Republico um antigo conto infanto juvenil de 1/10/2007, sobre o Sambaqui. Sempre gostei muito deste tema, já visitei um em Xangri-lá, também em uma prainha de Florianópolis onde tirei a inspiração para o continho Floripano... Lembrei disso indo ao Museu do Homem do Sambaqui.
Hoje somos o Homem Consumus ou o Homem Consumido pelo Consumo, brincadeira, calma...
Hoje somos o Homem Consumus ou o Homem Consumido pelo Consumo, brincadeira, calma...
O sambaqui
Moema saiu de Maquiné, cedo, tinha o dia inteiro de folga. Seu irmão Acauã tomaria conta de tudo.
Resolveu levar apenas uma pequena bolsa, com o que precisava para passar o dia inteiro na praia. Ela gostava de curtir o mar fora de temporada; o sol ainda não era tão forte quanto no verão. Mas, mesmo assim, levou protetor solar e um chapéu para proteger o rosto.
Moema desceu do ônibus direto na praia. As ruas estavam quase vazias; algumas lojas abriam as portas, poucas pessoas caminhavam pelo calçadão, e, na beira da praia,não havia ninguém.
As garças tomavam conta da paisagem, com suas pernas altas e a delicadeza de seu vôo e mergulho. O som produzido pelas ondas do mar parecia mais forte, a espuma estava branquinha, branquinha...E o dia iluminado. Moema deixou os pés afundarem na areia, repleta de pequenas tatuíras. Isso é que era vida, ela pensou. Pulou e brincou com as ondas como se fosse uma criança.
Quando estendeu a esteira na beira da praia tomou um susto, Gabã, um filhotinho de gambá pulou e deu um pequeno grito:
- Cuidado! Você não me viu?
- Desculpe-me!! – disse ela – A praia está tão vazia que não prestei atenção...!!Você fala?
- Falo! – respondeu olhando bem para a moça- Por que? Você não é a irmã de Acauã?
- Sim!- ela respondeu – Você é um dos animaizinhos da turma de Linna Franco?
- Mais ou menos – respondeu – Eu sou amigo da foquinha Onc e leio o blog. Meu avô era o grande Ulisses, o maior gambá desta região. Morava nos telhados dos chalés; cada dia em um lugar. Ele que deu o meu nome; disse que é gambá em tupi guarani.
Moema e Gabã ficaram conversando, enquanto as ondas quebravam na areia. O filhotinho disse que precisava encontrar uma casa. Havia saído a poucos dias da bolsa da mãe, um lugar quentinho e seguro que dividia com os irmãos.
- Só que agora vou ter que procurar uma casa.- disse preocupado- Os gambás vivem sozinhos até a época do acasalamento, depois cuidam dos filhotes e voltam a viver sozinhos. O problema é que quase não tem mais chalés. E, nos edifícios, não dá pra morar, o aluguel é muito caro... Agora eu pergunto: Onde nós podemos ficar?
- Longe das cidades ...– ponderou Moema.
-Alguns de nós vivem no mato. A noite passada, eu fiquei nas dunas, mas... nem te conto, a maré subiu, subiu, subiu... Sorte que acordei a tempo, a água já estava quase chegando nos meus pés... As pessoas tomaram conta de tudo... Eu tenho uma prima que mora num bueiro.
Gabã ficou falando Moema não conseguia dizer nada. O sol começou a aquecer, e ela foi buscar uma água... Enquanto isso, o filhote ficou falando com uma garça.
- Eu já volto! disse Moema_Vocês cuidam de minha esteira?
- Pode deixar! – disse ele.
Uma tatuíra veio ouvir o drama que Gabã estava contando. Ficou aliviada em morar na areia, onde ninguém era dono. A foquinha Onc fez um sinal de dentro da água. Quando ela pulava, seu corpo reluzia...!!Estava super alegre e fez uma porção de piruetas para animar os amigos. Alguns surfistas estavam entrando na água. A foquinha foi recebê-los...Curiosa. Nadou entre eles e acompanhou as manobras que faziam com atenção.
Moema voltou trazendo a água. Aos poucos, a praia começava a ficar com mais gente. Algumas pessoas caminhando, outras pescando e outras, como ela, só aproveitando.
