Tu que sou eu. Tu que é cada um de nós. Aquele que fecha as grades e aquele que não pode transpor as grades.
As grades, Maria, continuam aqui. Dá uma vontade de gritar, o que foi feito do voto! Quem são estes homens, que estão corrompendo a fé de Maria. A fé de um povo simples e alegre.
Eu tenho tudo o que falta a muito de meus irmãos, menos o sossego de poder olhar dentro de seus olhos e entender, como convivemos com isso. Como agüentamos a dor misturada com a alegria, nas nossas ruas e praças, no nosso amargo fruto.
Cinco de junho de dois mil e nove, Dia Internacional do Meio Ambiente, estou preparando um encontro cultural, mas acho estranho comemorar esse meio, nesse ambiente, nessa cultura.
Tenho fé na humanidade, só não entendo. Só não me entendo.

Fernanda Blaya Figueiró

O mundo sem palavras


6,6,7 viva em mundo onde a palavra havia sido proibida.
Ela sentia uma enorme vontade de falar, mas isso era absolutamente proibido. Quem o fizesse seria humilhado em praça pública, arrastado pelos pés por correntes pesadas, ou levaria nas costas uma pesada cruz, além de um enorme chapéu de burro. Cada pessoa só podia dizer sim ou não e, se fosse indagada. Por exemplo: Você já ganhou sua poção de ração hoje? Você já fez seus exercícios? Você já pagou seu imposto? Você trabalha nesta unidade? Esse é o número de seu cartão de identidade? Sim. Ela nem podia repetir seis, seis e sete.
Uma vez, cansada deste opressor silêncio, resolveu arriscar. Quando a máquina perguntou: - Esse é seu número de identificação? Respondeu - um pouco engasgada pela emoção - Seis... seis... Antes que conseguisse dizer sete, uma enorme mão de ferro engatou pesadas correntes em suas pernas e a levantou, soltando no meio do pavilhão. Todos olharam para ela como quem olha para uma aberração, sobre sua cabeça caiu o imenso chapéu de burro e em suas costas foi depositada uma pesada cruz de carvalho. E assim passou todo o dia. Ao cair da noite a mesma máquina retirou-a de lá e advertiu: nem uma palavra ou a masmorra. Você quer ir para a masmorra? Não. Seis, seis, sete não queria ira para a masmorra, porque de lá ninguém jamais voltou. Além disso, acabava de ganhar, no meio da testa, o sinal da desobediência, um pequeno chip eletrônico que informava onde andava o número rebelde. Aquela foi uma noite terrível, seus ombros estavam destruídos pelo peso da cruz, seu coração estava pesado pela vergonha. Sua cabeça ainda sentia o chapéu, como se ele ainda estivesse ali, azul, comprido e com a palavra “burro” escrita em letras pretas. Ela aprendeu a lição e calou. Os dias passaram e entre sim e não tudo era sempre igual. Só que seis, seis, sete passou a sonhar. As máquinas não sabiam o que eram os sonhos, por isso não conseguiram perceber que ela estava mudando. Depois de entrar para sua unidade ela imaginava que cada coisa tinha um nome e, em sua imaginação via as palavras escritas nas coisas. Seis, seis, sete vivia alegre e brincalhona, os outros números começaram a perceber e através de gestos começaram a se comunicar. As máquinas continuavam fazendo sempre as mesmas perguntas e obtendo sempre as mesmas respostas, então para elas tudo continuava igual. Até que o chip, na sua testa, começou a esquentar de tantos sonhos e pensamentos emitindo um sinal de alerta para as máquinas. Quando perguntara para ela: Você já pagou seu imposto? O chip saltou longe. Seis, seis, sete respondeu: Sim. Mas já era tarde, as correntes prenderam suas pernas e a jogaram direto na masmorra.
A masmorra era um lugar frio, sombrio e assustador, de lá podia ver todos os números andando em fila, respondendo as perguntas, voltando para suas unidades de dormir, comendo suas rações, brincando nas unidades de brincar, pagando os impostos e começando tudo de novo. As palavras, que antes ela via desenhadas nos objetos, desapareceram. Na masmorra ela não podia dizer nem sim e não. Cansada sentou encolhida em um cantinho, triste e chateada, seus sonhos agora eram pesadelos e as palavras a amedrontavam. Tinha saudades até do sim e do não. A ração era amarga e os dias longos e frios. Seis, seis, sete esperava. Era só o que podia fazer: esperar.
Estava esperando quando encontrou uma pequena brecha nas paredes da masmorra, por ela entrava um raio de luz. Seis, seis, sete usou a tapa da ração para ir abrindo o buraco, sempre disfarçando, para que as máquinas não percebessem nada. Cavava um pouquinho, parava, cavava mais um pouquinho... Até que conseguiu passar pela fresta.
Sobre a masmorra havia um grande balão sem cor. Seis, seis, sete ouvia terríveis grunhidos vindos do balão. HumHumHum!!!!! Eram assustadores e desesperados. Com muito medo aproximou-se e com a tampa da ração rompeu a corda que prendia a boca do balão... Dele saíram todas as palavras presas e o mundo ficou repleto delas. Entre elas Seis, seis, sete descobriu seu nome: Celina a Sonhadora.


Viamão, 23 de julho de 2009

Fernanda Blaya Figueiró

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