As Sementes.
Aqui no RS alguns pacotes com sementes vindos da China estão causando preocupação as autoridades, é preciso cautela com a possível vinda de pragas, mas calma pois a intenção pode ter sido boa, como saber? Como vivemos um período de muito medo e extremismo ideológico tudo parece uma ataque e talvez sejam só pessoas boas querendo espalhar vida e preservação.
Ok, vamos cuidar, investigar mas não eliminar as sementes e sim se for o caso devovler ao meio ambiente.
Meu antigo blog infanto juvenil tinha uma passagem em que a persoangem centenária Josefina dava aos amigos sementes em pequenos envelopes, para serem cuidadas e plantadas, lembrei dessas velhas escritas, adorava este imaginário todo perdido, não datei na época mas acredito que são de 2005 ou 2006 os textos.
As sementes de Josefina.
Josefina, a Feiticeira Centenária, distribuiu, criteriosamente, os pequenos pacotinhos contendo as sementes. Ela conhecia a mata e seus segredos. Cada semente guardava em si aquilo que era. Seus dias, junto a turma, estavam chegando ao fim e ela queria que cada um encontrasse sua própria essência. Como as sementes, todos somos dotados de um conhecimento empírico e devemos recorrer a esse conhecimento, nas horas boas e ruins.
Em cada saquinho, havia um pouquinho do futuro do planeta, do passado da mata e do mistério do presente. Ela contou a história da mais antiga semente a brotar: a Tamareira, encontrada em uma escavação no palácio de Herodes, O Grande. Segundo conta a história, a semente tinha 2000 anos de idade e germinou. (Origem: Wikipédia)
Josefina estava mais serena do que nunca. Linna percebeu e sentiu que a amiga estava ficando com pouca energia. Guardou, com cuidado, seu presente, queria aproveitar bem cada segundo, com ela.
A Lua Negra.
Assim que anoiteceu, os amigos se separaram. Josefina foi para casa, acompanhada de Anderson. Ele continuava morando nas ruas e vivendo a cidade de uma outra maneira, conhecia cada palmo do parque e todos os perigos da rua. Já sabia exatamente o que faria com suas sementes.
- Vou jogar no vento! – Disse para Josefina.
-Por quê?- Ela perguntou, curiosa.
-As sementes vão se espalhar; um número maior vai brotar, e em lugares diferentes. Eu não tenho onde guardar coisas... É melhor elas se perderem!
E assim, antes de atravessar a avenida, ele abriu o saquinho e jogou o conteúdo para o alto. Os dois ficam observando a dança das pequenas.
Linna e Acauã caminhavam na direção oposta, abraçados, aproveitando o presente. Acauã disse que guardaria as sementes. Morava na mata e sabia que não precisava ter pressa. Linna estava angustiada.
- Não tem lua hoje... – Comentou.
- Estamos na época da lua negra – respondeu Acauã- Um dia antes da lua nova. Uma ótima lua para plantar grãos... Para começar coisas.
- Fiquei preocupada com Josefina... Parece frágil, doente.
- O que você vai fazer com suas sementes?
-Acho que vou plantar uma, hoje... As outras... Não sei ainda.
Acauã precisava voltar para Maquiné, os dois se despediram com longo beijo.
Linna chegou em casa e abriu o saquinho, espalhou as sementes sobre a mesa e fotografou. Em seguida, escolheu uma e colocou em um vaso com terra preta, levemente umedecida. Depois, fez vários envelopinhos, cada um contendo uma semente e com um pequeno bilhete, endereçado para seus amigos. No dia seguinte, postaria pelo correio:
“ Estas são as sementes de Josefina. Cultive com carinho”
A sementinha, aquecida pela terra e estimulada pela força da lua, começou a germinar...Naquele exato momento. Foi absorvendo a água que a terra guardava que começou a crescer. Linna não sabia, mas uma figueira acordava para a vida, no meio do seu apartamento....
O amor
As sementes que Linna recebeu de Josefina foram distribuídas pelo correio, levando um pequeno ensinamento: a esperança na continuidade da vida.
Naquela manhã Josefina não acordou.
"Nas horas graves, os olhos ficam cegos; é preciso então enxergar com o coração". - Saint Exupéry.
Cento e um anos de muita sabedoria, os dias de Josefina neste plano terminavam. A turma se reuniu para prestar uma homenagem de despedida. As palavras sábias da amiga sempre estariam com eles. E as sementes e seus brotos matariam a saudade dela.
Tibiriçá falou a eles sobre a Terra Sem Males, um lugar onde o sofrimento já não existia, onde a mandioca nascia transformada em farinha, a caça aparecia abatida aos pés do caçador. Onde não mais se nascia e morria. Falou de seu desejo de um dia também chegar lá e de sua admiração pelo espírito bom de Josefina. Disse que não era preciso temer, já que os bons espíritos não assombram os vivos.
Ao retornar para casa Linna molhou a terra, alimentando a plantinha que ainda não havia irrompido o solo. O vaso parecia vazio, mas continha a pequena figueira: uma recordação.
Aquele era um dia solene mas não triste. A alegria de Josefina florescia silenciosamente, em vários cantos. Sua sabedoria estava enraizada no coração dos amigos.
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