O filhotinho saiu conversando e bisbilhotando, queria achar um lugar legal para ficar. Era muito esperto.
Moema resolveu dar um mergulho. Assim que entrou na água, viu que Onc nadava ao seu lado.
- Olá! – disse alegre a foquinha – Você nada muito bem para uma pessoa...!!
- Obrigada! – respondeu ela – Só que a água está gelada! Não sei se vou agüentar muito tempo.
-É assim que eu gosto!- respondeu Onc.- Quando fica quente, eu e minhas amigas vamos pro sul.
Moema saiu logo para se aquecer no sol. Estava sentando na esteira quando Gabã veio correndo em sua direção...Estava apavorado!!
- Moema! Você precisa ver uma coisa!
- O quê?
- Não sei! – disse ofegante - Eu estava nas dunas e, de repente, caí em cima de uma montanha... Foi horrível...!! Vem! – Insistia ele puxando a mão da garota.
Ela acompanhou o gambazinho curiosa... As pessoas que estavam na praia não entenderam nada, olhavam para ela como se fosse de outro mundo. Seguir um gambá praia a fora..!!!Parecia coisa de louco.
O gambazinho foi, com ela, até o topo da duna mais alta. De lá, a praia parecia distante e o mar maravilhoso.
- Que lugar lindo! Você vai morar aqui?
- Nem pensar! – disse pegando na mão da garota – Prepare-se!
Moema olhou para o ponto que ele mostrou. Sob a areia, aparecia um pequeno amontoado de conchas e no meio um crânio humano.
- Um sambaqui! – exclamou maravilhada – Gabã, você encontrou um sítio arqueológico...!!
- Sambá aqui! Tá maluca! Isso não é hora de sambar! Moema, isso é um osso de gente...!! – o filhotinho tinha os olhos arregalados e um odor forte- Deve ter algum bandido escondido por aqui.Se meu vô fosse vivo... O grande Ulisses saberia o que fazer.
- Calma! O Sambaqui era o lugar onde os antigos moradores destas terras depositavam os seus utensílios, as conchas, as sobras de sua alimentação... Alguns eram também cemitérios...
Gabã respirou, aliviado, estava escondido nos tornozelos de Moema e espiava, enquanto ela removia, com cuidado, a areia em torno da descoberta. A garota estava maravilhada...!!Ela havia feito um longo estudo sobre a cultura dos povos indígenas moradores do litoral.
Estava se sentindo como se tivesse ganho um presente. Precisava avisar aos seus professores...E Acauã. Mas não queria perder o lugar exato; o vento mudava as dunas o tempo todo.
Moema viu que havia um esqueleto praticamente intacto, sedimentado entre conchas e espinhas de peixes. Lágrimas de alegria rolaram em sua face. Gabã não entendeu nada, mas foi correndo pedir ajuda...!
Chamou a foquinha e fez com que ela procurasse os dois surfistas... Já que as outras pessoas na praia não pareciam prontas para falar com um gambá.
Onc nadou entre os dois surfistas, atrapalhando as manobras. Tentou de tudo que foi jeito uma forma de comunicação, mas eles não entendiam.
-Onc! Onc! Onc!- dizia ela apontando a praia com a barbatana.
Os dois incomodados acabaram saindo do mar. Na areia, Gabã olhou bem para eles e pegou um celular. O mais alto saiu correndo atrás do gambazinho. Todos na praia param para olhar a cena.
Gabã só parou ao lado de Moema.
- Hei!- disse furioso para ela - Esse bichinho roubou o meu celular...!!!
- Roubou? Será que não foi você que atirou isso na areia?
- Olha o jeito que fala garota...!! Eu deixei sob a toalha, guardado...
O outro rapaz se aproximou e tratou de acalmar os dois.
- Olá, Moema!
-Guto! Esse cara é teu amigo?
- Sim, é o Tielo. Meu colega de residência no HPS.
Moema estava indignada com o jeito que ele falou do filhote. Pegou o telefone e entregou em suas mãos.
- Toma! – disse – Está intacto!
- E cheio de areia...
- Isso parece um sambaqui! - interrompeu Guto.- Que viagem...!!! Minha mãe vai adorar...
