Uma voltinha no tempo.

Uma voltinha no tempo. Estou com uma caixinha de lembranças, fotografias guardadas por muito, muito, muito tempo.São pequenas declarações de amor e contém quase todos os dramas e mistérios da vida, a luz e a sombra, a vida e a não vida, o outro lado deste pequeno tempinho que ganhamos para estar neste 'plano', ou nesta experiência. Há uma prática entre escritores de escolher uma ou mais fotografias e tentar contar algo sobre, uma memória, uma invenção qualquer... Bem, escolhi algumas mas como ontem foi aqui dia do amigo, escolhi duas uma de abril de 1969 e outra da outra decada, que fala sobre o velho hábito de festejar a vida. Como foi tirada do alto e de longe as pessoas estão misturadas e pouco reconhecíveis então acredito que não faz mal algum divulgar, pode ser qualquer pessoa ou todos um só, assim ninguém se ofende com a divulgação da recordação. Eu mais ou menos que lembro de alguma coisa, na primeira foto não tinha ainda um ano, então pouco sei sobre, na segunda talvez tivesse uns 10 anos ou mais e dela já guardo murmúrios e lembranças de antigamente, muito antigamente. As bandeirinhas são feitas em São João, as roupas de mangas longas e algumas curtas contam do tempo, que no início da manhã como no dia de hoje, faz muito frio e ao meio dia, com o sol forte, as pessoas ficam mais a vontade e aquecidas. Dia do amigo, dia do vizinho, dia de compartilhar e festejar. Cada um levava um pestisco, bolo, pães, doces, sanduiches, pasteis, bolos e sucos, refrescos, sua cadeira, uma mesa de cavaletes e pronto, a vida fluia, assim todos juntos, iguais, interagindo... Muitas histórias faladas em meias palavras, outras abertas. Já havia o posto de gasolina então acredito que já passava dos anos setenta, talvez oitenta e pouco, mas a rua é a mesma de antes, de quando mais lembro dela, ruidosa, movimentada, cheia de pesados caminhões... A foto da padaria de abril de 1969 mostra a beleza da diversidade de produtos, a vitrine cheia de sonhos, de iniciativa, de empreendedorismo, a gente é gente que faz, que inventa, que constrói, falo assim da gente da minha gente, mas de toda gente de um tempo. Alguém plantou o trigo, alguém bombeou a água, criou a vaquinha que dava o leite, alguém plantou o café, lá longe, longe, longe, que devia vir pra cá de trem, de navio, de mula, de carrinho de mão, era posto a venda como luxo. E a casa antiga de pintura borrada, de muito antes ainda, um dia algéum desenhou, um dia alguém acreditou que era possível nessa rua viver, neste lote morar, nesta cidade, de um belo rio, andar e crescer, sonhar... Nem todos os sonhos viram verdade, mas são a base para que a vida aconteça. Lembra daquele balio de pão que compramos dos índios da estrada? Ou dos vimes antigos artesanato de época, bela época, ou ainda da saia cortada... Sós das bem cortadas e alinhavadas com esmero... Lembra da cola nos dedos ao montar as coloridas bandeirinhas, e da prece da amiga na janela, tão velhinha e tão amada? Lembra da briga que teve depois, pois sempre há nestas recordações brigas memoráveis, rupturas e reconciliações. Lembro bem de quase tudo, mas não da verdade essa ficou lá no passado, agora só há mistura de lembrança e de invenção, é assim mesmo, lembra o sorriso? Lembro... Amei brincar um pouco com estas memórias,de algumas pessoas o que fica é o sorriso, o olhar afiado e desafiador e os sonhos, alguns partidos, outros concebidos. Alguém me pediu um continho e no dia eu não soube contar, agora ainda em tempo mando este, não sei o que diz, talvez mais o que não diz... A vida passa muito rápido, vamos como digo voar nas suas asas e aproveitar cada minuto, uma hora já não estamos mais aqui e tudo continua igual. Alguém pode dizer mas eram anos de chumbo, eram como foram os últimso anos de Petrolão, ou agora para alguns a amarga derrota nas urnas... Todo o tempo, toda a memória, toda a cidade e seus cidadãos tem muitos lados e lembranças, muitas faces e tudo passa, rápido como o vento. Ontem alguém foi ao micro espaço só para olhar a Terra, e nós aqui em baixo achamos isso bonito. Micro espaço, como estas antigas fotos são micro mundos... Fernanda Blaya Figueiró. A Nega!

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