Exercícios

Olá!!

Estes são alguns exercícios de uma Oficina de Dramaturgia que fiz. Achei bem legal variar a forma de expressão.Seriam para teatro.

Bom fim de semana!!!

Fernanda

EM PRETO E BRANCO

Um Roteiro de

Fernanda Blaya Figueiró



4º Exercício da Oficina de Dramaturgia

Sinopse: O texto aborda notícia sobre a revitalização do Centro Histórico de Porto Alegre.


Personagens:

Canindé – Nordestino vendedor de redes que já mora na capital gaúcha há muitos anos.

Pantera- Vendedor de ervas e apontador do jogo do bicho. Ex-boxeador.

Lene – Artista de rua, jovem, toca gaita.


1ª Cena

Lene está sentada em um caixote, toca uma milonga. Pantera está um pouco a sua frente em uma banqueta, onde vende ervas e chás, além de apontar o jogo do bicho. Canindé entra carregando um carrinho cheio de redes e mantas. A música vai diminuindo.

Pantera
- Canindé!!! Oh! Chega aqui, Ceará!

Canindé caminha até ele. Põe as redes que estavam no ombro sobre o carrinho.

Pantera
- Por onde andava o vivente?

Canindé
- Correndo mundo, Pantera! Correndo!Pra não ser preso...

Pantera
- Vai uma fezinha, hoje?

Canindé
- Tô liso, meu chapa... Lene! Oh, bichinha!

Canindé acena para a cantora. Ela abre a gaita em resposta, toca baixinho Prenda Minha ( Domínio Público)

Canindé
- Por que toca essas coisas?? É tão novinha?

Os dois olham para Lene que toca como se não fizesse parte da vida real. Dança como se estivesse sozinha

Pantera
- Vai saber! Tão dizendo por aí que o centro vai ser “recuperado”. Tu tá sabendo?

Canindé
- Não ouvi nada, não!!! E a gente?

Pantera
- Sei lá!... Pobre nesse país é gente?

Canindé
- Pobre!Pobre, dá dinheiro, meu nego!... Nesse país pobre é moeda. Tem até briga por pobre... Essa merda nunca vai acaba!

Pantera
- Dicerto vão buscar só os ricos do passado. Os pobres morto tão e morto vão fica. Dos meus tempos de rinque, não sobro nada... A gente fez história neste centro, sabe?... Foram muitas lutas! Narradas no rádio, notícia de jornal... “As noitadas”. Aquilo que era vida...

Canindé
- Nem sonha irmão! Vão busca só os lugares dos “figurões”... Esquece que não vão lembrar de um velho boxeador quebrado. Passado de pobre é feio...

Pantera
- Engraçado! Sabe que quando eu era guri, sempre achei que o passado era em branco e preto. Eu achava que os antigos não conheciam as cores... Ouvia os causos e imaginava as cenas em preto e branco. Achava tão bonita a vida colorida do presente...

Canindé
- Ce não fez fortuna, com o boxe?

Pantera
- Bebi tudo!... Não sabia que o futuro era cinza... Perdi a força, eu tinha uma esquerda... Uma esquerda que, olha!... Ficou na história!! Não guardei nada... Até o “Cinturão” eu vendi.

Lene toca um Chamamé

Canindé
- Devia se por causa das fotos e do cinema.

Pantera
- O quê?

Canindé
- Isso de achar que o passado era preto e branco...

Pantera
- Vai vê que era...
Canindé! Na última rodada deu cabra na cabeça... Um baita dum premio, a banca até teve que “descarregar”. Não vai, mesmo?

Canindé
- Só se ce fica com uma rede.

Pantera
- Pra ter rede, tem que ter parede...

Lene aproximasse deles. Traz o chapéu cheio.

Lene
- Que cesses tanto falam??

Canindé
- To aqui ouvindo a trova do Pantera.

Pantera
- Pois tão dizendo que vão resgatar o passado do centro de Porto Alegre. Ai eu pergunto qual passado?