Greta, a mãe de Guto, era uma pesquisadora. Ela dedicou seus estudos a acompanhar as mudanças na vida do planeta. Sem cerimônia, ele pegou o celular de Tielo e ligou para ela, contando a descoberta.
Em poucos minutos, a praia estava cheia. Greta informou imediatamente ao pessoal do corpo de bombeiros e a patrulha do meio ambiente sobre a descoberta. Só que pediu a todos que mantivessem a calma, já que tudo indicava que era um sítio arqueológico. Porém, seriam necessários testes e um amplo estudo para determinar isso.
Moema e Gabã acompanharam a movimentação. O Sol estava ficando muito forte. Guto e Tielo se despediram dela e deixaram a praia; os dois tinham um plantão que iniciava às duas da tarde.
Enquanto isso, a notícia se espalhou...Já eram dez horas da manhã, e a rede de televisão queria uma tomada para o jornal do meio dia. Linna Franco estava no seu primeiro dia de estágio, como auxiliar na produção de um programa infantil. Só que todas as equipes da tevê educativa estavam ocupadas. Logo o “Poderoso Chefão” da produção do jornal não parou para pensar duas vezes e escalou a estagiária para voar imediatamente para o litoral.
Dez e vinte da manhã, Linna embarcou num helicóptero, acompanhada de um câmera e com a missão de entrar no ar: Ao Vivo. Sentiu um frio na espinha, não se sentia preparada para tal desafio. Sabia muito pouco sobre os sambaquis e nunca tinha estado diante de uma câmera. Em poucos minutos, desembarcava na beira da praia. Quase morreu de alegria ao ver Moema...!! encontrar um rosto conhecido diminuiu muito o seu nervosismo.
- Moema! – ela disse – Que bom te encontrar...!!
- Linna! Como vocês ficaram sabendo tão rápido?
- A equipe do jornalismo entrou em contato com os bombeiros; este é um procedimento de rotina. E eles informaram. Agora me diz: foi você que encontrou?
- Não. - respondeu ela – Foi Gãbá, este filhotinho, ele estava procurando uma casa e acabou encontrando e me avisou.
-Isso, Linna!- disse orgulhoso o gambazinho- Fui eu que achei!
- Será que as pessoas vão acreditar nisso? – perguntou Linna.
- Depende do jeito que contarmos; todo mundo, na praia, me viu correndo atrás dele. É só eu dizer que estava brincando com ele e encontramos juntos.
- Acho que fica melhor- disse ela.
Linna estava pronta, havia conversado com Moema, com Gabã e com Greta. Os bombeiros removiam com cuidado a areia e isolavam a área. Aos poucos, a montanha começava a aparecer e, sem sombra de dúvidas, era mesmo um sambaqui. Os restos mortais de um antigo habitante do litoral apareciam entre outros objetos.
Greta falou sobre a importância da descoberta, sobre como os pesquisadores poderiam entender melhor quem eram os habitantes da praia, seus hábitos, sua alimentação. E também sobre a forma como a sociedade se organizava e as estruturas, relações familiares e as funções de cada indivíduo. Moema falou sobre sua alegria em poder participar deste fato. A matéria finalizou com uma tomada de Gabã ao lado dos bombeiros e Linna dizendo: - Vamos cuidar bem deste patrimônio cultural!
A reportagem foi um sucesso retumbante. Linna e Moema almoçaram juntas e, logo depois, a equipe da teve retornou para Porto Alegre.
Acauã almoçava num restaurante, onde havia levado alguns produtos para comercializar e ficou surpreso ao ver a irmã e a namorada na televisão.
A praia encheu de curiosos e pesquisadores. Moema caminhou um pouco pela cidade, precisava sair do sol. Gabã e ela estavam passeando quando passaram por um dos últimos chalés da praia: era pequeno e aconchegante, na frente tinha uma varanda de madeira, protegendo a porta central. Pintado na cor azul claro, tinha as janelas brancas enfeitadas com coraçõezinhos. Uma trepadeira cobria de flores a entrada, dando um ar acolhedor. Estava em perfeitas condições de manutenção. Aos fundos, tinha uma garagem, também de madeira, muito característico de um estilo de construção. A grama alta indicava que estava fechado, como a maioria das casas.
