Só leia se estiver em dia com sua loucura.

Só leia se estiver em dia com sua loucura. "Naquela terra nunca pisei", que mágoa, "fui levada no colo", que dor, mas o que é uma terra longuinqua e sem sentido? Todas as aldeias do mundo são uma só. Todas as dores do mundo são a mesma dor e não é preciso ter pisado um chão para levar consigo tudo nele.Que lindo prédio é a velha Sinagoga, nunca estive numa, só conheço de ler, ver e assistir, mas acho bonito, não conheço nada destes povos, de sua origem, só de ler, de ver, de ouvir, de pensar sobre.Não restaurar é bom, as vezes, o desfeito denuncia, o tempo deixou o prédio como testemunha, me deu vontade de escrever, só por isso estou aqui. É muito cedo para vodka, muito tarde para café, muito quente para chá, sobra água gelo, refrigerante... Todos os Templos são iguais, uns abertos, outros fechados, uns herméticos outros mais. Houve alí uma religião, um povo temente, agora há um vazio, é bela a cidade, parece ser. Assisti um bom seriado, como assisto coisas, não tem como falar sobre tudo, não tem umas que mereçam mais que outras, eu escrevo quando quero, se quiser, então se não escrevo sobre algumas coisas e priorizo outras é porque a memória decide. Há algum tempo eu queria deixar fluir a mente livremente e já desisti, porque não é livre a expressão, é tudo escolhido, nada é aleatório, tudo tem sua hora para aparece. Então BorderTown, que pode ser border line, ou o velho desafio da filosofia, pouco sei sobre isso, mas seria até onde vai o contorno do mundo, onde ficam os limites da ação humana, entedi eu assim, nem deve ser isso. Real e irreal brincando com as pessoas, neste conto longo e moderno Os Russos são uma ameaça constante, no tempo em que Clarice Lispector nasceu eram naquele canto uma ameaça real, eram o Império e todo o Imperio é igual, oprime o outro, conquista, domina subjuga ou mata. É da natureza dos Impérios serem assim, então a dramturgia brinca com essa ameaça, brinca com os seres diferentes, o protagonista vive a angústia desde criança, como nossa querida Clarice, vive no limite da razão e teme profundamente perder a si mesmo a a sua memória, se perder no labirinto interno da mente e não voltar.A quantidade de crimes fictícios assusta, mas é só drama, será que há tantos crimes assim no mundo ou a dramaturgia exagera? No Brasil há, pelos dados estatísticos e notícias, mas pelo jeito não é só aqui. Aqui é tudo mega, muita gente, muita gente, muita gente de diferentes origens, de diferentes cuturas e religiões, mas todas são no fundo a mesma coisa, a vontade de saber, de ser parte de algo especial, de ser protegido do mundo. Qualquer um pode ser bom ou ruin, qualquer um pode acertar e errar, em todas as culturas é proibido matar, roubar, oprimir, mentir, ser sexualmente exagerado, mas se existe o proibido é porque existe a ação. Clarice não falava sobre sua cidade de origem é certo pensar sobre isso? É ético? Não sei se era religiosa, queria ser livre, será certo falar sem ser em sua obra? Mas, o leitor ele cria laços, ele imagina e se apropria de coisas do escritor. E isto não é mais aquilo, talvez ela odiasse o nome Chaya, ou não significasse nada para ela, mas é belo, é um belo e instigante nome.Não sei os limites,o contorno, a borda ou até onde esse texto vai e se ele é do mundo real ou ficcional, lembrei do seriado porque achei parecido o povo, um povo alto e das neves, já vi filmes sobre Ucrania, mas não recordo agora. Imagino que a aldeia natal de Clarice Lispector se assemehasse aos lugares do seriado e seus conflitos, seus dramas, suas cicatrizes. Pois então o corpo, a mente, a alma, sei lá se são um ou são fragmentos