Ecos da América.
Hoje encontrei um texto que achava que havia perdido, Ecos da América, não é um bom texto mas vou publicar, essa personagem Áurea, depois virou Linna Franco, quis dar a ela outro mundo, inicialmente era pesado, depois fui mudando para infanto juvenil e ficou mais leve, só não salvei a cronologia dos textos quando o weblogger saiu do ar, eu fiz uma anarquia mas os textos existem no blog www.linnafranco.blogger.com.br .
Nem re li hoje os contos, mas vou publicar pois quando precisar encontro não tem data mas acho que e de 2006.
Hoje encontrei um texto que achava que havia perdido, Ecos da América, não é um bom texto mas vou publicar, essa personagem Áurea, depois virou Linna Franco, quis dar a ela outro mundo, inicialmente era pesado, depois fui mudando para infanto juvenil e ficou mais leve, só não salvei a cronologia dos textos quando o weblogger saiu do ar, eu fiz uma anarquia mas os textos existem no blog www.linnafranco.blogger.com.br .
Nem re li hoje os contos, mas vou publicar pois quando precisar encontro não tem data mas acho que e de 2006.
A redação.
Naquela tarde
Áurea atendeu ao telefone na frente de Elizete. Falava em meias palavras, como
se houvesse um grande complô sendo armado. Olhou-a aflita e dizendo as palavras
de sempre, sumiu:
-
Tenho pouco tempo, eu preciso ir.
-
Mas não íamos juntas a reunião?
-
Eu tenho que dar uma voltinha, mas eu vou, com certeza,
pode esperar...
O grupo se
reuniu e foi inevitável a mesma pergunta
-
E a Áurea?
-
Deve estar chegando - Elizete respondeu placidamente.
Elas
conheciam-se há pouco tempo, mas aos poucos começavam a entender um pouco uma a
outra. Elizete fazia as colunas sociais, cultura, lazer, eventos. Áurea como
editora chefe fazia o fechamento do diário além de política, seleção de
colunas, fotos, matérias principais etc.. e Bartz na área comercial, mais os colaboradores
Jonas e Laura. Sem falar do Sr. Juarez Bartz
(pai) que apesar de ter passado a direção jornalística do Jornal para
Áurea e financeira para o Juarez Bartz (filho), mantinha uma supervisão acirrada.
Passou quase
meia hora, o grupo discutia amenidades, falava sobre tudo, mas sem poder
decidir nada, já que a editora não se encontrava. Nem um sinal, nem um
telefonema, um raio que caísse do
Céu.
-
Só o que eu posso dizer é que esta conduta é
lamentável, Áurea escreve bem, tem bom senso crítico, tem visão jornalística,
tem faro...Mas, não tem juízo. Se eu não posso contar com ela nem no fechamento
da edição, quando vou poder contar?
-
Ela já deve estar chegando, deve ter acontecido alguma
coisa.
Elizete tentava acalmar o chefe, sem sucesso. As decisões não podiam
esperar. Capa, editorial, manchetes, obituários, anúncios, editais, notícias.
Tudo pronto, autorizado, revisado. Já passavam
das nove horas, quando a reunião terminou.
Elizete estava desapontada com a amiga, tentava imaginar o que teria
acontecido, imaginava ela chegando no outro dia com a cara deslavada, com uma
desculpa qualquer na ponta da linha. Áurea não podia imaginar que Bartz estaria lá. Ela correu o risco. Na
certa imaginou que o grupo ia fazer o de sempre decidir pelo que ela tinha
deixado alinhavado, corrigir alguma bobagem e tocar o barco.
Um sentimento forte invadiu o pensamento de Elizete: e se tivesse acontecido alguma coisa?
Como uma assombração seu telefone tocou,
era Tiago o ex-marido de Áurea, perguntando por ela.
-
Não, ela não ta comigo. Não foi na reunião, não ligou, acabamos decidindo
tudo. Bartz ficou “Puto” com ela...Foi lá pelas cinco, disse que tinha uns rolos para
resolver, saiu, mas garantiu que não demorava.
-
- Juarez o Tiago
acabou de me ligar perguntando da Áurea...Sei lá, o que eu acho?Acho que “deu merda”. Não sei...
Elizete
desligou o telefone sem saber o que fazer, o que pensar. Ficou estática, na esquina da Júlio com a Felisberto Soares,
um taxista parou perguntando se ela queria ir a algum lugar.
- Não sei, uma amiga minha está sumida, acho que eu vou voltar pro Jornal
e tentar...
- A senhora ta falando da jornalista loira?
- Sim, a Áurea, você viu ela?
- Levei até o Caracol, lá pelas cinco e pouco...
- Quarta feira, que aquela doida foi fazer lá? Ela foi sozinha?
- Isso eu já não sei, deixei lá e voltei, por que ela sempre demora e
nunca quer pagar a roleta parada...
- Ela costuma ir lá...
- Ela vive dum lado pro outro...
Elizete resolveu ligar novamente para o chefe, seu Feeling lhe dizia que tinha algo mais nesta história. Por que ela
teria ido a Cascata do Caracol, numa tarde de trabalho, com uma reunião
marcada? As informações não se encaixavam, não combinavam, o que mais estava
preocupando Elizete era o olhar atônito de Áurea.