Gabã ficou louco em encontrar aquele lugar... Subiu no portão com agilidade e entrou para explorar o ambiente. Seus problemas de habitação pareciam estar chegando ao fim. Moema ficou na calçada, sabia que era uma propriedade particular e que mesmo fechada tinha que ser respeitada. Gabã acenou para ela, do telhado, havia encontrado uma brecha na calha e de lá gritou:
- Tchau, Moema! Não tem ninguém morando aqui, vou aproveitar.
- Tchau! - respondeu a garota – Boa sorte!
Moema ficou contente por ele, enquanto caminhava, notou o quanto a cidade havia mudado, lembrava de sua infância...Naquele tempo, a praia tinha muitas casas e algum comércio. Hoje, a maioria das casas havia sido substituída por enormes edifícios e o comércio havia crescido muito. Restaurantes, bares, sorveterias dividiam o espaço com lojas de roupas, artesanato, bazares. Além da lan houses, shoppings e inúmeras atividades de lazer. Ela aproveitou o tempo livre para consultar seu e-mail e pesquisar sobre o sambaqui.
Moema ficou imaginando quem teria sido aquela pessoa sepultada no sambaqui. Há quantos anos ela, ou ele, teria andado por estas praias? O que pensariam sobre a vida? Será que tinham vivido um amor? Seria um guerreiro, pajé, cacique, ou, pai ou mãe? Com todas estas perguntas na mente, retornou a praia.
Onc acenou para ela convidando-a a entrar na água. Moema sentiu um arrepio. Já eram três horas da tarde; o sol estava forte ainda, mas a água continuava gelada. Mergulhou sem pensar muito.
- Olá! – disse a foquinha – Eu estou morrendo de curiosidade...!! Uma garça me disse que está o maior bafafá na areia. Até a Linna esteve aqui. É verdade?
- É. – respondeu Moema e contou tudo em detalhes para ela.
- O pessoal do fundo do mar está curioso para saber que tipo de conchas e de escamas e espinhas foi encontrado. Querem saber que ancestrais seus moravam por aqui... E se tem vestígios de seres extintos.
- Os cientistas vão apurar tudo isso.- disse Moema – Mas, pelo que Greta falou, os povos dos sambaquis e sua cultura, desapareceram há muito tempo. Assim provavelmente alguns animais também.
- Mas o mar é o mesmo! – disse categoricamente Onc. Ou não?
- Sei lá!
- Uma coisa é certa, eles tinham um bom gosto: comiam muitas ostras e peixes. Será que comiam focas?
Moema se despediu dela e voltou para a praia. Greta já havia removido uma boa parte da areia em torno do monumento. Ela olhava para o sambaqui com respeito e admiração. Moema chegou perto e passou a mão delicadamente no fóssil, sentindo a energia e a porosidade, levemente áspera.
Precisava voltar para casa, mas levou consigo aquela imagem e as indagações que surgiram. Greta ficou com o telefone da pousada de Pasolini, onde Moema trabalhava como guia turística. As duas iniciam uma grande amizade, que seria aos poucos, definida.
Ela pegou o ônibus e, durante o percurso, fechou os olhos e imaginou como era tudo aquilo. A natureza exuberante da mata atlântica servia como uma pista. Imaginou pessoas vivendo em harmonia com o verde e com os animais.
Quando chegou em casa, toda a comunidade estava reunida para abraçá-la. Orgulhosos, queriam saber os detalhes da aventura. O Cacique Tibiriçá tinha um adorno feito especialmente por Acauã, para agradecer a forma bonita com que tinha representado seu povo: um colar confeccionado com conchas e um pingente de pedras. Moema ficou surpresa!!
Sentou no meio da roda e relatou os acontecimentos. Trouxe as dúvidas dela, de Greta e de Onc. E falou sobre os problemas de Gabã e do final feliz dele.
À noite, a comunidade resolveu celebrar. A lua crescente era perfeita para rituais de prosperidade. Um banquete de frutas e comidas típicas foi preparado. Pauline ofereceu o pátio da pousada para reunir as pessoas. Acauã ligou para Linna e sua turma. Eles alugaram uma van e foram. Josefina sentou ao lado de Tibiriçá, e a festa foi marcada pelo som dos tambores, violão, gaita, flauta e pela voz melodiosa de Gi, com seu canto africano. A diversidade de manifestações mostrava que existia, realmente, uma forma harmônica de viver em comunidade.