Lene
- Deixa de se besta, homem. O passado? Passou!... Vou jogar no galo!

Canindé
- Vixe! Isso é que é jogo.

Pantera
- Pelo jeito a gaita rendeu bem!!

Lene
- O povo adora ouvir boa música... Deixa eles se ocuparem com o passado, assim esquecem a gente um pouco. Largam do nosso pé.

Pantera
- Só que, vão nos corre e aí, como fica?

Lene
- Aí! A gente vê o que faz. Eu toco na rua por que gosto. Essa é minha vida, eu escolhi assim. Meu pai me ensinou a gostar. “A praça é do povo” Já dizia Castro Alves, em mil e oitocentos e lá vai pico. Nós somos este centro. Nós somos a parte viva destas construções. Sem nós! Tudo isso não passa de pedra e cimento. Foi gente que fez tudo isso. Foi gente que amou! Que chorou, que viveu. Gente que acreditou. É bom que isso apareça, mesmo que seja só a história oficial. Por que escondida nela está a história do povo.

Pantera
- Tá certo! Deixa eles fazer o que quiserem!

Lene
- E adianta não deixar? Cada prédio deste tem uma história de luxo e de opressão, de amor e de ódio. Vai por mim, não tem como contar uma sem deixar a outra aparecer.

Pantera
- Li que querem melhorar a segurança.

Canindé
- Que piada! Pra mim, que corro mundo, chegar no centro de Porto Alegre é como chegar numa fortaleza. Tem bairros que não passa uma viva alma... Tem ruas nessa cidade que dá medo só de olhar. Tem cada bocada...

Pantera
- É que a gente é daqui, né! Todo mundo aqui se conhece.

Lene
-Pior! Mas, eu to indo... Pago quanto?

Pantera
- Na cabeça?

Lene
- Não! Dezena.

Pantera
- Dez!

Lene
- Tá aqui!
( essa dinâmica do jogo não sei se é bem assim)

Canindé
- Não descola um emprestado?

Lene
- Nem por brincadeira! Quem sabe se o jogo for bom... Lá em casa tenho umas fotografias antigas do meu pai tocando aqui, amanhã trago.

Pantera
- Em preto e branco?

Lene
- Não lembro! Mas acho que são amarelas... Por quê?

Pantera
- Por nada!

Lene abre a gaita e sai tocando “Meu boi Barroso” ( Domínio público Canindé coloca algumas redes no ombro e sai empurrando o carrinho. Pantera guarda as ervas e desmonta a banca. Caminha falando sozinho.


2ª Cena – A noite se aproxima

Pantera caminha pelo palco. Sai de cena carregando a mercadoria e volta, só com um pão e uma garrafa nas mãos. Cantarola(Esses Moços Lupicínio Rodrigues)

Pantera
-
Esses moços,pobres moços
Oh!Se soubessem o que sei
Não amavam,não passavam
Aquilo que já passei...
Pantera
- Nana, nana, nana... Como é mesmo???
Canidé retorna ao palco sem as redes.
Canindé
- Se eles julgam que há um lindo futuro
Só o amor nesta vida conduz
Saibam que deixam o céu por ser escuro
E vão ao inferno à procura de luz...

Os dois juntos

Eu também tive nos meus belos dias
Essa mania e muito me custou
Pois só as mágoas que eu trago no peito
E estas rugas que o amor me deixou
- Esses moços,pobres moços
Oh!Se soubessem o que sei!!

Pantera
-Isso é que é a verdadeira Porto Alegre. Já jantou Canindé?

Canindé
- Comi! Sopão! Sem pão.

Pantera
- Onde vai passar a noite?

Canindé
- Por aí... Tem o edifício aquele do túnel...

Pantera
- O túnel que ia até o banco.Tem como entrar?

Canindé
- Tem! Mas, tá assim ( faz um gesto indicando que está cheio). A vista de lá é das mais lindas....

Pantera
- Vambora! Que essa noite vai ser de renguia cusco.

Os dois caminham pelo palco.