Aos poucos todos estavam na redação Tiago queria ligar para a polícia,
considerando que já eram uma e meia, quase oito horas passadas da última
notícia dela.
Bartz mandou começar uma investigação queria: fotos do taxista, descrição da roupa que ela
usava, local, horário...
- Eu não acredito que você esteja
pensando em transformar isso em notícia?
- Elizete, é notícia. Ou você
pretende que todo mundo fique sabendo pelos Jornais da Capital.
- A gente não ta falando de um fato, estamos falando da Áurea.
- Deixa “os caras” trabalharem,
se for notícia a gente inclui um extra, vai ser um estouro, antes das seis esta
pronto e as sete esta nas bancas.
- O que o sumiço de editora chefe do Jornal A Serra? Ou as loucuras de
Áurea...e se ela não tiver “desaparecido” só esteja por aí...
-
Fala Elizete, o que você sabe? Perguntou Tiago.
-
Eu não sei de nada, não to pensando em nada, acho que
transformar isso em comércio não é legal.
-
- Que comércio? _interpelou, Bartz.
- Ora, notícia assim...vende, não vende.
- Crise ética... por favor!
- Eu vou na D.P. registrar a ocorrência, vocês são todos loucos...Disse
Tiago
- Calma. O Jonas e a Laura vão contigo.
- O que o senhor quer?
- Que vocês não percam um único detalhe...Certo? Estão levando: máquina
fotográfica, papel, caneta, gravador?
- Levar Filmadora?
- Tem aí?
- Tem uma pequena, amadora, mas dá para fazer umas imagens boas.
- Leva, mas prioriza as fotos, que é o nosso negócio.
- Elizete, entrevista o taxista.
- Eu to fora, não conta comigo...Ela é minha amiga e não vou fazer parte
desse Circo...essa hora...não tenho tanto sangue frio.
- Jornalista não bate ponto, se não quer participar vai pra casa,
decretou o chefe.
Elizete estava atordoada, ela e os outros saem juntos, deixando o chefe falando sozinho.
-
O Juarez viu que zona isso aqui ta ficando, no
meu tempo ninguém falava neste tom com o chefe.
Pai e filho ficaram na redação alinhavando a edição extra.
-
Eu tenho tentado abrir os seus olhos, mas Ce parece enfeitiçado por essas duas,
elas fazem o que querem aqui...
-
Isso por que
você não fez o que eu pedi, Jornalismo, foi inventar essa idiotice de Comércio
Exterior.
-
Deu de sermão... O que Ce acha?
-
Tem rolo, dos grandes.
Os dois montaram
uma edição impecável, já incluindo fotos arquivadas, melhores momentos dela no
jornal, fragmentos de textos e editais
etc...E a manchete em garrafais letras : JORNALISTA DESAPARECE NO CARACOL.
Encontrado o corpo da
Jornalista...
A Jornalista Áurea Macedo estava
desaparecida desde o final da tarde de ontem, quando deixou a redação do
Jornal “A Serra” e de táxi se dirigiu
até a Cascata do Caracol, na cidade de
Canela, na Serra Gaúcha. A polícia investiga o caso, já que além de marcas de
fraturas indicando uma queda, foram encontradas também marcas que parecem de
espancamento, o laudo médico deverá sair no início da manhã. A jornalista tinha vinte e cinco anos, era editora chefe
do diário e cursava o mestrado na UFRGS em Porto Alegre. Áurea
deixou uma filha de um ano e meio, fruto do seu conturbado relacionamento com o
Jogador de Futebol Tiago Druck. Ele, que hoje joga no São Paulo, visitava a
família na cidade, o casal recentemente tinha sido alvo de escândalos, quando
uma revista da imprensa marrom teria anunciado o fim do relacionamento, devido
a distancia entre os dois.
A Serra vendeu mais do que
nunca naqueles dias, o pequeno Jornal diário, ganhou destaque nos principais
noticiários do país. Elizete escreveu uma matéria memorável sobre o assunto.
Vários textos ficaram no
imaginário da população, naqueles dias , como o da jornalista Ana, amiga íntima
de Áurea, que terminava assim: Áurea não morreu. Ela foi transportada para Vênus, o Planeta do
Amor...
Esquete
A história de Áurea caiu num longo período de
esquecimento, até que surgiu a idéia de
transforma-la em filme. Sua
filha Lua procurou o famoso diretor Marcos Gerald. Ele que já havia sido premiado duas vezes com o Kikito em Gramado, com melhor Roteiro e melhor
Direção, e depois passou a desenvolvendo
temas saturados e sem atrativo.
Lua havia
completado vinte e um anos, morava com os avós maternos, em Porto Alegre , o pai
há anos treinava times da Arábia Saudita, nunca mais retornando ao Brasil. Ela
achava que havia alguma coisa velada na história da mãe.