Resolveu levar apenas uma pequena bolsa, com o que precisava para passar o dia inteiro na praia. Ela gostava de curtir o mar fora de temporada; o sol ainda não era tão forte quanto no verão. Mas, mesmo assim, levou protetor solar e um chapéu para proteger o rosto.
Moema desceu do ônibus direto na praia. As ruas estavam quase vazias; algumas lojas abriam as portas, poucas pessoas caminhavam pelo calçadão, e, na beira da praia,não havia ninguém.
As garças tomavam conta da paisagem, com suas pernas altas e a delicadeza de seu vôo e mergulho. O som produzido pelas ondas do mar parecia mais forte, a espuma estava branquinha, branquinha...E o dia iluminado. Moema deixou os pés afundarem na areia, repleta de pequenas tatuíras. Isso é que era vida, ela pensou. Pulou e brincou com as ondas como se fosse uma criança.
Quando estendeu a esteira na beira da praia tomou um susto, Gabã, um filhotinho de gambá pulou e deu um pequeno grito:
- Cuidado! Você não me viu?
- Desculpe-me!! – disse ela – A praia está tão vazia que não prestei atenção...!!Você fala?
- Falo! – respondeu olhando bem para a moça- Por que? Você não é a irmã de Acauã?
- Sim!- ela respondeu – Você é um dos animaizinhos da turma de Linna Franco?
- Mais ou menos – respondeu – Eu sou amigo da foquinha Onc e leio o blog. Meu avô era o grande Ulisses, o maior gambá desta região. Morava nos telhados dos chalés; cada dia em um lugar. Ele que deu o meu nome; disse que é gambá em tupi guarani.
Moema e Gabã ficaram conversando, enquanto as ondas quebravam na areia. O filhotinho disse que precisava encontrar uma casa. Havia saído a poucos dias da bolsa da mãe, um lugar quentinho e seguro que dividia com os irmãos.
- Só que agora vou ter que procurar uma casa.- disse preocupado- Os gambás vivem sozinhos até a época do acasalamento, depois cuidam dos filhotes e voltam a viver sozinhos. O problema é que quase não tem mais chalés. E, nos edifícios, não dá pra morar, o aluguel é muito caro... Agora eu pergunto: Onde nós podemos ficar?
- Longe das cidades ...– ponderou Moema.
-Alguns de nós vivem no mato. A noite passada, eu fiquei nas dunas, mas... nem te conto, a maré subiu, subiu, subiu... Sorte que acordei a tempo, a água já estava quase chegando nos meus pés... As pessoas tomaram conta de tudo... Eu tenho uma prima que mora num bueiro.
Gabã ficou falando Moema não conseguia dizer nada. O sol começou a aquecer, e ela foi buscar uma água... Enquanto isso, o filhote ficou falando com uma garça.
- Eu já volto! disse Moema_Vocês cuidam de minha esteira?
- Pode deixar! – disse ele.
Uma tatuíra veio ouvir o drama que Gabã estava contando. Ficou aliviada em morar na areia, onde ninguém era dono. A foquinha Onc fez um sinal de dentro da água. Quando ela pulava, seu corpo reluzia...!!Estava super alegre e fez uma porção de piruetas para animar os amigos. Alguns surfistas estavam entrando na água. A foquinha foi recebê-los...Curiosa. Nadou entre eles e acompanhou as manobras que faziam com atenção.
Moema voltou trazendo a água. Aos poucos, a praia começava a ficar com mais gente. Algumas pessoas caminhando, outras pescando e outras, como ela, só aproveitando.
O filhotinho saiu conversando e bisbilhotando, queria achar um lugar legal para ficar. Era muito esperto.
Moema resolveu dar um mergulho. Assim que entrou na água, viu que Onc nadava ao seu lado.
- Olá! – disse alegre a foquinha – Você nada muito bem para uma pessoa...!!
- Obrigada! – respondeu ela – Só que a água está gelada! Não sei se vou agüentar muito tempo.
-É assim que eu gosto!- respondeu Onc.- Quando fica quente, eu e minhas amigas vamos pro sul.