Canindé
- Findi mês vô lá na área verde... Não vejo a hora, durmi numa caminha quentinha...

Pantera
- Tua mulher ainda te recebe???

Canindé
- Faz cara feia, resmunga, mas sempre abre a porta. Sabe que eu tenho que trabalhar ... Agora já tenho mais um neto, a muié tá cuidando.

Pantera
- Imagina que vão mexer até no piso da praça?? Uma vez me disseram que os antigo enterravam potes cheinhos de ouro. Ouro! Imagina se a gente encontra??

Canindé
- Deixa de conversa, Pantera...! Pode esse povo se revoltar...

Pantera
-Pode deixar...! Nem tá mais aqui quem falou...

Os dois vão para o fundo do palco. Deitam como se fossem dormir. Lene retorna, está com camisola e uma toalha no cabelo. Estende no chão uma colcha de retalhos. Liga um controle remoto como se assistisse a televisão.

Lene
- Coitado do Pantera!... Acha que vão lembras das velhas histórias do boxe, do porto. Do mercado... Agora! A vida vai complicar ainda mais, se interditarem a praça... Essa gente toda vai viver do quê? Já inventaram uma vida, agora vão ter que inventar outra??

Lene desliga o controle e dorme.
Pantera levanta e monta no meio do palco um poste, com fitas, (como na dança do pau de fitas). Os outros atores levantam e cada um pega uma fita: branca, preta e amarela.
Eles vão dizer uma frase, rodar e trançar.

Pantera
- O passado é preto e branco!

Lene
- As fotografias estão amarelas.

Canindé
- Não sabia que o futuro era cinza.

Pantera
- Eu nasci no morro da Tuca.

Lene
- Eu nasci na lua cheia

Canindé
- Eu nasci muito longe.

Pantera
- Atrás daquele edifício tem um navio, eu vi.

Lene
- Atrás daquele edifício tem um rio, eu sei

Canindé
- Atrás daquele edifício não vi rio, nem navio. Eu nada sei.

Pantera
-E o futuro?

Lene
- A deus pertence!

Canindé
- Adeus! Pertences!

Pantera
- O povo é negro

Lene
- O povo é amarelo

Canindé
-O povo é branco?

Pantera
- Tá tudo cinza, pro lado do porto!

Lene
- É a tempestade se formando.

Canindé
- Vai se o fim da linha dessa gente!

Pantera
- Quando o porto era alegre?

Lene
- A felicidade da cidade?

Canindé
- Foi se embora... Foi se embora...

O poste é demontado e os atores retornam a seus lugares. O sol ilumina o palco.


3º cena: É hoje o dia.

Os atores acordam, espriguiçam-se e levantam. Lene pega a gaita e toca.

Lene

Como aurora precursora
Do farol da divindade
Foi o vinte de setembro
o precursor da liberdade


Pantera
Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra

Canindé

Mas não basta para ser livre
Ser forte aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo

Todos

Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra

Lene sai do palco, levando a colcha. Canindé e Pantera se separam caminham pelo palco, como se caminhassem pela cidade. Pantera busca a sua mercadoria. Lene sai do palco.
Pantera para e olha estarecido para o público, deixa cair as mercadorias. Há uma fita trançada em preto, branco e amarelo separando ele e o público.

Pantera
- Quem são vocês? – Eu trabalho aqui! – Todo santo dia...Tem mais de cinco anos.

Entram Lene e Canindé um por cada lado do palco.

Pantera
-Olha isso! Eu não posso mais passar! Aconteceu! Aconteceu! Eu avisei! E agora??

Canindé
- Calma aí, irmão! ( dirigindo-se a Pantera). Tá, agora respondam, quem trabalhava aqui, vai pra onde? ( olhando pro público) . Eu tô falando com vocês mesmo.

Lene
- Registro?? Que registro?? Imposto!! Não! Aqui ninguém paga... Imposto, só que faltava...

Pantera abaixa-se e junta os produtos. Canindé se afasta da fita. Lene toca um tango.
Os atores caminham desnorteados e em silêncio.