Inicialmente
o cinegrafista achou a idéia sem propósito, pois mexeria muito com as emoções
da menina, mas depois de pesquisar a história e ouvir atentamente as razões da
garota, que estava disposta a encontrar um produtor para o seu projeto, a qualquer custo,
resolveu aceitar. Desde que tivesse total autonomia, inclusive para revisar o
roteiro que lhe parecia fraco diante das possibilidades. Marcos viu no projeto
uma chance de voltar ao cenário nacional
Convidou o
cinegrafista Isaac Flermann para participar, começariam com um esquete, gravada
na Cascata do Caracol, marcos queria sentir o lugar.
-
Corta!
-
Não ficou legal?
-
Não, acho que só a primeira parte. Ficou muito longo
-
Sei...
-
Vamos ver se você consegue “realizar” o que eu
quero:
Um helicóptero sobrevoa a
serra, dá um mergulho no parque. Sobe enfocando a escadaria, a queda d’água de
baixo pra cima, simula o movimento de um caracol e finaliza com toda a força da
cachoeira, com o som direto de lá.No fundo só uma voz masculina (não vamos
esquecer que foi nos meados dos anos oitenta) entra seguida da música
característica de chamada especial da época e narra em tom apocalíptico foi
encontrado o corpo da jornalista... Pausa silencio Tchaikovsky e a imagem no
fundo da cascata: o corpo nu, enfoque no filete de sangue seco no canto da
boca... dá pra entender.
-
A erva é da boa.
-
Mais ou
menos...o clima é esse, mistério, sensualidade, medo, beleza, drogas é outra
coisa que dá pra imaginar. Mais uma coisa, um pingo, na pedra, depois de
todo o estrondo da cachoeira só um pingo caindo em uma pedra perto do corpo.
Entra uma imagem dela viva sorrindo, dançando no parque.
-
Não sei, meio New Age?
-
Anos oitenta, achou cafona?
-
Na real? Acho que fica difícil de resgatar o curso da investigação,
a abertura esta boa. Mas eu faria a clássica tela preta, ou branca, e começaria
a contar a história do ponto exato em que ela se despede da Elizete.
-
É uma, mas o
clima tem que ser de suspense.
-
Vai querer guardar a esquete?
-
Sim, foca bem a escadaria, as sombras, a trilha, eu
quero discutir o roteiro.Tem tudo para ser um grande filme, só que ta carregado
de censura, de não me toques que não combinam com a história, achei o
fim morno.
-
De quem é?
-
È baseado no texto da Elizete e da Ana, mas foi roteirizado
pelo Franco.
-
Po! O cara escreve bem pra caramba.
-
Eu sei, mas ta muito congelado, nos conceitos
moralistas da época, esse fim “ufólogo”, não tem muito a ver.
-
Vênus o planeta do amor...vai vender pacas...
-
Será? Já são seis e meia vamos subir, o parque fecha às
sete.Ta aí uma coisa, como ninguém percebeu que ela tinha ficado no parque?
-
Naquele tempo não tinha o parque, o acesso era livre.
Não tinha portaria, ingresso.
-
Tem certeza?
-
Claro, eu vinha aqui nas excursões de escola.
-
Eu queria subir sem barulho, para sentir o lugar, pode
ser?
-
Papo boiola... .Vai na frente.
-
Mas tu é mala... heim vai pegando os detalhes.
-
Marcos ouviu?
-
Ouvi, parece um felino...Tadeu que foi isso?
-
Deve ser uma Jaguatirica, ou um gato do mato.Temos que
cair fora é contra as normas do parque
ficar aqui, como virou uma reserva tem muitos bichos, fora que daqui a
pouco o sol cai e o frio fica insuportável.
-
Por nós vamos indo, Isaac filma a queda, pegando a luz
do crepúsculo.
-
Luz do crepúsculo...Não viaja meu.
A subida foi
bastante demorada, Marcos, Isaac e Tadeu ( o guia ) percorreram todo o caminho em absoluto
silêncio, os sons da mata, o frio, a falta da luz do sol, o aroma de aragem,
tudo foi impregnando em suas mentes.
Imaginar que
há vinte anos atrás a jovem jornalista estava ali, diante da queda d’água, nua,
preste a encontrar o seu momento derradeiro.
O que teria
acontecido?
Ecos da
América
Foi bem
aqui, há vinte anos Áurea se livrou de Elizete, pegou um táxi e foi ao local
marcado para o encontro. Estava ansiosa para reencontrá-lo. Não fazia mais
sentido continuar com encontros às escondidas, com meias verdades.
Chegou no
Caracol antes dele, se dirigiu à escadaria, com toda a documentação, queria
finalizar o assunto, publicar sua matéria. Tinha suado muito por aquela
história, sabia que estava entrando num terreno perigoso, mas se achava segura
devido à veracidade dos fatos.
Às seis
horas em ponto o “diplomata” estacionou na entrada do acesso a cascata, um
homem desceu, pediu ao motorista que aguardasse, dirigiu-se a escadaria. Usava
um terno escuro, sapatos pretos, camisa clara,uma echarpe branca contornando o
pescoço.Nada combinando com o local. Mas
como a área era muito visitada por turistas e empresários, não chegou a chamara
a atenção.