Moema saiu logo para se aquecer no sol. Estava sentando na esteira quando Gabã veio correndo em sua direção...Estava apavorado!!
- Moema! Você precisa ver uma coisa!
- O quê?
- Não sei! – disse ofegante - Eu estava nas dunas e, de repente, caí em cima de uma montanha... Foi horrível...!! Vem! – Insistia ele puxando a mão da garota.
Ela acompanhou o gambazinho curiosa... As pessoas que estavam na praia não entenderam nada, olhavam para ela como se fosse de outro mundo. Seguir um gambá praia a fora..!!!Parecia coisa de louco.
O gambazinho foi, com ela, até o topo da duna mais alta. De lá, a praia parecia distante e o mar maravilhoso.
- Que lugar lindo! Você vai morar aqui?
- Nem pensar! – disse pegando na mão da garota – Prepare-se!
Moema olhou para o ponto que ele mostrou. Sob a areia, aparecia um pequeno amontoado de conchas e no meio um crânio humano.
- Um sambaqui! – exclamou maravilhada – Gabã, você encontrou um sítio arqueológico...!!
- Sambá aqui! Tá maluca! Isso não é hora de sambar! Moema, isso é um osso de gente...!! – o filhotinho tinha os olhos arregalados e um odor forte- Deve ter algum bandido escondido por aqui.Se meu vô fosse vivo... O grande Ulisses saberia o que fazer.
- Calma! O Sambaqui era o lugar onde os antigos moradores destas terras depositavam os seus utensílios, as conchas, as sobras de sua alimentação... Alguns eram também cemitérios...
Gabã respirou, aliviado, estava escondido nos tornozelos de Moema e espiava, enquanto ela removia, com cuidado, a areia em torno da descoberta. A garota estava maravilhada...!!Ela havia feito um longo estudo sobre a cultura dos povos indígenas moradores do litoral.
Estava se sentindo como se tivesse ganho um presente. Precisava avisar aos seus professores...E Acauã. Mas não queria perder o lugar exato; o vento mudava as dunas o tempo todo.
Moema viu que havia um esqueleto praticamente intacto, sedimentado entre conchas e espinhas de peixes. Lágrimas de alegria rolaram em sua face. Gabã não entendeu nada, mas foi correndo pedir ajuda...!
Chamou a foquinha e fez com que ela procurasse os dois surfistas... Já que as outras pessoas na praia não pareciam prontas para falar com um gambá.
Onc nadou entre os dois surfistas, atrapalhando as manobras. Tentou de tudo que foi jeito uma forma de comunicação, mas eles não entendiam.
-Onc! Onc! Onc!- dizia ela apontando a praia com a barbatana.
Os dois incomodados acabaram saindo do mar. Na areia, Gabã olhou bem para eles e pegou um celular. O mais alto saiu correndo atrás do gambazinho. Todos na praia param para olhar a cena.
Gabã só parou ao lado de Moema.
- Hei!- disse furioso para ela - Esse bichinho roubou o meu celular...!!!
- Roubou? Será que não foi você que atirou isso na areia?
- Olha o jeito que fala garota...!! Eu deixei sob a toalha, guardado...
O outro rapaz se aproximou e tratou de acalmar os dois.
- Olá, Moema!
-Guto! Esse cara é teu amigo?
- Sim, é o Tielo. Meu colega de residência no HPS.
Moema estava indignada com o jeito que ele falou do filhote. Pegou o telefone e entregou em suas mãos.
- Toma! – disse – Está intacto!
- E cheio de areia...
- Isso parece um sambaqui! - interrompeu Guto.- Que viagem...!!! Minha mãe vai adorar...
Greta, a mãe de Guto, era uma pesquisadora. Ela dedicou seus estudos a acompanhar as mudanças na vida do planeta. Sem cerimônia, ele pegou o celular de Tielo e ligou para ela, contando a descoberta.
Em poucos minutos, a praia estava cheia. Greta informou imediatamente ao pessoal do corpo de bombeiros e a patrulha do meio ambiente sobre a descoberta. Só que pediu a todos que mantivessem a calma, já que tudo indicava que era um sítio arqueológico. Porém, seriam necessários testes e um amplo estudo para determinar isso.
Moema e Gabã acompanharam a movimentação. O Sol estava ficando muito forte. Guto e Tielo se despediram dela e deixaram a praia; os dois tinham um plantão que iniciava às duas da tarde.