Pantera
- Deu 13! Galo! Não tem mais banca! Mas, a gente tem palavra. Teu prêmio Lene. Tá aqui. Eles não perdem por esperar. Um dia vão lembrar que nada no Brasil é mais sério do que o Jogo do Bicho. Aqui não tem mensalão, Detram, falsificação de selo e rico rindo a toa.

Canindé
-A gente é povo! Mas, tem nome, tem passado! Agora vão fazer o quê? Varrer a gente como a sujeira, pra baixo do tapete?

Lene
- Simbora! Eu pago o café!

Lene tira da sacola três fitas: verde, vermelho e amarelo.

Pantera
- A gente inventa uma outra vida...

Canindé
- Isso vai durar umas poucas semanas. Vamos tirar férias no litoral.

Os atores jogam as fitas uns para os outros formando uma teia.
Lene
- Esse povo é Porto Alegre.

Pantera
- Esse povo é Gaúcho.

Canindé
- Esse povo é : o Brasileiro.

Lene toca uma marchinha
Fim!

Viamão 01 de setembro de 2008.




3º Exercício Curso de Dramaturgia

Aluna: Fernanda Blaya Figueiró

Título: Quem não tem cão caça com gato.


Personagens –

Zica – Costureira, simpática, usa abrigo, tênis e um avental, no qual estão presos alfinetes, tem uma tesoura no bolso e uma fita métrica no ombro.

Mirela – Estudante, um pouco gordinha.

Antônio – Estudante, distraído.

Cenário: Uma bancada, duas cadeiras, um cabide ( que tem um pacote pendurado), e um espelho.

Sinopse: Mirela precisa de uma fantasia para um baile de carnaval. Ela está apaixonada Antônio, mas, está em dúvida se vai ou não ao baile. Zica tenta convencê-la a ir à festa.

1ª Cena

Zica está sentada costurando e tocam na campainha. Ela levanta a cabeça e fala:

Zica
- Entra Mirela! A porta está aberta!

Mirela entra, está comendo um sanduíche e tomando um refrigerante. Carrega uma mochila.

Mirela
- Oh, Zica! Você é doida?

Zica
- Como assim?

Mirela
- Deixar a porta aberta! Qualquer um pode entrar...

Zica
- Bobagem! Quem vai assaltar uma costureira?... Então? Decidiu?

Mirela
- Decidi!

Mirela coloca a mochila no cabide. Puxa a cadeira. Coloca o refrigerante sobre o balcão e fala com convicção.

Mirela
- Eu juro... Que este foi o último refrigerante que tomei na minha vida.
Zica desata a rir.

Zica
- Deixa de ser boba menina... Perguntei do baile...

Mirela
- Não vou ir!... Do tamanho que eu estou! Só se eu for vestida de baleia... Ou, de barraca.

Mirela morde o sanduíche com força.

Mirela
- Por que tudo o que é bom engorda?...
-Agora! Realiza: Antônio entra no salão, com aqueles olhos lindos, aquele sorriso, aqueles cabelos encaracolados caindo nos olhos, usando uma máscara preta. E, esbarra numa baleia: Euzinha.

Zica
- Antônio Banderas??

Mirela
- Quem?

Zica
- Nada! Esquece...

Mirela
- Outra! Eu não tenho fantasia!

Zica larga a costura, levanta e olha para ela:

Zica

- Larga esse sanduíche e te olha no espelho. Onde você está vendo uma baleia?

Mirela obedece. Levanta, para na frente do espelho e larga os ombros. Ajeita os cabelos, encolhe a barriga...

Mirela
( Olhando para Zica e apertando a barriga )
- Você é algum tipo de “fada madrinha?” Que vai fazer um feitiço?

Zica
- Não senhorita... Mas, olha o que eu tenho aqui...

Zica vai até o cabide e pega um pacote que está pendurado. Alcança para Mirela.

Zica

- Esse vestido foi da minha avó! Ela usou no Baile de Carnaval do Copacabana...