Áurea usava
calças jeans, uma bata estilo Hippie e
sapatos mocassim. Ela estranhou a roupa formal que o Sr. Bartz estava usando, não costumava andar assim,
Áurea cumprimentou-o com uma alegria quase infantil:
- Oi,
como vai?
- Bem, por que você marcou aqui?
- Não quero
que ninguém interfira nesta história, é uma verdadeira “bomba”. Você vai
adorar, é uma revelação e tanto, eu tenho tudo aqui.
- Tem cópia
em algum lugar?
- Não, como eu falei ninguém sabe disso, a
única testemunha, o cara que me passou
todos os dados foi encontrado morto, no parque Saint Hilaire , em Porto Alegre. Dois
dias depois de me procurar no DCE da UFRGS, ele me contou tudo, como achei a
história muito fantasiosa resolvi investigar e tudo indica que é verdade:
Existe um cemitério clandestino, nos fundos da
Gruta da Glória, onde os militares
sepultaram centenas de vítimas do período da Ditadura Militar.
- Áurea você
tem noção das implicações de uma matéria como esta? Em pleno processo de
abertura?
- Mas alguém
vai descobrir? Essas histórias têm que ser recontadas.
- O que de
concreto você descobriu?
- Eu tenho
um Dossiê, elaborado por ele.
- “Ele”,
quem?
- O
zelador que cuidava da Gruta na época.
Olha aqui, fotos dos militares carregando “pacotes”, cavando valas, jeeps, fuzis,
tudo está retratado, datas dos “enterros” . Nomes, ele fotografava os
uniformes, tudo de uma pequena janela, do interior da capela. O Lugar foi usado
por muitos anos, por muitos militares diferentes. A pior é essa: um homem
encapuzado é espancado com um pedaço de cano, tem várias cenas, uma atrás da
outra...olha essa em que o milico está pisando na cabeça do sujeito...olha o
nome no uniforme: Pereira é visível.
- Onde você
encontrou isso?
- No lugar
onde o cara me informou, um depósito nos fundos da capela.
- Só um
pouquinho, você nem parece uma jornalista, o teu informante que foi encontrado
morto ontem é o mesmo zelador da
capela, é isso?
- Claro o
Miguel.
- Eu li na Zero Hora , foi largado no Parque Saint
Hilaire.
- Isso, eu
venho trabalhando feito louca nesta
matéria, quando eu soube que ele tinha morrido fui lá e peguei tudo o material
é demais, não vejo a hora de publicar?
- No meu
jornal é que não vai ser, nem por brincadeira eu vou entrar nisso.E acho que
você já está envolvida demais. Esse é um assunto que não interessa a mais
ninguém.
- Eu vou
publicar. Se não for no A Serra , vai ser através do periódico do DCE.
- Guarda
isso, tem uma reunião daqui a pouco, eu vou voltar pro jornal, não quero, sob
hipótese alguma, que você comente que eu estive aqui ou que sabia disso.
- Bartz, se
tu não me deres apoio eu vou lagar o Jornal.
- A decisão
é sua, isso tudo é sério de mais para ser tratado de uma forma tão leviana.
- Como
leviana?
- Áurea
nunca te passou pela cabeça que pode ser tudo uma armação?
- Eu
pesquisei, tenho fontes, não é uma denuncia vazia.
- Me dá
cinco minutos não quero que ninguém me veja contigo.
Ele sai pisando firme tinha apenas quinze minutos
para estar na reunião, entra no carro e informa a um outro passageiro que “ela”
está com todo o material e que tem certeza de que não existe nenhuma cópia.
O homem
desce e se dirige ao encontro de Áurea. Quando ela enxerga o vulto se
aproximando corre em direção as escadarias, mas não consegue escapar, o homem
puxa sua blusa e seus cabelos e lhe aplica dois golpes no rosto, um fio de
sangue corre no canto de sua boca, ela cai já sem vida. O homem retira suas roupas
e lhe atira na cachoeira, simulando o que seria um suicídio, guarda tudo em um
saco e desaparece. O triste fim de Áurea chegava assim, sem alegorias, sem
tempo para grande sofrimento, sem surpresa.
O filme.
Naquela
noite a mente de Marcos foi invadida.
Ele tinha acabado de adormecer, sentiu o cheiro da morte da jornalista, um
enorme felino tigrado corria ao encontro
dele, pulava na sua direção e cravava as presas em sua pele. Acordou assustado,
banhado em suor, foi até o banheiro lavou o rosto, se olhou no espelho. Nunca
uma história tinha lhe causado aquela sensação.
No sonho
parecia que o animal ia lhe matar de uma forma violenta e rápida, ele se
aproximava por trás, sorrateiro, corria na sua direção e o atacava sem chances
de defesa. Ele chegou a sentir um gosto de sangue na boca, o cheiro de suor,
urina, sei lá um odor forte, como uma
adrenalina. Apesar de ser cético
sentiu uma intuição, como um aviso.
Abriu uma
cerveja gelada, não conseguia relaxar, colocou o esquete a rodar, as imagens eram
brutas, mas revelavam uma solidão, uma realidade estranha para alguém que
sempre viveu rodeado de gente, cimento, eletricidade.
