Conto

Oi, Gente!

Criei estas personagens pensando em uma novela, mas acabou virando um conto. Novelas não são o meu estilo.

Beijos,
Fernanda


O escriba

Nos dias de hoje, coube a mim esta nefasta tarefa...
As advertências antecedem ou criam as tragédias? A arte registra a violência de se estar no mundo, ou cria esta violência? - Perguntei ao Escriba.
Era um velho homem, de barba crescida, olhar turvo pela catarata, ombros pequenos e mãos de dedos tortos, de labor . Pena e tinta. Assim escreveu: Tudo é energia! Gaste sua energia, em sorrisos, e tudo serão dádivas! Gaste sua energia, em rugas, e tudo serão dores! É falsa a pena ou invisível a tinta. Não sofra! Celebre! Está o osso à mostra e lateja a carne, em febre, mas é na mente que tudo acontece.
Quanta bobagem! - pensei - E uma ruga escureceu meu rosto.

Viamão, 02de dezembro de 2008.
Autoria: Fernanda Blaya Figueiró

Moa e a Pitangueira
Moa atravessou o campo florido, procurando pitangas maduras. A frutinha vermelha e carnuda era sua favorita. Levemente amarga, mas com um sabor inconfundível, era um prazer gastronômico que dispensava qualquer complemento. Ao aproximar-se do arbusto, tropeçou, na ponta de um objeto que parecia uma raiz.
Colheu as pitangas, colocando-as em um guardanapo e sentou, para degustar, calmamente, a iguaria. O amargo da pitanga dava uma sensação familiar. Moa estava feliz! Ao observar melhor o chão, percebeu que o objeto, no qual havia tropeçado, não era uma raiz, mas um pedaço de couro. Movida por uma curiosidade infantil e levada, desenterrou o objeto, que, aos poucos, foi se revelando...A menina estava se sentindo como uma arqueóloga, desvendando segredos. Aos poucos, conseguiu soltar a peça, embrulhado em um pedaço de couro curtido, estava uma pequena caderneta. Moa abriu, impaciente, a sua descoberta.
A caderneta, fina e comprida, tinha a capa azul e estava em perfeitas condições. Moa notou que as primeiras páginas haviam sido arrancadas, sobrando só retalhos irregulares das folhas. Não havia data, mas a grafia das palavras parecia muito antiga.
Moa estava perplexa diante do achado. Na primeira página inteira, estava copiado, em caligrafia exemplar, um poema.
“Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.”

Luís de Camões
Ela leu e releu as palavras - cousa amada - soava muito estranho aos seus ouvidos. Entre as outras páginas, havia pétalas secas, sementes de frutas, pedaços de cachos de cabelos castanhos e algo que parecia um cordão umbilical. Moa enrolou tudo, novamente. Que segredo seria aquele que a pitangueira, docemente, guardava?
Viamão, 5 de dezembro de 2008.

Autoria: Fernanda Blaya Figueiró
Revisão: Angelita Soares

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