Os ricos frutos do Jambolão.


Os ricos frutos do Jambolão.

Aqui no meu micro universo tem um enorme Jambolão, nesta época seus frutos caem no solo, temos  muitos cães, então os frutos  que caem ficam impróprios ao consumo. A árvore é muito alta e não tem como colher direto dos galhos, mas mesmo assim uma legião de pássaros aproveita o sabor e nutrição destes gominhos roxos e aromáticos. Imagino de onde saem todos estes pássaros, são lindos e corajosos já que ariscam a pousar e coletar os belos frutos.
Estou sem assunto, que perigo, então lembro de um poema que não é meu é de Álvaro de Campos, psicografado por Fernando Pessoa, pois Campos é tão humano e verdadeiro que só pode ter sido um espírito desencarnado que com Fernando  falava. Não vou digitar o poema, mal tenho vontade de digitar esse conto, gosto mais de escrever a mão, mas vamos ver o que sai.
Começa assim: “Os antigos invocavam as Musas.”... Vou falar contigo poemeto.
Porque sempre os mesmos poemas? Acho que são os que a gente mais gosta, ou é marcação na lombada...
“Ah!”
...
“Ah!” “Ah!” “Ah!”

Evoco os Mestres
“Ah!”
...
“Ah!” “Ah!” “Ah!”
Fiuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu Plach
Chua, vrummmm vrummmmm
Pein
“Ah!”
...
“Ah!” “Ah!” “Ah!”
A água profunda nessa época seria barrenta e salobra, pois choveu pouco, a descida seria longa e a subida penosa, aos poucos o poço retoma o montante, aos poucos as reservas se inundam. Março veio um pouco mais cedo com suas águas de março, escrevi outro dia ‘vamos retirar todos das áreas de risco’, claro que é uma provocação, é impossível fazer isso, não tem onde colocar todos. Hoje em Mauá, não na Mauá, houve um deslizamento, uma família que nada tinha ‘comprou’ uma casa condenada, na esperança de que a condenação fosse suspensa, mas não foi.
Entra ano, sai ano, nossas histórias se repetem, evocamos a memória e são tantos casos dos que Adoniram cantava, de lá para cá só aumentou o número de atingidos, nada foi feito para acomodar tanta gente. Somos um país tropical que cuidou pouco das edificações, menos ainda do planejamento demográfico, hora de mudar.
O mais incrível é que mesmo com o risco as pessoas são felizes e empreendem, compram casas, peças, tijolos, cimento, louças, azulejos e se acomodam, se instalam.
-Tia, só algumas casas caem, não tem como prever qual vai ser.
Pior é que tem.
Tem como prever e como precaver para que não aconteça, o povo nada tem de ‘culpa’ essa tortura de origem judaico-cristã, mas precisa mudar, precisa entender: Essa é uma área de risco, não é permitido edificar aqui. As encostas do Mediterrâneo? Sim, tem casas incrustadas, mas não tem chuvas de verão. Sim, eu sei que os hotéis maravilhosos das geleiras algumas vezes desabam. Sei que há avalanches de neve, aqui são de terra. Sei que nos outros 360 dias nada desbarranca. Sei que é impossível que todos se salvem, num Planeta vivo, mas algumas coisas podem ser evitadas.
Evoco os Mestres para que iluminem essa minha longa escrita, não evoco musos e musas pois o belo entendo como múltiplo e diversificado.
O jambolão está repleto de ricos, belos e nutritivos frutos...
Seria um conto mas foi atropelado pelas notícias do meio dia.
Eu,quando pequena, adorava o poço, a corda grossa, o balde cantarolante, o mistério do fundo, o frio que emanava, a água bela e viva, o plach no fundo, as ondas que formavam, a tentação do perigo de estar na beira, de saber o quão é profundo.
Evoco a mim mesma e vem tanta coisa, mestres, que até assusta, será mesmo que é tudo só de uma vida, parece que são tantas.
Morreu meu pobre continho presunçoso. Afogou nas águas turvas do poço. Não vou mais escrever de manhã o meio dia anda dolorido aqui. 
Fernanda Blaya Figueiró



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