Parou no
momento em que ele e Isaac tinham ouvido o barulho de um felino, aumentou o som e mesmo assim não
conseguia identificar nada. Achou estranho que o equipamento não tivesse
registrado nada, o rugido foi alto e claro. Passou lentamente o filme, várias
vezes e nada.
Só apareciam
as vozes deles, o som da cascata e alguns pássaros, um grito bem fino e agudo
sobressaia em meio aos outros sons, parecia o pio de uma ave de rapina.
Sentiu um
arrepio na espinha, os pelos de seus braços ficaram eriçados, viu entre as
folhas de um arbusto, os olhos do felino fitando fixamente a câmera. Seus
lábios se moviam deixando os dentes amarelos à mostra, como se fosse atacar.
Mas estranhamente não havia o som correspondente, nem chiado, nem rugido, nem
ronronar.
A
Jaguatirica parecia ter o tamanho de um cão pastor, seu pelo era dourado, com
manchas pretas bem definidas,uma mascara negra desenhada em torno dos
olhos amarelos e um contorno de manchas brancas, que
pareciam ter sido traçadas a mão. Ela ou ele olhava fixamente para a câmera e saia silenciosamente, subindo a
mata na mesma direção que eles, como se estivesse observando-os, suas costas eram pintas de
forma uniforme, em perfeita harmonia, a
calda era forte e longa.
Marcos não
entendeu como não haviam percebido a presença daquele animal imponente.
Chamou Isaac
que acordou assustado no meio da noite, olho para Marcos sem entender o que ele queria, o rapaz dormia
profundamente:
-
Oh! Maluco, assim você me mata de susto, eu tava
sonhando que uma onça pintada estava em cima de mim...
-
Olha aqui?
-
O que?
-
Olha?
-
A Onça que eu
falei, do meu sonho.
-
Não é onça é uma jaguatirica.
-
Como você sabe?
-
Pesquisei, na Internet, é o maior gato do mato do
Brasil, quase em extinção.
-
Eu vou passar de novo e você vai me dizer o que está errado. Ok?
-
O som.
-
Isso. Onde foi parar o grunhido que nós ouvimos?
-
Não sei, mas se a câmera registrou os outros sons tinha que ter gravado este também.
-
Tem mais uma coisa, esse grito de ave de rapina, eu não
lembro de ter ouvido.
-
Nem eu...to fora, eu não vou mais lá, esse negócio está
ficando muito louco pra minha cabeça.
-
É como um eco.
Issac repassa a fita em
velocidade mínima e a sombra da jaguatirica parece percorrer todo o filme,
desde o momento em que eles a focaram, na base do precipício até a chegada ao
topo. O animal parece tê-los acompanhado
como um observador.
Os dois beberam até o
amanhecer, para tentar disfarçar o medo que sentiam, no final, com o sol
raiando já brincavam e riam de suas reações, frente ao fato desconhecido.
-
Achei um título muito bom.
-
Qual?
-
Ecos da América.
-
Nada a ver, parece coisa de caça as bruxas.
-
A Jaguatirica e o Condor.
-
Por que condor?
-
O Grito, não lembra o de um condor? O maior pássaro da
América.
...
Yo no creo en brujas, pero que las hay, las
hay!!!
...brasileiro torturado durante o regime militar do
Uruguay...regressa ao Brasil....Jean Paul dentista acusado de subversão,
encontrado morto...as Mães da Praça de Maio...o General Pinochet do Chile
acusado... Ele que foi testemunha do assassinato do Médico russo...preso por
anos na cidade de Santiago... Declaração Universal dos Direitos Humanos a corte marcial...na Argentina foi descoberta
mais uma vala comum...instaurado inquérito sobre o desaparecimento da filha do
poeta...Militares libertam o brasileiro torturado...nada ficou comprovado...a
Cruz Vermelha emitiu laudo comprovando...O seqüestro do diplomata...Tupamaro...
o Padre polonês havia sido...Morreu a última testemunha.O Condor voa sobre o
sul da América. Para fazer justiça aos que morreram e para punir aqueles que
usaram seu nome....As pesadas patas do felino não deixavam marcas nenhuma de
sua presença ali...O Biólogo garante que não havia marcas da presença do
animal...ações antes identificadas como sendo...MR-8.
-
Corta!
O Filme
abordou a história da Jornalista Áurea Macedo como uma “viagem” ao mundo New
Age. Em nenhum momento foi citado nem
a presença da jaguatirica, nem o pio do condor, mas a verdade está lá na
queda d’água adormecida.
Bateu
recordes de bilheteria, sendo Áurea representada por Lua, que vestiu a história
de sua mãe com maestria.
No filme
Áurea se despedia de Elizete e seguia de táxi para a Cascata do Caracol, para
encontrar um grande amor, sua figura ficava iluminada e ela fazia um longo
passeio pelo interior da mata. Apresentando ao público os tesouros que a
natureza revelava, dançavam entre
duendes e outros seres mágicos, colhiam cogumelos saborosos e no final uma Luz
esverdeada atraia seu corpo para o imenso céu azul, seu sorriso ficava no ar.
