Uma armadilha...
Ontem no Mercado Público pedi um suco, um Pancho e por casualidade ou teatro, não sei ainda entender, passou uma senhora muito suja, com um carrinho de supermercado cheio de lixo e acompanhada de uma criança pequena. Aos gritos dizia: "Tu vai me matar!" . Uma pessoa sentada atrás de mim protestou, não fala assim com o menino, ela retrucou: mas ele correndo assim me mata. Uma perdida voz disse tem que matar mesmo. Meu lanche chegou, a mulher batia boca com alguém e reclamava da vida, aquela mãozinha suja pegou o canudo e disse tia vou abrir para ti e logo eu quero suco, o que foi justíssimo, só que o copo era de vidro então conseguimos um copo plástico e pedi para ele um sanduiche. A mulher praguejava como todo ser infeliz, xingou o menino eu disse a ela se a senhora não pode cuidar dele peça ajuda ao Estado, ele pode lhe ajudar. Ela inventou alguma mentira rápida de ocasião, que estaria pedindo dinheiro há dias para uma passagem, que o pai do menino foi embora por ele ser autista... Que já havia ido a prefeitura... Insisti se a senhora não consegue cuidar dele... Ela com a malandragem de todo opressor foi saindo de fininho, resmungando, fingindo ser louca, que a mim uma golpista assim tão barata não engana. Alguém estava ao telefone e orei para que fosse com o Conselho Tutelar, pois o menino precisava de ajuda, aquela pessoa atordoante talvez estivesse em fuga.
Porque penso que pode ter sido pura e simples simulação? Para gerar uma reclamação política, talvez não tenha sido, mas a mulher de louca e desvalida não tinha nada e o menino apesar de muito sujo era alegre e bem nutrido. A verdade se tornou algo tão raro que desconfio de tudo e até mesmo que algo assim grotesco possa ter sido simulado.
O que nos impediu de levantar o telefone e fazer o certo? Ligar para a algum agente de segurança e denunciar: há uma mulher se fazendo de louca e usando uma pequena criança para mendigar, está tratando mal ao pequeno sem nome.... Digo nós porque só havia uma mesa livre quando sentei e ao levantar todas as pessoas já haviam saído, havia o pessoal do estabelecimento que precisava reagir a isso sem incomodar os clientes, havia um corredor lotado de passantes e todas as outras bancas, os seguranças, fora deste pequeno Universo a guarda municipal, a brigada militar, o conselho tutelar, a defensoria pública, a prefeitura, e todos os órgãos competentes para ajudar o menino e entender quem era aquela pessoa.
Eu me senti omissa, mas ao mesmo tempo impotente, porque uma criança jamais poderia estar em situação de rua, nem se sabe se a mulher era ou não parente sua, mas agir e 'chamar as autoridades' as vezes só piora a situação toda. O que você, leitor, faria?
Pensei escrevo ou não sobre isso? E se foi só uma simulação estarei eu fazendo vez de otária? Minha responsabilidade no momento foi a mesma de todas as pessoas, espero que o pequeno tenha aproveitado o sanduiche e o suco, deliciosos, e que Nossa Senhora o abençoe e proteja com os anjos e santos. O comerciante não tem como dar alimentos pois seu negócio precisa de rentabilidade ou quebra e todas as pessoas envolvidas perdem a fonte de renda.
Ninguém deveria passar fome, mas algo naquela senhora a colocou nessa posição, fingimento ou miséria, não sei diferenciar, golpe ou pedido de ajuda, não pareceu que ela quisesse sair daquilo. O menino sim, estava entregue a miséria humana, saiu feliz e alegre com seu sanduiche. O que é o certo num caso assim? Era só uma mãe e filho pedindo comida ou um grande drama, a antecipação de um caso que pode se tornar horrendo em breve ou a vida em sua complexidade? Se algo acontecer a este menino nós todos que ontem estávamos no Mercado por volta das 16h, na avenida da banca do sorvete, seremos cúmplices por descaso?
