Uma prece. Ao menino desconhecido do Fiúza.


Uma prece. Ao menino desconhecido do Fiúza.

Estava andando no centro de Viamão e quase cai num antigo conto meu, que agora não encontro. Eram os primeiros escritos com a personagem Linna Franco, em que um menino buscava ajuda para um pé machucado e não conseguia. Hoje algo muito parecido aconteceu, o antigo é mais ou menos de 2006, doze anos, muito tempo, e o tempo não muda! Passava pela porta da farmácia e um menino me abordou: tia compra pra mim coisa pra limpar o machucado, um dedão cortado, num pé sujo e um chinelo, aquela hora já estava calor, mas antes deve ter sentido muito frio. Porque você não vai ao hospital, fica a poucas quadras. Eu fui, mas tem que ir com um responsável, entrei e comprei gazes, água oxigenada e micropore, não podia comprar nada para dor porque se o menino fosse alérgico passaria mal. Perguntei onde morava no Fiúza e ele respondeu, magrinho cabelo cortado curto em triangulo na nuca, descolorido. Eu não comi nada ainda. Disse a ele que deveria ir para casa e de lá ir ao posto de saúde com alguém... Se eu chamasse a assistência social ele certamente fugiria, não parecia nada muito sério, mas com certeza ele não tem vacina antitetânica, provavelmente o responsável não o levaria ao posto, talvez uma avó ou um vizinho. Devia ter uns oito ou nove anos. Não pude ajudar muito, mas acendi uma velinha para que algo de bom aconteça em sua vida, que às vezes é o que resta a fazer.
Quem sabe o dedão esfolado ainda fará muitos gols, que pinta para boleiro ele tem!! Uma prece façamos pelo menino do Fiúza que sua sorte mude, que seu futuro seja belo. Quem nunca esfolou um dedão?
Há pouco ouvia a forte crítica que Nina Simone faz em um show ao vivo em Montreux, sobre a música Feelings. Ela diz que não acredita nos eventos que levaram aquele sentimento profundo. A interpretação que dá é linda, mas o sentimento da música é verdadeiro e profundo, é possível sentir o mundo não importa as condições em que você vive e de formas diferentes, a busca dela por justiça, liberdade, igualdade, irmandade é legitima tanto quanto a expressão artística da música. Eu pensei não vou escrever sobre esse menino sentado na soleira da farmácia, mas quer saber deu vontade, se errei com ele ao não ter levado ao médico? O que você faria?
Fernanda Blaya Figueiró


Encontrei meu escrito antigo no meio dos textos excluídos, acho que era sobre um caso quase real e sobre a burocracia. Como mudei meu jeito de contar histórias, não tem data no arquivo mas acho que é de 2006.
Linna Franco e o descaso.
 
Linna saiu do estúdio com um tremendo remorso de haver escrito sobre 
política. Armando tinha razão em vários aspectos. Mexer com ideologia 
sempre 
deu muita dor de cabeça. Mas deixar todo mundo neste clima de “fim de 
mundo”, não era certo. Essa baixa auto-estima que vinha rondando o 
dia-a-dia 
das pessoas tinha que sumir. Mergulhar todo mundo na incessante busca 
pela 
felicidade também não era o caminho. Lavar as mãos como Pilatos?
-       Tia! Onde fica o posto de saúde?
Um garoto olhava para ela, tinha a perna enrolada num pedaço de pano 
sujo.
-       O posto fica pra lá. Você está sozinho?
-       Eu vivo sozinho.
-       Que aconteceu com a tua perna?
-       Levei uma rasteira...
-       Quando?
-        Faz dias. Eu fui noutro posto, uma velha louca me atendeu. Disse que 
não 
tinha médico. Agora tá criando uns bicho...
-       Bicho?
-       Umas coisinhas brancas.
-       Deixa eu ver?
-       A senhora é médica?
-       Não. Vamos lá que eu vou te ajudar.
Linna Franco perguntou ao garoto qual o seu nome. Jonas ele respondeu. 
Ao 
chegar ao posto a atendente queria um comprovante de residência dele. 
Jonas 
morava na rua. Linna informou o estado deplorável em que se encontrava 
a 
perna do garoto. A atendente respondeu que não havia mais fichas e que 
ele 
deveria ir a outro lugar.
Um menino, sem condições financeiras, sem casa. Teria que procurar, 
sozinho, 
um novo lugar para ser atendido. O posto estava vazio, várias salas, 
com 
mesas, cadeiras, camas hospitalares, armários cheios de medicamentos. 
Gases, 
algodão, esterelizantes, tesouras, bisturis, balança. Tudo para que ele 
fosse atendido. Linna disse que estava ligando para o jornal. A 
atendente 
enlouqueceu. Ficou furiosa. Ligou para o Secretário, que ligou para o 
chefe 
do posto. Que ligou para a atendente. Que chamou a ambulância.
Linna estava junto quando o jovem residente cortou o pano sujo e caíram 
larvas da perna do garoto. O cheiro era insuportável. Uma parte do osso 
estava exposta. 39,5 º . Jonas estava com muita febre. O residente 
vomitou 
nos pés da atendente.
Duas horas depois Jonas estava no céu.
 
 
 

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