Amanhecia e as gotas de orvalho eram coloridas pelas cores do arco íris.
Serviu para
que Lua inventasse um fim mágico para
ela.
As luzes,os
cogumelos, a mata, a mágica, a beleza de Lua, acompanhada de uma trilha sonora
inigualável, renderam muitos produtos, desde CD, DVD, Bonecas, Lanches,
Camisetas...
E é claro :3
Kikitos de Ouro:
Melhor
roteiro, melhor direção e melhor trilha sonora.
II Parte
Os Ecos
Era
Medieval da América Latina.
Já os Ecos
da América se levantam de tempos em tempos para contar os fatos ocorridos
naquela época de escuridão e medo:
A Operação
Condor consistia em uma grande rede de inteligência, financiada e idealizada
pelos EUA com o objetivo de extinguir as guerrilhas de esquerda na América
Latina e manter todo o continente no Bloco Capitalista durante a Guerra Fria.
Também chamado de Plano Condor era uma aliança entre as ditaduras da Argentina,
Brasil, Chile, Uruguai, Bolívia e Paraguai. Incluía troca de informações e de
prisioneiros, aniquilação de opositores dos regimes, treinamento de soldados
etc... Até hoje documentos, sítios arqueológicos, testemunhas, tudo vem sendo
acobertado e eliminado.
Os relatos
dos presos políticos, torturados e
caçados, mantém uma uniformidade que se
atribui à doutrina da Operação que “ensinava” métodos de tortura físicas e
psicológicas, o que faz com que todas as histórias pareçam uma só.
Uma lenda conta que há muitos e muitos anos
atrás um Condor caiu no pátio da Casa
das Virgens do Sol. Ele assumiu a forma humana, vestia um terno escuro, uma
camisa clara e uma Echarpe branca, a
imagem sedutora atraiu muitas moças ao seu ninho, que só então descobriam o
engano, elas eram devoradas e o povo dos Andes atribuía a esta lenda o prenuncio do fim do Império
Inca.
O Condor,
Soberano, vigia a América.
A
jaguatirica, com seu olhar, aguarda
pacientemente:
O Fim de
mais um império.
O Novo
Império
-
O Novo Império.
-
Para levar ou consumir aqui?
-
Para consumir aqui. Quanto custa?
-
½ dia.
-
È obrigatório?
-
Depende, onde o senhor cumpre a sua jornada?
-
Z.14.
-
Z.14- Obrigatório.
-
É a mesma história pra todo mundo?
-
Certamente. Essa é sua
senha, digite na tela e assim será emitido o seu comprovante.
O filme que você está
assistindo foi produzido pela O.M.C. (Organização Mundial do Comércio).
-
Boa tarde. Pronto para iniciar a sessão?
-
Sim.
-
Ótimo, vejo em sua ficha que os seus dias são muito
produtivos, você pretende constituir
família?
-
No momento não. Eu vim assistir ao Novo Império.
-
No N.I. o Cidadão é
quem mais importa. Este é um filme interativo. O que você prefere:
continuar interativo ou receber o filme pronto?
-
Receber pronto.
-
Você tem vontade de votar nas próximas eleições?
-
Sou obrigado a responder?
-
Não, existe um filme par “sim”, um filme para “não”. Ou
o senhor pode assistir aos dois.
-
Demora muito.
-
Dez minutos.
-
Vou optar pelo “não”.
-
Obrigada, não esqueça de preencher a ficha de
avaliação. Um bom filme.
A Bela
imagem feminina desaparece, as luzes se tornam mais claras, a cadeira de
Germano reclina quase na posição horizontal, seu refrigerante favorito é
servido acompanhado de pipocas e uma barra de chocolate. O filme é projetado em
uma tela individual.
Inicialmente
são apresentadas imagens do mundo antes da instalação do N.I., uma voz
masculina narra os fatos que mais assombraram a terra, os tempos de guerra,
torturas, fome, destruição, geradas por paixões humanas como Deus, Território,
Dinheiro e Poder.
Depois é
mostrado o período de transição, no qual a natureza volta a dominar o homem,
fruto dos erros no manejo biológico dos períodos anteriores.
Só então a
retomada do controle do homem sobre a natureza, com o completo domínio do
clima, da produção de mantimentos e do ar.
Entra a
imagem feminina novamente e passa a declinar sobre a importância do indivíduo
para a sociedade, a perfeição do Novo
Império e o conceito fundamental da Liberdade de Escolha.
São Direitos
do Cidadão:
I - Votar e ser votado aos cargos eletivos.
II Trabalhar
para adquirir seu sustento. Não trabalhar desde que tenha rendimentos
familiares suficientes para manter-se. Ser remunerado pela jornada que
solicitar.
III Atingir
a qualificação que quiser.
São deveres
do cidadão:
I Ter a instrução mínima de 6 graus.(Domínio
completo da escrita, matemática básica, física básica, filosofia básica,
história básica e Biologia Avançada)
II Elaborar um projeto de metas individuais,
dentro das possibilidades que atingiu.
