No curso do Rio.
Aos amigos escritores da ACL,
Recentemente houve um concurso de contos, da Academia Cachoeirense de Letras, não me inscrevi pois minha escrita pouco tradicional não encaixa na atual estética. Escrevi um quase conto e hoje, como bumerangue ele a mim retornou.Nada na escrita deixa de existir como na vida e na morte, é tudo energia fluíndo.Vou tentar reescrever por obra da imposição dele mesmo, o conto.Talvez tenha sido a receita do meio dia: caçarola de Pintado e seus aromas...
No curso do Rio.
Cachoeira veio a mim hoje, em memória olfativa, tirei da cartola do coelho, na verdade do freezer mesmo, sem mistérios, uma cambada de pintados de vários tamanhos. Busquei na rede aquilo que já sabia, a receita, louro, cebola, tomate, pimentão, pimenta,alho, sal, limão... Fogo brando, pouco tempo, marinada feita.O conto quis voltar:
No curso do Rio, o tempo.
Sim imaginem que escrevi sobre o rio, sobre as pedras desalinhadas e muito antigas que trilham até a beirada do Jacuí, os casarios estilo português, misturados com galpões e um mini trapiche, as cordas fixas e as pedras pesadas... Este rio e seu curso são partes de todos nós.
Um pescador atento um dia testemunhou o crime da ponte, alguém , que além da loucura vivia a profunda maldade matou no meio da ponte uma pessoa, que me lembre era uma moça. Um crime tão antigo e meio lenda, será que existiu mesmo? Lembro do desconforto nas rodas de conversa, mas, o filho da Doutora? Sim, um criminoso rico e de boa família, a ovelha negra que todos temem ter em seu entorno. Louco, minado, ou mau?
Acho hoje que os três elementos, o mal elemento, que passou a vida desafiando a morte encontrou numa roleta russa sua sina e deste mundo partiu sem nada de bom ter feito, só a maldade.
O ensopado já tem um bom aroma e este mini conto não tem a magia de antes, antes de ser triturado pois escrito em pequenas folhas, não de louro, mas de caderneta. Como teria sido belo meu conto, perfeito, magistral, mediúnico, importante... Este rascunho nada tem de conto, nem de verdade.
" A casa do pai tem muitas moradas", a nossa mente também, todo escritor é um criador de mundos, nenhum é normal, nem mensurável é sua escrita. A loucura não existe é uma forma de tentar controlar as pessoas e evitar as 'anomalias', eu crio mundo e eles me criam, não sou Deus, sou um ser humano com a antiga capacidade de perceber o imperceptível,proibida nos dias de hoje. Talvez eu tenha lido muito o pequeno príncipe a ponto de sonhar em ser assim livre.
Hoje estamos como naquela época privados da liberdade de escrever e nós temos a missão de pintar este mundo com as cores cinzas do nosso alimento, os pintadinhos me lembram que tudo volta, tudo muda, mas no fundo é sempre a mesma coisa e nada disso, como o curso do rio, depende de mim.
A menina desavisada entrou no carro do marginal de luxo, não sabia que tipo de cruelade a esperava, correu feito louco pelas ruas da cidade, para assustar sua presa, a maldade entrou em seu sangue como veneno e no meio da ponte disparou, o corpo inerte dela foi a porta de entrada dele no inferno. Não se iluda, os anjos existem e os demônios também, eles estão sempre aqui, nada deixa este mundo, só muda de dimensão, algumas pessoas sabem e encontram estas linhas transverssais e paralelas, ouvi e vê, sente e entende, escuta e consola,só.
Lembro que no conto um pescador jogava a rede e nela vinha uma prova da existência deste crime perdido no tempo.Era belo... pena que morreu antes de ser escrito, agora retorna das sombras e o deixo aqui, quase um conto.
A ditadura agora é contra o extinto proletariado, usa o nome dos trabalhadores, mas é dos déspotas mesmo.
Fernanda Blaya Figueiró
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