O Rio Grande do Sul está triste pelo suicídio do jornalista Voltaire Porto, lembrei dele, de sua crônica forte e dos casos todos que reportou, como esta realidade crua e danosa vai corroendo o ser, espero que este caso não vire mais uma crônica policial. Que Voltaire onde estiver encontre a Paz, seu ato último se foi suicídio foi doença, nem coragem, nem covardia, desistência diante da vida. Essa danada. Imagino que ele diria e o que fizeram todos? Então espero que o menino encontre um lar, muitos sucos, comida boa e saudável, educação e amor, o resto ele fará sozinho no seu futuro. A senhora? Golpista, encenadora ou doente? Não sei, não consegui avaliar. Mas uma coisa é certa, ao entrar no Mercado tinha algo errado. Entrei pela porta frente, no acesso principal, não havia guias de santo, ou não os vi, um burburinho e um cheiro de umidade não condizente com o tempo seco. Teria chovido? Em meu percurso não, o chão estava molhado até o Bará, muita gente diferente. Uma banca servia champanhe no meio da tarde, legal, mas estranho. Uma mulher magra e bem maquiada usava decote quadrado dos anos oitenta, reclamava de algo a outra moça, passei por elas, aquela umidade no chão não era normal, nada parecia normal. Em outros dias eu teria optado pela mesa dos fundos e nada desta crônica do cotidiano existiria, ou haveria uma outra contenda. Sentei determinada a pedir apenas suco, mas a ideia de um Pancho foi tentadora, sem queijo para o espanto do garçom, mas queijo em cachorro quente a mim não agrada muito. Então era um Pancho fake, não contesto.
Isso aqui é algo parecido com literatura, não é jornalismo, não tem fonte, nem compromisso qualquer com a verdade, falta o belo para literatura ser, no sentido verdadeiro literatura é a arte de escrever.
Fui ontem ao centro para posteriormente ir ao lançamento do livro "Cantos da minha rua", do amigo escritor Bonaparte Jobim, alguém do centro, da zona sul, do interior, um lindo livro da mais alta literatura. Por recomendação do prefácio primoroso folhei e li alguns contos. Um conto é um universo aberto na nossa frente, rápido e fugidio, é uma arte, que segue padrões de estética. Os contos do Bona são limpos, mesmo os 'safadinhos', bem escritos e abertos, o mais importante, não terminam no último ponto, permitem o espaço do leitor, parabéns.
Benção... Uma lição, seria aquela senhora desgrenhada a personagem de sua Benção? O menino alegre e sem consciência do que vivia algum persoangem recorrente da história, um Oliver Twist perdido no centro de Porto Alegre? Centro muitas vezes personagem de escritores, nós os loucos verdadeiros que encontramos luzes e sombras o tempo inteiro.
Vou ler um conto por vez, levar talvez algum tempo entendendo a tua escrita Bona, e a meninada de ontem batendo figurinha, lendo os quadros de pura energia, os doces geladinhos, a fala dos gigantes vai levar adiante esta energia toda. O que foi isso? Perguntou Dante, curioso. Foi um evento cultural, resumimos... Ah!
Ah! Om! Um!
Um dia este Brasil se ajeita, "os dias eram assim, digam-me o gosto, quando ...."
Por mim esquerda e direita se davam as mãos e pulavam no precipício conceitos antiquados e ultrapassados que insistem em atrapalhar a vida de gente comum e complicada.
Para nós escritores o mundo é assim, você dirá que nada disso aconteceu assim e é verdade, aconteceu assim só para mim.
O novo, a cura dessa doença social que apreendemos diariamente virá dos pequenos, espero que não se contaminem com a ideia de esquerda e direita, dois lados do grande bloco de saber do século passado que precisa ser superado. " O Homem é a corda estendida, entre a besta e o homem além do homem".... é um pouco fatalista pensar que é assim mesmo, repetimos, repetimos...
Deve ter muita troca de letras nestas linhas, depois corrijo.
Fernanda Blaya Figueiró
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