Mirela
- Zica! Esse negócio deve ter...

Zica
- Eu sei! Eu sei!... Mais de cinqüenta anos... Quem não tem cão, caça com gato! Agora vai lá! Veste e volta aqui... Perai... Usa os sapatos que estão lá no banheiro...

Mirela
- Baile do Copacabana! Eu vou ser “a coisa” mais velha do baile, nem as paredes do salão são tão fora de moda.

Zica
- Vai lá!... Ah! Não esquece de colocar a tiara...

Mirela
- Tiara?...

Zica
- Não precisa me agradecer, fofinha...

Mirela
- Fofinha!! Eu não devia ter saído de casa... Bem que meu horóscopo disse...

Mirela sai amassando o pacote e batendo os pés no chão. Zica senta e volta a costurar tranquilamente. Antônio entra.

Antônio
- Olá!... Eu vi a porta aberta e fui entrando...

Zica
- Você é??

Antônio
- O filho da Mercedes... Minha mãe pediu para passar aqui e pegar um pacote...

Zica
- Claro! Claro! Já está pronto. Eu vou pegar.

Zica sai de cena. Mirela volta usando um quimono de gueixa, meias e tamancos. Está tentando prender a tiara quando vê Antonio.

Mirela
- Aiiiii!

Ela solta um grito e corre para trás do espelho. Antônio toma um susto e pergunta
Antônio

- Dona Zica!

Zica volta a cena trazendo um pacote.

Zica
- Tá aqui, oh!

Antônio
- A senhora está bem? Ouvi um grito

Zica vê Mirela atrás do espelho.

Zica
- Hum!.. Foi um alfinete... Pois é! Sua mãe tá bem, né?

Antônio

- Tá! Eu vou indo, então... Tá tudo bem, né?

Zica
- Tudo em paz...

Antonio sai. Mirela sai de trás do espelho...

Mirela

Solta um suspiro
- È ele...

Zica
- Ele!

Mirela
- O Antônio...

Zica arruma a roupa em Mirela, prende a tiara.

Zica
- Olha! Ficou lindo!

Mirela olha-se no espelho, dança com uma sombrinha da mesma cor do quimono. Antônio entra.

Antônio
- Eu esqueci...

O rapaz fica embevecido ao ver Mirela. Ela esconde o rosto com a sombrinha.

Zica
- Ah! Esqueceu...

Antonio
- Uma gueixa!!... Desculpe... O cheque... Esqueci de deixar o cheque.

Zica
- Essa é minha prima... Ela está experimentando a fantasia...

Antonio
- Pro baile? Eu vou...

Zica
- E a sua namorada, vai?

Antonio
- De jeito nenhum!...Quer dizer, não tenho... Namorada.

Mirela
- Então nos vemos no baile?

Antonio
- Como é seu nome?

Mirela baixa a sombrinha e mostra o rosto.

Mirela
- Mirela!

Antonio alcança o cheque para Zica e despede-se das duas.

Antonio
- Tchau! Até o baile! Mirela!

Mirela
- Até!...

Antonio sai e Mirela pula de felicidade abraçada em Zica. A cena termina com as duas dançando...


2º Exercício Curso de Dramaturgia / Releitura de uma fotografia.

Aluna: Fernanda Blaya Figueiró

Título: Em formação.


Personagens:
• Leopoldo Miguel: Funcionário público, solteiro, quarenta e poucos anos, usa barba, cabelo crespo curto, jeans, suéter e sobretudo preto de lã.
• Jandira: Funcionária pública, aproximadamente quarenta anos, usa óculos grandes, suéter e cachecol combinando, casaco de lã xadrez e bolsa.
• Antônio da Silveira: policial militar, vinte e poucos anos, usa uniforme e carrega uma metralhadora.
• Batista Brendel: policial militar, trinta e poucos anos, usa uniforme e revólver cano longo.

