Decifra-me ou devoro-te.

"O segredo da vida e o mistério da morte"

Dia 18 deste mês, agosto mês do desgosto, publiquei algumas antigas fotos sobre meu hábito de andar e colecionar belas imagens, entre elas estava uma que gosto muito o mural ou parede ornamentada da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, nas fotos ao fundo das magníficas Estatuas da Esfínge e da Serpente. Este passeio foi em 02/12/2016, as fotos não são muito boas pois meu celular na época era mais simples, mas por sorte publiquei mesmo assim.
É imprescindível ter muito cuidado com todo este acervo, que constitui patrimônio histórico do Rio Grande do Sul, do Brasil e revela um rico período da história da arte em nosso país. Informação do site Wikipedia:

Salão Mourisco
"O edifício atual, na esquina da Rua Riachuelo com Rua General Câmara, começou a ser erguido em 7 de fevereiro de 1912, com projeto de Affonso Hebert, uma vez que a antiga sede, na época transformada em Escola Complementar, se encontrava já superlotada. A primeira etapa da construção foi concluída em 1915, completando o bloco defronte à Rua Riachuelo. Em 22 de maio de 1919 foi contratada a ampliação da parte dos fundos, ora sob responsabilidade do engenheiro Teófilo Borges de Barros, sendo acabada em sua estrutura em 1921. Então passou-se à decoração, com aplicação de mármores e parquets, aquisição de mobiliário requintado, pinturas e esculturas, revestimento das paredes internas com pintura decorativa e instalação de estantes de aço, cujo peso obrigou ao reforço do piso. A pintura decorativa esteve a cargo de Fernando Schlaternquanto as esculturas de mármore e bronze foram realizadas por Alfred AdloffEduardo de Sá e Giuseppe Gaudenzi" do site https://pt.wikipedia.org/wiki/Biblioteca_P%C3%BAblica_do_Estado_(Rio_Grande_do_Sul)

Ver nesta segunda feira, dia 20/08 esta sala revirada me deixou muito incomodada, pelo descuido com esse acervo todo, que inclui o mobiliário. Aqui em Viamão vimos nossa Biblioteca Pública Erico Veríssimo ser fechada, mesmo com abaixo assinado feito por nós usuários dela na época, mesmo tendo pedido apoio ao Sistema de Bibliotecas Públicas do Rio Grande do Sul, conseguimos manter ela 'aberta', mas como hoje faz parte da Secretaria da Educação e fica com a porta externa fechada se tornou, se é que ainda existe, uma sala de reuniões a serviço da burocracia. A biblioteca morreu porque a população deixou de ir a um lugar em que não era bem vinda. Espero que o mesmo não aconteça a outras bibliotecas que estão sendo desativadas porque os governos querem manter nossa população sem acesso a cultura, além de imaginarem que o tempo das bibliotecas acabou, que a Internet substituiu os livros, que os espaços teriam maior "utilidade' se transformados em espaços comerciais, ou lugar para jogar vídeo game. 
O leitor não é mais bem vindo em muitas bibliotecas, porque ele é um ser em extinção, um dinossauro. 
São as mudanças profundas na sociedade, é preciso aceitar e não se incomodar, como o taxista tem que mudar e se adaptar aos aplicativos, o jornalista tem que aceitar o escritor comum, intruso, o fotógrafo tem que aceitar o amadorismo, o político tem que entender os robôs influenciadores, os sociólogos e cientistas tem que interagir com o pensamento raso... Leitores e escritores tem que virar funkeiros,  aplicar silicone com Dr. Bumbum... Esse é o mundo sendo comido pelo tempo. Bibliotecas sendo desfiguradas é um filme ruim que eu já vi, mas nós leitores/escritores nos reinventamos, não há problema só temos que encontrar novos lugares para ser e estar.
O mundo de hoje é bem cruel, quando Einstein morreu seu desejo era de ser cremado inteiro, mas um médico roubou seu cérebro, em nome da ciência cometeu um crime, triste isso, o que acontece a um ser. Imaginem se Einstein tentasse reencanar hoje no Brasil seria um feto anencéfalo, não teria a menor chance de nascer, a medicina não permitiria. 
As bibliotecas são seres mágicos, não roubem seus cérebros em nome da ciência ou do modismo. 

http://fernandablaya.blogspot.com/2016/12/fui-caminhar-um-pouco-em-busca-de-novas.html

P.S. Esqueci de comentar, imaginem se os jovens que usaram os fogos de artifício na boate Kiss pudessem voltar no tempo, eles não fariam isso novamente. Ou a Instalação artística usando tecidos próximos a lustres que resultou no incêndio no Museu da Língua Portuguesa,em SP,  se tivesse sido mais cuidadosa poderia ter evitado o desastre. Então vamos pensar na nossa biblioteca antes que algo pior aconteça.

http://lcoisascotidianas.blogspot.com/2018/08/adoro-caminhar.html





Os limites do uso nos espaços históricos.
Ontem fiquei muito chateada ao visitar a Biblioteca Pública do Estado do RS e ver a lamentável cena de obras artísticas jogas nos cantos, cadeiras antigas amontoadas, o hall virado em botequim de quinta categoria, sapatos de prostíbulos pendurados em chapeleiro do século passado. Triste um prédio que levou oito anos para reabrir virar estúdio de fotografia, arte pela qual tenho grande apreço mas que sob hipótese alguma pode violar um espaço de estudo e preservação da memória para virar cenário falso. Não se serve bolo numa sala histórica, sim literatura.
Escrevi esse comentário logo depois deletei pois achei que havia 'exagerado', mas o assunto ficou no meu pensamento e algumas indagações surgiram no meio da noite como por assalto, roubando meu sossego:
- Quanto custou a restauração da Biblioteca Pública do Estado do RS?
- Como foram removidos os pesados bustos para que se fizesse o 'ensaio fotográfico'?
- Foi feito o registro do acervo antes e depois para reparação futura de danos caso algum objeto fosse quebrado? Os artistas que usaram o espaço tem noção do valor histórico e monetário das peças que amontoaram como se fossem lixo?
- Foi informado ao IPHAN, que acredito que tenha patrocinado a restauração, que o espaço seria cedido para fotografias e que as obras de arte como os bustos seriam retirados do lugar?
Sei que o período é eleitoral e que um assunto assim tão sério pode causar desconforto, mas é importante refletir sobre isso pois de boas intenções o inferno está cheio, acredito que quem autorizou o uso do Salão Mourisco para o ensaio de fotografias, pelo menos foi o que me informaram que estava acontecendo, não pensou nas implicações. Também sei que as bibliotecas vem sendo destruídas e transformadas em espaços de 'lazer e entretenimento', não mais de cultura e leitura.
O Busto de Beatrice foi desentronado e colocado no acervo de toda a literatura gaúcha, entre os livros históricos, que espero não sejam retirados para dar espaço ao triste cenário. A musa dos poetas me pareceu deslocada no meio do pampa.
Depois de uma noite de sono e refletindo sobre o que vi resolvi editar esse comentário e publicar novamente. Espero que alguém recoloque as obras no lugar com cuidado e atenção para que nada se perca.
Já o Solar dos Câmara está muito bem cuidado e restaurado, vale a pena visitar.
Fernanda Blaya Figueiró
As fotografias são do Solar dos Câmara.

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