III Pagar o
tributo a O M. C., compatível com o seu
grau de instrução.
O lema da
OMC encerava a sessão:
Seja feliz!
Germano
preencheu a ficha de avaliação com todos os pontos positivos.
Leve e
satisfeito resolveu passar dois dias no sul da América.
Colônia
do Caracol.
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Por que você morreria nos dias de hoje?
O traíra.
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Eu preciso muito falar sobre uma coisa que tem me angustiado, só não sei como. Se eu
te contar é certo que tu não conta pra ninguém?
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Tudo o que é dito no consultório fica entre médico e paciente.
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É uma coisa horrível. Eu posso ser preso, inclusive.
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Sei.
-
É sobre a Áurea, eu venho mentido, eu entreguei ela
para um cara.
-
Um cara?
-
Não importa, ela estava envolvida numa
reportagem comprometedora para um Pessoal, e esse cara é meu amigo desde
pequeno, o grupo dele descobriu sobre a reportagem e ele me procurou, pediu
para que eu conseguisse todo o material dela e marcasse um encontro, no qual
eles iriam dar um susto nela, em troca eles iriam me conceder uns
contratos muito bons. Além disso, ela estava grávida e tinha dito que o filho era meu, isso podia
acabar com a minha vida.
Só que
agora eu tenho sonhado com uma Jaguatirica e um Condor, todas as noites, eles
vem correndo e me atacam.
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O que você sentiu, na hora?
-
Que hora?
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Na hora que entregou ela.
-
No fundo eu não sabia que eles iam matar ela, por que um
susto pode significar muita coisa, achei que iam dar uma surra, ou sei lá
fazer um tipo de ameaça. Eu tinha tesão por ela, só mais nada. Me senti um
monstro. Entrei no caro, o meu amigo saiu, dois minutos depois voltou e disse
que estava tudo resolvido, fui pra redação, fiquei esperando com todo mundo, me
fingi de indignado, ajudei nas buscas. Mas na hora em que o Corpo de Bombeiros
achou o corpo, que eu desci a escadaria e “vi” me deu uma dor muito forte, eu
sai vomitando, correndo, o que alias limpou muito a minha barra, a minha reação
foi de profundo espanto. De raiva daquela vagabunda, do que podia me acontecer,
por sorte os caras são profissionais, a gravidez não constou no exame do
legista, em um mês estava encerrado, como suicídio. Só que eu fique com medo
dele.
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Ele?
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Deus.
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Tempo esgotado.
O Algoz
-
Missão cumprida.
-
Muito bem, foi um serviço limpo, parabéns. Como você se
sentiu?
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Covarde.
-
Covarde?
-
Uma coisa são esses “comunas” sujos, traidores da
pátria, esses “vermelhos”. Outra é uma moça, que só tava fazendo o trabalho
dela, sem saber direito o que fazia. Tão bonita, ficou apavorada quando me viu,
tentou fugir, sorte que era fraca e caiu com dois socos, acho que já caiu
morta.
-
Não era “comuna” ainda, esse pessoal é muito
persuasivo, em pouco tempo ela estaria no topo do sucesso, uma aproveitadora.
Não podemos nos deixar enganar pelas aparências. Por que você tirou as roupas
dela?
-
Por que ela fugiu e eu segurei pela blusa, só que
rasgou e caíram gotas de sangue, para não comprometer a perícia eu tirei tudo,
antes de jogar. Faço um relatório?
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Não, os tempos estão mudando, nada de relatório. Tire
uma semana de folga.
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Sim, senhor.
-
Dispensado.
-
Obrigado, senhor.
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Entregue este documento ao sair.
Mensagem
Sigilosa: Queimem o Arquivo
Miguel o
Arcanjo.
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O Miguel está morto, todo o material sumiu.
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E o filho?
-
Não sabe de nada, você já pagou o cara?
-
Não, o Miguel tinha desconfiado e escondeu dele. Ele
disse que queria para queimar.
-
E a Capela?
-
Não tinha nada, reviramos tudo, a única pista que
agente encontrou foi uma pasta dele, com vários recortes de uma jornalista:
Áurea Macedo. Conhece?
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Sei , Hippe,
mas bem posicionada, acho que pelos textos dela é de esquerda.
-
De repente ele passou alguma coisa pra ela.
-
Ela trabalha no DCE da Ufrgs e num jornal na
serra. Quer que eu faça contato?
-
Tem que ter cuidado, esse pessoal da imprensa é
fogo, ela pode ganhar uma bolada com uma história assim.
-
Mas não dá para esperar e acabar sabendo de tudo
através dum jornaleco. Isso se os “milico” não colocarem as mãos antes de nós,
por que se eliminaram o Miguel é por que vazou.
-
O Miguel jamais deixaria essa história acabar na
mão desses “porcos”, desses liberais filhos da puta, desses “nazi”. Nem
o filho dele, só se ele estava negociando com os caras também. O Miguel era da
causa , mas aquele verme.
-
Ou foi um dos nossos.
-
Tenta falar com ela, mas não diretamente.
-
Liguem a televisão.
-
Que foi? Liguem!
