Poema As mãos de Gabriela Mistral.






As mãos de Gabriela Mistral.
Fiquei muito impressionada com o roubo das mãos da escritora Gabriela Mistral, numa praça próxima a casa que um dia foi de Neruda em Valparaíso, cidade que sentiu o efeito do tempo e das mudanças econômicas, parece que a cidade empobreceu. Não conheço sua obra acho que há poucas coisas suas em português, ou eu não conheço. Ela é uma forte presença cultural em seu país. Destruir obras de arte para vender o material é uma coisa que acontece muito aqui no Brasil, talvez no mundo todo.
O que teriam pensado os outros poetas Vicente Huidobro e Neruda, congelados, estáticos diante do crime? Federico Garcia Lorca, do outro lado da rua suas palavras belas encantam.
Eu não sou uma boa leitora, sou leitora de fragmentos, de nuances, de vida.
O dia do roubo
Pablo, Gabriela, Vicente e Federico tomo vossos nomes próprios, sei muito pouco sobre suas obras, sei pouco sobre a vida e a morte. Eu, se aí estivesse, neste dia, não estive nem sei quanto tempo tem do acontecido, não teria nome, nem palavras. Ninguém quebra bronze assim sem força, foi um ato de vandalismo múltiplo? Foi preciso um instrumento, para tirar a placa foi fácil, cortar as mãos foi muita maldade, deve ter sido com alguma serra elétrica ou a gasolina. Que maldade, quanta maldade. Um ato contra poesia feminina mutilaram quem acharam mais terna? A educadora mãe que perdoaria tal insulto. Foi por dinheiro ou por ideologia? Talvez um aluno zangado pela nota baixa em literatura...Foi com toda a certeza numa noite fria e esquecida, noite dessas que não queria ir, nem dia que queria nascer.
É só uma estátua? Não, nunca é só uma estátua. É um símbolo, alguém de má índole atacou as mãos de poesia, marcadas pelo labor que importa a poucos. Mãos que escreveram o que os olhos viram, o que o ser percebeu. Onde foram parar as mãos da poetisa?
Será que nesta noite longa havia um forte vento soprando do Pacífico? O que um turista tem com isso? Nada. Só que as coisas em tempo de poesia são assim.
Poetas o mundo está cansativo, cada época tem seus desafios, tudo que vocês fizeram pela poesia, na vida e na morte, fica roubado,trocado por um punhado de moedas. Devem em breve refazer as mãos de Gabriela e o bem no mundo? Serão capazes de esculpir? Seremos capazes?
As ideologias todas cansaram, um tempo substitui o outro e essa roda vai macerando, vai fundindo, não se sabe mais onde fica uma coisa e onde a outra deveria estar. Não há mais a opressão dos tempos de cada um de vocês, mas há isso, a miséria humana e a magnitude humana no mesmo lapso de tempo e espaço. Sabe-se cada vez menos sobre a poesia e aos poucos sabe-se tudo. A Arte é superior ao roubo e a morte, em bronze, em palavras, em sons, em gestos...
Pablo e Vicente nada podiam fazer em seus postos, Federico na parede impresso não podia contar, e Gabriela? Se, como a gente anseia, a alma existe, se como muitos de vocês bem sabem há vida além da vida, o que sentiu? Sentiu na amputação o mundo como ele é hoje.
Isso não aconteceu numa praça de Valparaíso,  aconteceu no mundo etéreo da poesia.
Essa ação de roubar metal é muito antiga, é de tempos outros...  
Silêncio
Silêncio
Silencio...
Gabriela? Acorda!!
Que foi Pablo?
Um ladrão... mais de um...
Não, devem ser meninos e meninas da noite, riem e dançam...
Gabriela? Sou eu, Vicente, são ladrões velhacos de casaca e rostos cobertos... quebraram a luz que te ilumina, cuidado.
Que posso aqui encurvada fazer?
Nada, minha senhora, nada, esses são como os que me fuzilaram...
Não se assuste Federico, são outros...
São os mesmos, são sempre os mesmos, em fantasias outras, são os mesmos...
Arrancaram a placa... Deus do Céu! As mãos... Que barbaridade, as mãos... Bronze não chora, bronze não sente, só a alma que a tudo assiste... Nada, nada disso tem a ver com Chile, Espanha ou Brasil é o Ser Humano as fronteiras existem só no papel, servem para limitar um pouco e criar imagens, somos todos o Ser Humano, a poesia é toda ela uma só coisa, um ser esteve aqui em tal tempo e viu tal coisas. Eu fui ver no Chile o que aconteceu ao Brasil.

Fernanda Blaya Figueiró


P.S. Corrigi o nome de Federico Garcia Lorca, havia, por desatenção escrito Frederico que seria o nome em português, achei melhor corrigir. 

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