Enquanto isso, a notícia se espalhou...Já eram dez horas da manhã, e a rede de televisão queria uma tomada para o jornal do meio dia. Linna Franco estava no seu primeiro dia de estágio, como auxiliar na produção de um programa infantil. Só que todas as equipes da tevê educativa estavam ocupadas. Logo o “Poderoso Chefão” da produção do jornal não parou para pensar duas vezes e escalou a estagiária para voar imediatamente para o litoral.
Dez e vinte da manhã, Linna embarcou num helicóptero, acompanhada de um câmera e com a missão de entrar no ar: Ao Vivo. Sentiu um frio na espinha, não se sentia preparada para tal desafio. Sabia muito pouco sobre os sambaquis e nunca tinha estado diante de uma câmera. Em poucos minutos, desembarcava na beira da praia. Quase morreu de alegria ao ver Moema...!! encontrar um rosto conhecido diminuiu muito o seu nervosismo.
- Moema! – ela disse – Que bom te encontrar...!!
- Linna! Como vocês ficaram sabendo tão rápido?
- A equipe do jornalismo entrou em contato com os bombeiros; este é um procedimento de rotina. E eles informaram. Agora me diz: foi você que encontrou?
- Não. - respondeu ela – Foi Gãbá, este filhotinho, ele estava procurando uma casa e acabou encontrando e me avisou.
-Isso, Linna!- disse orgulhoso o gambazinho- Fui eu que achei!
- Será que as pessoas vão acreditar nisso? – perguntou Linna.
- Depende do jeito que contarmos; todo mundo, na praia, me viu correndo atrás dele. É só eu dizer que estava brincando com ele e encontramos juntos.
- Acho que fica melhor- disse ela.
Linna estava pronta, havia conversado com Moema, com Gabã e com Greta. Os bombeiros removiam com cuidado a areia e isolavam a área. Aos poucos, a montanha começava a aparecer e, sem sombra de dúvidas, era mesmo um sambaqui. Os restos mortais de um antigo habitante do litoral apareciam entre outros objetos.
Greta falou sobre a importância da descoberta, sobre como os pesquisadores poderiam entender melhor quem eram os habitantes da praia, seus hábitos, sua alimentação. E também sobre a forma como a sociedade se organizava e as estruturas, relações familiares e as funções de cada indivíduo. Moema falou sobre sua alegria em poder participar deste fato. A matéria finalizou com uma tomada de Gabã ao lado dos bombeiros e Linna dizendo: - Vamos cuidar bem deste patrimônio cultural!
A reportagem foi um sucesso retumbante. Linna e Moema almoçaram juntas e, logo depois, a equipe da teve retornou para Porto Alegre.
Acauã almoçava num restaurante, onde havia levado alguns produtos para comercializar e ficou surpreso ao ver a irmã e a namorada na televisão.
A praia encheu de curiosos e pesquisadores. Moema caminhou um pouco pela cidade, precisava sair do sol. Gabã e ela estavam passeando quando passaram por um dos últimos chalés da praia: era pequeno e aconchegante, na frente tinha uma varanda de madeira, protegendo a porta central. Pintado na cor azul claro, tinha as janelas brancas enfeitadas com coraçõezinhos. Uma trepadeira cobria de flores a entrada, dando um ar acolhedor. Estava em perfeitas condições de manutenção. Aos fundos, tinha uma garagem, também de madeira, muito característico de um estilo de construção. A grama alta indicava que estava fechado, como a maioria das casas.
Gabã ficou louco em encontrar aquele lugar... Subiu no portão com agilidade e entrou para explorar o ambiente. Seus problemas de habitação pareciam estar chegando ao fim. Moema ficou na calçada, sabia que era uma propriedade particular e que mesmo fechada tinha que ser respeitada. Gabã acenou para ela, do telhado, havia encontrado uma brecha na calha e de lá gritou:
- Tchau, Moema! Não tem ninguém morando aqui, vou aproveitar.
- Tchau! - respondeu a garota – Boa sorte!
