Amarga ida aos Campos de Margarida


Amarga ida aos Campos de Margarida
Um pouco de poesia, para desviar o olhar do mundo, só um pouquinho...
Perguntei ao poeta e Margarida?
Margarida nunca teve voz ele respondeu, ela foi a minha sombra. Uma bela sombra projetada no chão dos dias limpos e claros. Só há sombras nos dias de sol.
Quanto de verdade há nas coisas que dizem sobre ela? Nenhuma. A verdade não habita um só poema escrito ou cantado , a poesia é a sombra dos tempos, só existe em dias de sol. Ela é o medo dos poderosos, pois diz sem dizer, conta sem contar e na dubiedade pode ser tudo verdade, pode nada ser.
Não era frenético fazer... Era profundo e disciplinado fazer, as pessoas adoram destruir ídolos, os constroem e logo após os apedrejam. Tal poeta é maldito por ter sido assim ou assado, mal passado, morreu cedo e pouca coisa deixou ou morreu cedo e muita coisa deixou, morreu tarde, não precisa ter escrito tanto... Ninguém nunca está satisfeito com nada. Poetas tem de todos os jeitos, comerciais,  guerreiros,  deslumbrados, excêntricos... Poesia são poucas, muito poucas, poemas são qualquer coisa.
Margarida não nasceu, foi um grão jogado na terra seca, repousou longos e longos anos poderia ser  Ida, Ada, garrida, mar, gamar, amarga, Margarida. Sua alma seria singela e doce como as pétalas macias da flor, teria lindas cores para poetar... branco, amarelo e verde... a flor do amor, mal-me-quer-bem-me-quer...  uma inflorescência de tênue perfume... Branco na pureza de alma, amarelo de sol ardente,  verde de Campos, campinas e planícies... No verde habita a liberdade.
Como são más as gentes que vivem ao pé dos ícones, como golpeiam os pés e depois dizem que era de barro, sim, amores, sim todo ídolo tem pés de barro, todos desmoronam ao peso do próprio corpo, que é pó e volta ao pó, os comedores de pés de barro vão roendo, roendo até conseguirem abalar as estruturas, de um ídolo nada resta na carcaça do ser que foi. Margarida é um poema só meu, que guardei em mim e levei comigo, responde o poeta... Todo idólatra só tem sossego ao ver o ídolo morto. Pois então ele é dele, nada pode mais fazer em auto defesa ou falar sobre as coisas todas que deixou caídas no trajeto, quinquilharias, a elas são atribuídos símbolos, valores, metáforas tolas e lendas as vezes ridículas. Ninguém conhece os poetas.
Margarida  não te deixou ser o poeta, ou simplesmente te diluiu. Dissoluta és a sombra de cada poema. Foi isso amor? Não sei, nada sei de nada... Estou só ocupando o tempo... E permitindo que o tempo se ocupe de mim, é uma troca. Sem o ser o tempo não existe, ele é só uma convenção que pode estar errada, mas é certo que a gente nasce, que a gente cresce, vive e morre, mas não sei se esse passar de horas é o tempo de ser, talvez seja algo que já aconteceu ou que ainda virá... Sem o relógio para apontar as horas elas não existem assim como Margarida.
Mal te quis, bem te quis... o poeta...
Margarida, nada é absoluto, nada é concreto ou imutável... só sonhos, são sonhos.  
Fernanda Blaya Figueiró

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