A bela batalha que é a vida.
Estou acompanhando muitas contendas no pátio, na última primavera larguei no pátio um caroço de abacate já com um pequeno broto, no verão as folhas apareceram, iam bem, mas foram atacadas pelas formigas, havia protegido com uma latinha o entorno, o tempo passou as folhas vira e mexe tentam voltar, achei que a muda tinha perdido a batalha, colocamos veneno para as formigas, que são muitas e fazem enormes carreiros, na alvenaria não permitimos que se instalem. No fim do verão as folhas voltaram a crescer... Voltaram as formigas. Estes dias achei novamente que era causo perdido e encontrei um enraizamento já profundo para minha surpresa. Indaguei ao broto se não tinha medo da ‘corrupção’ das formigas ele disse que não, que é preciso se adaptar a um mundo com elas, e que talvez elas estejam levando partes suas para a mata. O antes fruto e caroço, agora broto de abacate não lê jornal, mal sabe das ameaças nucleares, da violência urbana, só sabe que encontrou terra fértil e nela fixou raízes, perguntei se não teme a morte. Ele disse que já é um vencedor, que 90% dos caroços que brotam tem no triturador do lixo o fim último, não menos nobre, alimentam o solo, que ele está lutando pela vida há duas estações, ou mais que talvez eu tenha esquecido o tempo e confundido as datas, talvez tenha sido na outra primavera, que se um dia virar árvore dará frutos e estes alimentarão a terra e se alimentarão dela... Já a luta entre o butiazeiro e a figueira, perdi, pois não adianta tentar salvar o butiazeiro a figueira é mais forte e sua raiz já chega ao chão pelo interior do tronco da hospedeira. Essa batalha vai levar uns 50 anos talvez eu não veja quem vai sobreviver, talvez um meteoro acabe com tudo e tudo recomece de um outro formato. Talvez eu reencarne como robô, então eu não reencarne, eu rerobotize. É também preciso recompor o sonho, o lúdico... Não posso contar a meus descendentes que o mundo é tão violentamente perigoso, eles vão como o caroço do abacate criar raízes e travar suas batalhas. Se Roma sobreviveu a Nero e seu fogo tresloucado, o Brasil sobreviverá a essa onda nefasta de corrupção... Não é fácil ser e viver nesse XXI século, que avança com as mesmas batalhas de sempre, mas é possível. Já as borboletas agradecem com delicados vôos as flores nativas que embelezam a vida e trazem luz para o dia. São tantas outras histórias acontecendo, a bergamoteira que no ano passado não deu um só fruto, hoje tem os ramos carregados, mal consegue tomar sol de tantos frutos suculentos e cheios de vitaminas, também ela pensei que estava condenada, foi só colocar pó contra formiga que tudo se ajeitou. Não, não vejo as formigas como más, só não permito que se tornem pragas, elas são valentes, estão aqui desde sempre e sabem dosar a pena que impõe as plantinhas, sabem que se comerem tudo matam sua fonte de vida. Então eu que vivo essa vida ligada ao chão, a terra, ao ar, a água e amo ouvir o vento, gosto de devanear. Quem é afeito ao concreto, ao ar cheio de carbono, a terra soterrada, a água engarrafada, que precisa sentir na roupa a fuligem, que se sente natural no meio da avenida e tem no zunido da estrada a felicidade que conte as contendas da cidade, quando vou lá eu conto o que percebo, as pragas urbanas e as alegrias cotidianas, fofocas puras. Coma seu abacate com sal ou açúcar, jogue no lixo o caroço que está tudo certo, um mundo repleto de abacateiros seria uma tragédia, um exagero, uma loucura, um disparate. Um só abacateiro alimenta centenas de pássaros, milhares de formigas, dezenas de seres humanos... Então é isso.
Fernanda Blaya Figueiró




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