Olá,Chaya!
"Mas às vezes acordo do longo sono e volto-me com docilidade para o delicado abismo da desordem." Clarice Lispector.
O delicado abismo da desordem... Acho que o Alepf pode responder esse enigma , o delicado abismo da desordem... Um ponto onde todas as coisas coexistem, sem tempo ou espaço, em total caos e ao mesmo tempo em profunda ordem, existe?
Sim, existe... Existem pessoas que pensam, sente, e veêm o mundo de um jeito diferente. 2020 foi um longo ano e a espiral descendente quase que me puxou, mas acordei de um lomgo sono... Porque não faço mais contação de histórias para crianças ou "animação" os saraus, antiga forma de entreter que a poucos ainda interessa? Porque sou melancólica e as vezes, ou tem dias que, a melancolia pesa e em outros ela alivia, então não é possível contar aos outros coisas belas, serenas, alegres... E porque nós poetas e poetisas, seres da poesia sentimos o mundo e revelamos, então se chegar a um lugar triste diremos Oh, que triste! Não conseguimos dizer: Oh, que não triste! Mesmo que as pessoas ali desejem profundamente a alegria e ela se ausente.
Vamos conversar, Chaya?
Eu não fumo, mas se quiseres te acendo um bom pito, uma fumacinha ancestral aliviando a tensão, como é a vida depois dessa vida?
...
Ok, teremos um monólogo, não sou capaz de dar voz a esta potente voz, escuta ao menos, ou não?
..."não espere me perder para sentir minha falta"
Obigada,falo aos meus botões, a severidade de seu olhar, aprecio a severidade de seu olhar e o fino traço das palavras, são estocadas cirurgicas na realidade.
Hoje é 20 de dezembro ano 2020, são 7:45, o mercado abre as 8:00, acordei as 5:30, então devo logo partir e abastecer a despensa, com máscara,sou um híbrido, aprendi já a dominar essa coisa de comprar e de escrever, e de indagar e de exigir e de atacar as vezes, silenciar em outras. Domingo de advento, é bonito, tem muitas cigarras e as galinhas cantam, manhã suave, tarde será tórrida. Sinto falta de boas obras para ler, o mundo é cheio delas, mas cansei, a dramaturgia resolve essa vontade de ler e não necessita óculos. Valdívia é um cãozinho nervoso, toma remédio para não convulsionar e todas as vezes que saio esqueço o óculos ao lado do computador ele se vinga de mim e ataca o objeto, ou simplesmente sente minha falta e pega, as vezes encontro no meio da grama... Não gosto de óculos e nem de outras parafernalhas da velhice, tomara que nunca precise de muletas, vou perder como as sombrinhas.
O Mar outro dia me pescou, estava eu caminhando bem na beirinha e vi um amontoado de linhas,umas transparentes,outras vermelhas, acho que amarelas, um bolinho com fivelinhas destas que fecham bolsas, pensei eu em minha arrogância, se uma criança pisar aqui vai se ferir, e coloquei a mão na armadilha... No meio camuflado havia um alzol, adivinhe? Sim, cai, feito baleia na pequena armadilha, um cão amarelo me alertou um pouco antes, veio mergulhou me olhou como objeto estranho aquele meio, sacudiu o pelo e foi tipo,dizendo é fria, não se mete... Mas, eu curiosa como sempre e fiel a meu juramento de formatura não podia deixar uma arma alí cravada na areia. Meu dedo ficou preso o coitado, e o mar rindo de mim, fiquei alí tentando soltar, as ondas iam e vinham, rindo e achando graça, que bom dar alegria a praia, longe havia uma moça dentro de si, como é bom na beira mar divagar, no outro lado um casal, acenei com o chapeu em vão, fiquei alí pernas encurvadas esperando uma solução... Um senhor havia passado, um pouco antes, uma hora volta pensei, mas para minha sorte a mar recuou e consegui soltar a linha, que estava bem presa na areia. Que baleia, que nada, fiquei com o anzol e a linha, mas livre das armadilhas do mundo, molhou tudo, as chaves, controles, celular, tudo estragou... Água salgada é um bom desinfetante de maldade, se a mim desejavam o mal o mar levou rindo e brincando... Fui até o primeiro posto e estava já fechado, a linha a cada marcha trocada enrolava no cambio, que trapalhada, um rapaz muito solícito me ajudou cortando com uma tesoura os longos cabelos do anzol, mas disse que só no posto se tira anzol e que havia logo ali um 24h. Ok, em plena Covid, sem máscara, porque a água levou fui lá, dedo pra cima, que vergonha ocupar o tempo do outro com coisa tão pequena, mas é a vida, era a minha unha em jogo e talvez a ponta do dedo se o anzol se zanguasse, fui muito bem atendida por uma médica que debutou a poucos dias, ao que parecia, fui muito bem tratada por toda a gente do posto, logo o anzol foi retirado sem susto ou problema, mas antitetanica não precisei pois a Gata Arisca, como me havia mordido, sabendo que em dois anos um anzol me atingiria assim sem cerimônia, me fez tormar vacina, obrigada, Arisca!! Estou vacinada para tétano e raiva. Chaya, te aborrece minha história?
Nada a aborrece, sei que somos assim divagamos, podia eu dizer prendi um anzol no dedo porque um porco de um pescador deixou sujeira no mar, podia ele ter matado uma criança, porco, mas não tenho teu olhar severo, as veze sim, hoje não. Porco, porco imundo, da próxima vez recolha seu anzol, porco, imundo.. Talvez eu estivesse no local errado de fato, mas isso não muda que não se pode enterrar armadilhas na areia, podemos ponderar que foi um acidente, que a linha arrebentou e o pescador não viu, não podemos pensar que um preguiçoso deixou ali enterrada para pegar um peixe sem esforço.. Logo a temporada abre os guarda vidas vão as areias fiscalizar e colocar bandeiras. Amo a poesia de Manuel Bandeira, bandeiras são essencialmente neutras, indicam no mar se dá ou não para entrar, na política são belas, mas é preciso andar nos limites e não permitir a radicalização. O fanatismo usa qualquer coisa e pega qualquer um como esse anzol escondido, é uma arma, alimenta o pescador, mas mata o pescado. Meu dedo já curou, não doeu nada, foi uma coisinha a toa, digito assim mesmo. Assim é meu delicado abismo da desordem... Um embrulhado de fio e essa prosa inútil toda... Vou lá... Já são 8:30... Uma hora perdida em divagação que a nada vai servir, mas é meu labor, fazer o que? Tem gente concreta que ganha o dia de outro jeito, eu sou isso, uma escriba antiga, faço algo não não existe mais.
Temos mais coisas para falar, Chaya, imagino que tu ao partir daqui se há outro mundo deve ter a tua tribo retornado, pisado lentamente as antigas ruas, deve ter perguntado o que houve aqui? Deve ter puxado algun longo fio emaranhado e nele deve ter tido um anzol enferrujado, o que houve aqui? Em 10 de dezembro de 1920, qual foi o Covid daquela época? A maldade foi crescendo, foi impregnando, cravando no tecido social e virou guerra. Não queremos guerra aqui, queremos paz, alegria, harmonia... Como, conseguir Chaya?
Fernanda Blaya Figueiró
Ps: minha escrita é assim um pouco de verdade e muita divagação... Adoro o cantar das cigarras e galinhas, tudo certo.
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