Um sonho antigo e recorrente.
Os sonhos são boas formas de lembrar de coisas antigas ou de reinventar a verdade, com o tempo as coisas todas da vida se misturam, algumas a gente esquece, enterra outras as vezes nos assaltam assim do nada. Ontem escrevi que há uma Guerra Fria entre os Três Poderes, isso me deixou apreensiva e as memórias da Guerra Fria quiseram falar comigo, eu nasci em 1968 então sou da ditadura, um Estado opressor que gerou um povo opressor e oprimido. Havia naquela época uma profunda crise econômica, a população crescia, o trabalho mudava e muitos não tinham ainda se adaptado a repressão.
Eu lembro da minha crise de teimosia dos 3 anos, as pessoas dizem não pode é invensão, eu eu digo, sim eu lembro. Sem querer magoar ninguém e com a devida maquiagem lembrei ou sonhei com uma birra que fiz. O crime: espuminha, espuminha, espuminha, eu quero o leite com espuminha... O castigo: o quarto de castigo, o cárcere que assombrava toda a população, o medo de pisar em falso e ser punido pela maldade do Estado, ou da família. Ditadura de esquerda ou de direita é um horror, horrível, gera toda uma cadeia de eventos terríveis, adultos oprimidos e acuados que oprimem e acuam seus subordinados que oprimem seus familiares. Isso tudo cria uma tensão entre forças até a quebra da vontade,eu modifiquei o quarto de castigo e o transformei em uma biblioteca, pois haviam muitos livros lá e uma paz interna que poucas pessoas conhecem, a solitude, a boa convivência consigo mesmo. 10 minutos, um par de horas, alguns dias, não sei, talvez eu nunca tenha ido de castigo, mas para mim criei um cárcere interno e uma muralha maior do que a da China.Dentro e fora, velho amigo Fernando Pessoa, o que existe e o que imaginamos existir? A verdade, cinquenta anos depois, não existe mais, ela se tornou essa sombra dismorfe que as vezes vem como sonho.
Detesto leite, as vezes tomo pelo cálcio, mas não me faz bem, embrulha o estômago.
Ontem um policial veterano foi morto por policiais da ativa, numa briga generalizada, como tudo hoje é filmado e mostrado, todo mundo tem uma opinião sobre o evento, em seu fragmento. Na minha opinião ele jamais poderia ter ameaçado um policial com uma barra de ferro, as pessoas perguntam a polícia não teria que usar armas não letais numa abordagem simples assim, não foi uma abordagem simples, dois marmanjos arruaceiros não aceitaram serem revistados provavelmente e partiram para a briga com o Estado, atacaram as forças policiais, estavam desarmando um policial para matá-lo com sua arma? O colega agiu em legítima defesa de terceiro? Se não tivesse atirado quem estaria morto? O pai dos marmanjos, um policial veterano, saiu de casa para interferir na briga e foi morto no confronto, mas teria matado para defender os filhos? Fim do dia, acho que no domingo, beberragem, descontrole, um morto, um ferido e uma ação contestável. Nas altas esferas no mesmo domingo um cantor de mais de 80 anos pedia desculpas por ter se exaltado no discuros e ter 'ofendido' as mais altas autoridades do país, que estão se comportando como 'ratos', pediu desculpas, errou, está impedido de ir a Brasília, pois representa um risco aos poderosos. Este ambiente de crescente tensão e medo irracional está levando a estes erros, Ministros extrapolando seus limites, pessoas enraivecidas e acuadas, mães matando crianças a pauladas, briga generalizada em que todos erraram.
Como num país que tem os índices de violência urbana que tem o Brasil um policial vai ir para uma ocorrência com balas de borracha? Se os marmanjos além de bebados estivessem drogados ou fossem de algum grupo criminoso, como terminaria este confronto? Como vai terminar a Guerra Fria entre os Três Poderes?
As ditaduras, pessoal que não lembra delas, são tempos iguais as guerras, são estados de excessão que podem durar anos, por isso é importante chegar ao equilíbrio, para ter uma população calma e ter esperança num mundo melhor. E hoje muito dessa repressão que vivemos na infância é feita por grupos cruéis e armados, então os policiais da atualidade vivem em estado de tensão, as guerras diárias que passam levam a isso, claro que pode ter havido abuso de autoridade, má preparação e para isso haverá um inquérito, perícias, tomada de depoimentos.
No caso do cantor Sérgio Reis ele passou dos limites por estar cansado de ver as autoridades passando dos limites, o populismo precisa diminuir no Brasil, perdeu o impacto, queremos serenidade e paz de espírito para crescer.
Espuminha, espuminha, espuminha do mar, traga o menino para a praia para esta história acabar.
Espuminha, espuminha, espuminha do mar, leve o veterano para longe para descansar.
Espuminha, espuminha, espuminha do mar, leve a sombra do tempo antigo para esta história acabar.
Há em mim uma forte mistura de sangues e uma espinha quase quebrada pela ditadura, e uma forte voz ancestral que me avisa que se estou aqui no mundo não é, nem nunca foi a passeio. Tem a hora certa para cada coisa, agora não é a dos fracos e imprudentes, é hora dos fortes e racionais. Não é minha esta labuta.
Acredito que não vai acontecer nada, que os poderosos vão voltar a suas linhas limitrofes de ação e os abusos de poder vão cessar, a liberdade de expressão será retomada com a devida responsabilidade na fala, mas sem esta opressão medonha e excessiva toda que é muito ridícula. Da imprensa não esperamos nada, ela vai fazer seu joguinho, 'vai atacar o governo' para adular os que protege, é sempre assim.
Espuminha, espuminha, espuminha do mar, volta para as ondas, leva e trás as memórias perdidas e os dias coloridos de antigamente, para esta história bem acabar.
Fernanda Blaya Figueiró
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