Encontrado o corpo...a
Jornalista Áurea Macedo estava
desaparecida desde o final da tarde de ontem, quando deixou a redação do
Jornal “A Serra...
-
Puta
que o pariu!
-
E
agora?
-
Tinha
cópia?
-
Não.
-
Como?
-
O
Miguel nunca deixou ninguém fazer.
-
E vocês
aceitaram?
-
Mas tem
o cemitério?
-
E os
“porco” não iam limpar a área?
-
Primeiro
vamos acabar com a raça do traidor, o verme do filho dele, e depois correr
atrás, tem que tentar ligar as mortes, achar alguém que tenha visto eles
juntos, vasculhar a redação do jornal.
-
O
pessoal da serra me ligou, a polícia já rastreou tudo. Ta tudo lacrado.Tem um
dos nossos lá, mas tem muita gente deles. Até o legista.
-
Vai dar
suicídio na cabeça.
A voz de
Áurea.
Àurea
Macedo, brasileira, jornalista, solteira...
O que mais
me doeu foi deixar Lua sozinha, eu acho que os meus pais fizeram um bom
trabalho, mas uma criança nunca deveria perder a mãe tão cedo. Nem uma mãe
deveria perder um filho. Acho que esta deveria ser uma relação “sagrada”.
Com relação
à história, o fato e seus ecos, como estão sendo chamadas estas conexões. Achei
uma idéia legal.
Na real se
dependesse de mim eu prefiro o devaneio que o Marcos adotou no filme, se eu
pudesse ter morrido daquele jeito, para mim teria sido mais dentro do que eu
sou.
O que me
moveu?
Acho que foi
a Matéria em si, o fato de ter a notícia nas mãos, poder trazer a tona, ter
domínio sobre uma questão tão precária. Acho que poderia sintetizar como uma palavra: vaidade.
Poder? Não
sei, claro que eu sabia que estava manipulando com uma questão de poder, mas eu
não almejava o poder. O poder, as manipulações, as guerras de interesses são
partes do homem. Variam as desculpas, mas basicamente a sociedade feita de
homens é uma sociedade de disputas, de hierarquias, de exclusão.
Logo que meu
corpo caiu no fundo da cascata eu fiquei aterrorizada, fiquei confusa,
anoiteceu, os animais da mata começaram a se aproximar, primeiro foi a
jaguatirica, ela veio cheirou o corpo e olhou para mim, ela me via, achei que
fosse me devorar. Comecei a achar que tudo não passava de um sonho, ela sentou
ao lado do corpo e me fitando nos olhos
contou tudo, que ela era do lado de cá. Que havia uma luta de poder e
que em breve o condor ia chegar, para buscar a carniça.
O nome dele
vinha sendo usado por um dos lados, indevidamente, mas ele estava colecionando
os mortos e ela tinha que guardar por um tempo, para que o condor não sumisse
com tudo.
Ela foi
muito legal, me libertou, com muita rapidez. Eu assisti a tudo, como
observadora, a reunião, o teatro do Bartz fingindo espanto, a reunião dos
Comunistas e a dos Militares. O sofrimento dos meus pais, do Tiago, da
Elizete...o meu funeral.
Depois
vaguei, em casas destruídas, com seres nojentos me assombrando.
Minhas
roupas foram ficando rasgadas, meu cabelo endureceu, vi muitas mortes, muita
gente chegando aqui. Às vezes eu ia até lá ver a Lua, mas aos poucos fiquei
presa, fui perdendo as lembranças, soube do fim do capitalismo, da formação do
Novo Império.Vi o filme. O dia que a Lua acendeu, já velhinha, mas ela não me viu.
Tenho estado
ai, sem saber bem porque, qual o grande pecado que eu estou pagando.
Voltar?
Germano,
técnico da Colônia Z-14. Eu?
III Parte
O grito.
Liberdade!
Liberdade...liberdade...liberdade...
Liberdade!
Liberdade...liberdade...liberdade...
Uma pequena
índia, do alto da serra gritou:
Liberdade!
Liberdade...erdade...dade...dade
O eco foi se
propagando e um pequeno índio dos Andes respondeu:
Liberdade!
Liberdade...li
...dade...
Foi tão alto
que chegou nas duas costas e atravessou os oceanos e se espalhou por todo o
mundo:
Liberdade!
Liberdade...berdade...dade...Li
E até hoje
os homens não sabem o que a indiazinha
quis dizer.
O
universo
Dizem as
bruxas que tudo o que é lançado no cosmos volta três vezes.
Ao desejamos a Guerra, recebemos três guerras de
volta.
Ao desejamos Paz, recebemos três “paz” de volta.
E assim por
diante.
Meu erro foi
desejar um único casaco de pele.
Pele de
jaguatirica. Recebi vestir três vidas de
Jaguatirica e vive o bicho, corre, amedronta, fere, mas tudo de coração limpo.
É pesada,
manhosa, insaciável, neste exato momento estou rolando no chão, com as patas
para cima, ronronando, com a barriga cheia...
Levar três
vidas assim...
Ninguém
merece.
El
Condor.
O Céu é meu.
Ou você
duvida?
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