Moema ficou contente por ele, enquanto caminhava, notou o quanto a cidade havia mudado, lembrava de sua infância...Naquele tempo, a praia tinha muitas casas e algum comércio. Hoje, a maioria das casas havia sido substituída por enormes edifícios e o comércio havia crescido muito. Restaurantes, bares, sorveterias dividiam o espaço com lojas de roupas, artesanato, bazares. Além da lan houses, shoppings e inúmeras atividades de lazer. Ela aproveitou o tempo livre para consultar seu e-mail e pesquisar sobre o sambaqui.
Moema ficou imaginando quem teria sido aquela pessoa sepultada no sambaqui. Há quantos anos ela, ou ele, teria andado por estas praias? O que pensariam sobre a vida? Será que tinham vivido um amor? Seria um guerreiro, pajé, cacique, ou, pai ou mãe? Com todas estas perguntas na mente, retornou a praia.
Onc acenou para ela convidando-a a entrar na água. Moema sentiu um arrepio. Já eram três horas da tarde; o sol estava forte ainda, mas a água continuava gelada. Mergulhou sem pensar muito.
- Olá! – disse a foquinha – Eu estou morrendo de curiosidade...!! Uma garça me disse que está o maior bafafá na areia. Até a Linna esteve aqui. É verdade?
- É. – respondeu Moema e contou tudo em detalhes para ela.
- O pessoal do fundo do mar está curioso para saber que tipo de conchas e de escamas e espinhas foi encontrado. Querem saber que ancestrais seus moravam por aqui... E se tem vestígios de seres extintos.
- Os cientistas vão apurar tudo isso.- disse Moema – Mas, pelo que Greta falou, os povos dos sambaquis e sua cultura, desapareceram há muito tempo. Assim provavelmente alguns animais também.
- Mas o mar é o mesmo! – disse categoricamente Onc. Ou não?
- Sei lá!
- Uma coisa é certa, eles tinham um bom gosto: comiam muitas ostras e peixes. Será que comiam focas?
Moema se despediu dela e voltou para a praia. Greta já havia removido uma boa parte da areia em torno do monumento. Ela olhava para o sambaqui com respeito e admiração. Moema chegou perto e passou a mão delicadamente no fóssil, sentindo a energia e a porosidade, levemente áspera.
Precisava voltar para casa, mas levou consigo aquela imagem e as indagações que surgiram. Greta ficou com o telefone da pousada de Pasolini, onde Moema trabalhava como guia turística. As duas iniciam uma grande amizade, que seria aos poucos, definida.
Ela pegou o ônibus e, durante o percurso, fechou os olhos e imaginou como era tudo aquilo. A natureza exuberante da mata atlântica servia como uma pista. Imaginou pessoas vivendo em harmonia com o verde e com os animais.
Quando chegou em casa, toda a comunidade estava reunida para abraçá-la. Orgulhosos, queriam saber os detalhes da aventura. O Cacique Tibiriçá tinha um adorno feito especialmente por Acauã, para agradecer a forma bonita com que tinha representado seu povo: um colar confeccionado com conchas e um pingente de pedras. Moema ficou surpresa!!
Sentou no meio da roda e relatou os acontecimentos. Trouxe as dúvidas dela, de Greta e de Onc. E falou sobre os problemas de Gabã e do final feliz dele.
À noite, a comunidade resolveu celebrar. A lua crescente era perfeita para rituais de prosperidade. Um banquete de frutas e comidas típicas foi preparado. Pauline ofereceu o pátio da pousada para reunir as pessoas. Acauã ligou para Linna e sua turma. Eles alugaram uma van e foram. Josefina sentou ao lado de Tibiriçá, e a festa foi marcada pelo som dos tambores, violão, gaita, flauta e pela voz melodiosa de Gi, com seu canto africano. A diversidade de manifestações mostrava que existia, realmente, uma forma harmônica de viver em comunidade.
Fernanda Blaya Figueiró publicado em As Aventuras de Linna Franco www,linnafranco.blogspot.com. Blog infanto juvenil já encerrado e público.
P.S. Encontrei um erro antigo a palavra Pasolini, é Pauline, mas não vou corrigir pois o texto é de 2007 e não sei se na época foi percebido.
P.S. Encontrei um erro antigo a palavra Pasolini, é Pauline, mas não vou corrigir pois o texto é de 2007 e não sei se na época foi percebido.
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