de um ser, se um morre o outro continua, se essa percepção toda do mundo o EU, existe mesmo ou é só chatice, corpo são, mente sã, corpo doente, mente doente... Doente, são? Ou não. nosso mundo valorize demais esse negócio de doença e saúde. Chaya, desculpe Clarice, vou brincar com essa palavra, nada, nada do que falar sobre isso é a verdade, é so interpretação e criação do mesmo, do velho e bom mesmo. Chaya nasceu,era frio, nevava e a aldeia, sem nome, recebia as notícias atrasadas, guerreiros já guerreavam tinha três anos, as aldeias já vinham sendo atacadas, uma nova e severa Ordem queria impor ao povo o martírio, a sua negação de Deus e sua doutrina, queria firmar seu poder. Todas as Guerras, sem excessão,são cruéis, insanas e violentas, não há guerra boa, pode haver alguns bons atos numa guerra, alguns lampejos de civilidade, mas guerra é guerra e os fracos sempre sofrem. Se hoje o lugar ainda e pequeno em 1920 devia ser menor, mais fechado e longe de tudo, não havia mapa digital, nem celular ou outras coisas de hoje, a guerra chegou a sua aldeia antes dela nascer, alguém maliciosamente escreveu que especulasse que sua mãe havia sido violentada por soldados russo em 1919, ela nasce em 1920, que maldade esse comentário, será que em vida falavam isso? Será relevante essa informação de violência? "nessa terra nuna pisei" então nada de lá era boa recordação. Hoje coisas parecidas aconteceram em "Nome de Alá" ou outros Deuses, em "Nome de Jesus" aconteceram violações e abusos... Contra os Espíritas, ou a mando dos maus espíritos, por Butistas ou contra eles... Em nome da Ciência ou contra ela. Chaya nasceu e a guerra já fazia seus estragos, a fábrica de sabão fechou, é preciso matéria prima e nas guerras elas escasseiam. A falta de sorte, a mão severa do destino, fez dela migrante, pequena,no colo, em meio ao medo e na sombra da terrível guerra, veio parar aqui. Como um ovo, casca rompida vida interrompida, com pintinho, ou sem pintinho, com gala ou sem gala, o ovo, símbolo da vida, nascer para Chaya foi sair da casca como um pintinho, indefeso, piando na sala, ou como gema frita na frigideira, o pior parto é parir a si mesma. Chaya virou Clarice, Clarice virou todos nós, seus leitores e seus escritos, no fim se achou ou se perdeu? Existiu.Não era filha de chocadeira ou era? Estou sendo rude em falar nessa pequena vida que nada tem de verdadeira? Chaya, Clarice,Ofélia, Macabéa... Quantas almas numa só cabeça?Por isso eu acredito sim que são coisas separadas o corpo e a alma, mas que são inseparáveis. Não existe Clarice sem Chaya, nem sem todo o seu pensar, não existe pensar sem o corpo e seu olhar severo. O corpo fica aqui e a alma vai solta, como um balão até cair em algum lugar onde o corpo não é mais necessário. Essa fala toda é cansativa, mas é, passa a existir e fica como o corpo, fica aqui e na núvem, pode ser lida por alguém e traduzida, pesada, destruida, existe,pode e tenho certeza de que é, ser transformada, adaptada, usada, torcida, distorcida, compreendida,incompreendida, pode gerar medo, raiva, preconceito,pode iluminar, ajudar. Ou nada. Chaya sorria para Clarice, Clarice aceite Chaya, onde vocês estiverem, havia uma guerra e era algo bruto, tosco, violento e terrível, mas depois houve uma paz relativa e nela outras guerras, menos declaradas. Vender, tecer, pagar, morar, alimentar, vencer, é menos bruto, mas não tanto, deixa as mesmas indagações. Hoje? É o mesmo sempre o mesmo, o Mundo é sempre o mesmo, o corpo da Terra, a alma é muito maior, muito mais complexa. E nós somos suas pulguinhas... Só. Fernanda Blaya Figueiró

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