Conto

Boa Tarde!

Este é um conto que escrevi esta semana.

Boa leitura,

Fernanda


Senhora das Jóias

A velha senhora resmungava em um escuro canto do antigo casario, enquanto a vida palpitava florida por todos os lados. Agarrada a suas preciosidades não percebeu o correr do tempo. Presa em um emaranhado de colares, anéis e braceletes não sentiu as mudanças ao seu redor. A certeza, equivocada, de sua infinita riqueza a fez insensível à realidade. A si mesma denominava: Senhora das Jóias.
O tempo nunca parou! Seus bens perderam o valor, a vida o sentido.
Rosa estava ligada a ela como uma sombra que a acompanhava desde sempre.
Não havia mais água, luz ou pão no antigo casarão.
As trêmulas mãos de Rosa abriram, com dificuldades, o portão enferrujado. Lá fora os carros corriam. As pessoas corriam. As pedras quebradas da calçada, não combinavam em nada com a luxuosa avenida. Todos os dias ela buscava água na torneira do majestoso edifício. Saia com o balde na mão e enchia, sabendo que não era certo. O que é certo?
O vigilante, sabendo da necessidade, fingia não ver o pequeno delito.
O dono da padaria, cumprindo promessa a virgem, preparava um saquinho com pão, leite, frutas e açúcar. O olhar miúdo de Rosa, acompanhado de um sorriso sem graça, dizia tudo.
Voltava com a única refeição do dia e um enorme agradecimento no coração. Não deixava de achar belo o mato que tomou conta do jardim, nem os ninhos dos pássaros, as tocas dos ratos, as fanfarras dos gatos.
Cantarolando ela arrumava tudo numa bandeja limpa e polida. Aproximava-se com cuidado, cabeça baixa e voz suave.
- Senhora! Senhora!
Nada! Nem um movimento... Insistia:
- Senhora! Senhora!... O seu café...
Os gatos aproximaram-se atraídos pelo doce aroma de leite. Rosa percebendo que ela havia reagido deixou a bandeja sobre a mesa e recuou até a porta.
- Some!... Some daqui! Abutre!
- Abutre! Sempre viveu nas minhas costas... Vai! Vai daqui...
Arfando, a Senhora das Jóias, comeu e resmungou. – Abutre! Vive que nem sombra, sussurrando, falando mal de mim. Acha que não sei??? Isso nunca teve vida. Some, some! Ela quer minhas Jóias! É isso... Passou a vida querendo... Mas, eu não dou! Não dou... Levo tudo comigo.
Rosa encostou a porta com cuidado, tomou seu café na varanda, ouvindo o canto dos pássaros e conversando com os gatos.
Faltava pouco para terminar. Tinha decidido tudo na manhã anterior, a casa ruiria sobre suas cabeças. Nos dias de chuva as goteiras eram tantas que não tinham como escapar. Os dias eram tão longos.
Só restavam as duas. Rosa caiu no profundo sono eterno.
Na manhã seguinte seus dois amigos, sentindo sua falta, invadiram o antigo casarão. Rosa estava no jardim, tinha o rosto sereno e tranqüilo. A velha estava sentada em uma poltrona rasgada, resmungando e xingando.
- Abutre! Cadê o abutre! Ladrões!!... Quem são vocês? Demônios!! Ninguém vai levar minhas jóias... Ninguém!
O antigo casarão caia aos pedaços. - Meu castelo! – gritava – saiam do meu castelo...
A triste figura gritava e fedia coberta por fios ornados com coloridas tampinhas de garrafas. Nos dedos tinha anéis de arame, enfeitados com pedras da calçada. Nos braços tiras de papelão.
Na bandeja um pequeno pedaço de papel com a inscrição: “Senhor! Não havia mais dignidade! Perdão! Rosa.”

Fernanda Blaya Figueiró

Viamão 17 de agosto de dois mil e oito.

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