Sinopse:

Leopoldo Miguel e Jandira estão chegando ao trabalho e encontram um pelotão da polícia de choque em formação obstruindo a entrada do local. Miguel para, olha para os policiais e seus pesados armamentos. Jandira também para, fecha os olhos e em seguida desvia o olhar. A atitude de ambos desperta o olhar de dois policiais, que passam a interrogar os dois.


Cenário: Um centro urbano, ao fundo, (esquerda 1/3 do tamanho do palco ) aparecem prédios, imagens desenhadas de transeuntes e uma grande letra B, parte de um painel de publicidade. ( a direita 2/3 do tamanho do palco)Parte da fachada de uma edificação, recoberta de pequenos ladrilhos brancos. Um espaço vazio que identifica um portão de ferro. Em frente ao portão uma escada com quatro degraus.



















Cena 1

A cena inicia com os degraus ocupados por 12 atores usando uniforme de um batalhão de policiamento de choque ( marrom com detalhe de emblema verde no braço esquerdo), usam capacetes com visor ( Fiquei na dúvida se deveria listar, os atores que farão o pelotão). Estão de costas e fortemente armados. Em frente as pernas guardam escudos de proteção.
Leopoldo Miguel e Jandira entram no palco ( pela esquerda), ele caminha um pouco a frente dela, ambos na mesma direção. Assim que se aproximam do portão diminuem o passo e param.

Miguel leva a mão esquerda a boca, colocando a outra no bolso do casaco. Jandira para um pouco atrás dele, fecha os olhos em seguida baixa o olhar e faz menção de voltar. Os dois policiais que estão bem a esquerda voltam-se para eles.

Batista que está no último degrau ordena que eles parem.

Batista - Parados!... Nome e o que vieram fazer aqui?

Pausa
Jandira nervosa não consegue falar nada.

Leopoldo Miguel - Leopoldo Miguel, eu trabalho no quinto andar, como Assessor de Imprensa.

Jandira mais calma, responde.

Jandira – Eu sou a Jandira, trabalho de Secretária do Diretor do Departamento de Assuntos Externos... No décimo segundo... o senhor quer ver meu crachá... ( Jandira põe a mão na bolsa).

Antônio – Não se mexe!... Joga a bolsa aqui... ( aponta para o chão) Devagar...

Batista aponta a arma para Leopoldo e ordena

Batista- E tu!... Tira a mão do bolso!

Leopoldo obedece a ordem, Jandira joga a bolsa e começa a chorar.

Antônio aponta a arma para os dois. Batista pega a bolsa, abre e vira... Os pertences de Jandira caem no chão: carteira, maquiagem, escova de cabelo, o crachá. O policial chuta com a ponta da bota, abaixa-se e pega o documento. Examina.
Ouve-se uma ordem: “ Pelotão, sentido!”
O pelotão entra em formação.
Os policiais baixam os visores dos capacetes. Trazem os escudos para frente do rosto. Começam uma marcha compassada com os pés, todos no mesmo ritmo, sem sair do lugar. Batista larga os documentos e sinaliza para que os dois permaneçam no lugar.

Batista – Não saiam daí!

Jandira – Minha nossa senhora...

Leopoldo Miguel – Calma!...

Ouve-se a ordem – “Preparar armas!” e em seguida os soldados engatilham suas armas. Batista e Antônio entram na formação.
Leopoldo Miguel abraça Jandira, tentando acalmá-la. Aos poucos os dois começam a dar pequenos passos para trás. O batalhão acelera a marcha, criando um clima de muita tensão.
Ouve-se a ordem: “ Pelotão! Atacar!”
Os soldados vão entrando no prédio, mantendo a formação.
Ouvem-se estampidos, gritos, sons de coisas sendo quebradas. Jandira se atira no chão, Leopoldo abaixa-se e puxa ela. Os dois saem correndo do palco.
O palco fica vazio, escurece e uma luz vermelha vai focando somente a letra B.




3º Exercício Curso de Dramaturgia

Aluna: Fernanda Blaya Figueiró

Título: Quem não tem cão caça com gato.


