Sobre o documentário Misha e os Lobos. (spoiler)
Assisti a um documentário sobre uma fantástica história, não li o livro, nem assisti ao filme sobre Misha e os Lobos, é a história de um livro, uma autora que pensava ter sobrevivido ao holocausto, e na minha opinião sobreviveu. Ela viveu a guerra, vou tentar dar o menos de spoiler possível. Em parte partiu a pé para a Alemanha saída da Bélgica e lá estavam os mortos, os lobos, a frio e a fome... Dizer que não foi verdade é cruel, há muita verdade e diria mais verdade do que ficção em seus relatos, o maior erro foi dizer que era verdadeiro o relato, fora isso tudo o mais aconteceu em sua imaginação, ou por percepção. Algo apavorou essa pessoa no terrível tempo da guerra.Sua religião, identidade, cidadania, são partes de uma história que deve ter 'apagado' ou que parcialmente sabia, sobreviveu contando essas coisa, reinventando a realidade.
Hoje milhares de crianças saídas de guerras tentam entender como estavam a pouco tempo seguras, alimentadas, em casa, com tv, briquedos, família, escola,ruas conhecidas, supermercado, praças e hoje nada disso mais existe, estão talvez entre estranhos, não recordam seus nomes, suas raizes, não tem mais seus sabores e aromas comuns, não sabem o que aconteceu a seu idioma, estão sobrevivendo e há sim lobos, pássaros, rios e florestas para se esconder.Anjos, amigos, e nada disso é mentira, não ouse dizer: é mentira. Talvez seja uma realidade invisível, como diria o Pequeno Príncipe.
O ponto todo é: O Dinheiro, a história ser 'verdadeira' vendeu, criou um mundo paralelo de luxo e reconhecimento irreais e logo após um decrepitude moral e a palavra: Trair.
O espectador se sentiu traidor, fez da autora uma igual a seu pai, que de fato foi preso, de fato foi morto num campo de extermínio, por fazer parte da resistência, ou seja uma mão amiga ao povo que era oprimido, foi torturado até falar, algo que muitos insurgentes vivem, virou odiado por seus pares vencido por seu opressor, essa história precisa de paz, de um abraço e um ponto final, para mim, mesmo sem ter lido ao assistir o documentário achei que tudo foi real, os lobos estavam lá, na floresta, árvores enormes abriam as ruas com suas raizes e ninguém mais viu, mas isso não faz com que não existisse, durante uma guerra, uma pequena criança perdeu o seu mundo e um outro tomou o lugar, isso é real, ela sobreviveu ao holocausto, viajou tanto que seus pés sangraram...
"O essencial é invisível aos olhos, e só se pode ver com o coração".
A Verdade sempre vem a tona, mas nem sempre completa, a menina, a mulher, a idosa que recordaram todas estas coisas verdadeiras erram em alguns pontos, mas seria sua família goy ou escondida? Quantos novos católicos mantiveram velhos hábitos?
Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, as vezes era a grande fantasia.
Ela era pequena como saber se tinah 3 ou 7 anos? Como saber se a recordação do ato de ver os pais e mais uma grande parte de sua comunidade sendo arrastado por 'nazistas' foi na hora ou foi criada pela memória e relatos dos fatos? Traidor ou herói?
Eu acredito que seu relato foi o verdadeiro que ela conheceu e todo o livro pode ser uma parte verdade, uma parte farsa.
Dois anos de recusa em fazer o livro já era um indício, a fama, a fortuna que a história poderia trazer cegaram ambas as partes, acredito e o leitor queria que tivesse sido tudo verdade, o mercado apostou nesta ideia, a Justiça foi envolvida, é uma coisa enorme, mas o que importa isso tudo?
Escrevi isso só para fazer alguma coisa deste lindo dia frio e cinzento...
Fernanda Blaya Figueiró
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