Personagem:

• Manuel: morador de rua: velho sujo, descalço, está enrolado em um cobertor cinza. Usa uma muleta para andar.
• Jandira: aposentada, usa óculos muito grossos, roupas simples e um sobretudo de lã.


Cenário: Uma escada com quatro degraus, no canto direito do palco. Uma enorme letra B ( fundo branco, coberto por grafite de várias cores ) presa só por um lado, como se estivesse caindo, no lado oposto a escada.

Sinopse: Um morador de rua reconhece Jandira. Os dois foram testemunhas da violenta ação da polícia militar na retirada de integrantes do MST de um prédio público em 15 de agosto de 1988.Que resultou na morte de dois integrantes do movimento e de um policial militar ( fato totalmente fictício) .


Cena 1

Manuel entra no palco, caminha com dificuldade. Jandira entra pelo lado oposto, tem nas mãos um buquê de flores e uma vela branca. São ouvidos só os passos de Jandira e o som da Muleta de Manoel.
Ela aproxima-se da escada. Ajoelha-se e coloca o buquê no último degrau. Com as mãos trêmulas tenta acender a vela. Risca várias vezes o fósforo sem sucesso.
Manuel observa.
Nervosa Jandira senta no degrau e começa a chorar.
Manuel aproxima-se, tira do bolso um isqueiro e oferece a ela.
Ela estende o braço, oferecendo a vela para que ele acenda.
Manuel usa o isqueiro para acender a vela, colocando ao lado do buquê.

Manuel – Calma dona!... Quem não tem cão caça com gato... Pra quem é?

Jandira – Promessa!... Todos os anos eu venho aqui. 15 de agosto.

Manuel- 1988??

Jandira- 1988.

Manuel – A senhora é a Jandira?

Jandira olha para ele e começa a tremer, não diz nada. Encolhe os braços como se estivesse abraçando a si mesma.
Manuel – Se hoje eu sou isso que a senhora tá vendo... Devo ao 15 de agosto de 1988. À tão sonhada democracia... A burocracia do Demo!!
Foi dali, oh!!( aponta para o canto do palco) Dali eu tirei as fotografias... A primeira foi a última de um dos filmes. Como eu senti que a coisa ia ser feia, troquei o filme e registrei tudo. Tim tim por tim tim... O pelotão em formação. O Leopoldo Miguel, hoje é senador. Senador da República, grande bosta. Filho da puta!... Usou a gente como degrau. Sabe?? Pisa em cima, vai pro topo e deixa lá em baixo... Mas! Um dia o bichinho cai e vai dar de cara com a gente. Vendido! Um dia cai.
E quanto mais subir, mais alto vai ser o tombo. Esse! Eu quero tá vivo pra ver... Oportunista. Viu que eu estava fotografando, viu a polícia cair em cima deste lombo. Viu me colocarem no camburão. Apanhei que nem bicho. Quebraram meu equipamento. Destruíram as fotos, os negativos. Tava tudo lá... O futuro senador, assistindo a tudo como um idiota. Preocupado com a própria pele... Capacho. Foi dizer que nunca tinha me visto, que nunca esteve lá. Mas, eu tinha o outro filme, foram tão incompetentes que não encontraram.
Se hoje eu tenho que usar essa coisa ( sacode a muleta) foi por que quebraram a minha perna em quatro lugares... Cara de pau: “ficou chocado e inconformado”.

Jandira ( Interrompendo, com a voz cansada) – Eu vim aqui só fazer uma oração... O senhor não se importa...
(pausa)
Eu nunca vou esquecer aquele dia... Eu vi o senhor... Vi o policial ser decapitado pela foice... Vi executarem os dois manifestantes. Vi o Leopoldo Miguel fugindo.
(pausa)
Não vi onde Deus estava... Isso eu não vi. Por isso todo ano eu venho aqui e procuro...

Jandira levanta com dificuldade, baixa a cabeça e sai. Manuel enrola-se no cobertor. Deita no degrau ao lado da vela acessa e do buquê de flores.
O palco vai escurecendo e ouve-se ao fundo um funk

Fim

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