Um texto perdido

Ecos da América.

Hoje encontrei um texto que achava que havia perdido, Ecos da América, não é um bom texto mas vou publicar, essa personagem Áurea, depois virou Linna Franco, quis dar a ela outro mundo,  inicialmente era pesado, depois fui mudando para infanto juvenil e ficou mais leve, só não salvei a cronologia dos textos quando o weblogger saiu do ar, eu fiz uma anarquia mas os textos existem no blog www.linnafranco.blogger.com.br .

Nem re li hoje os contos, mas vou publicar pois quando precisar encontro não tem data mas acho que e de 2006.


A redação.

Naquela tarde Áurea atendeu ao telefone na frente de Elizete. Falava em meias palavras, como se houvesse um grande complô sendo armado. Olhou-a aflita e dizendo as palavras de sempre, sumiu:
-         Tenho pouco tempo, eu preciso ir.
-         Mas não íamos juntas a reunião?
-         Eu tenho que dar uma voltinha, mas eu vou, com certeza, pode esperar...
O grupo se reuniu e foi inevitável a mesma pergunta
-         E a Áurea?
-         Deve estar chegando - Elizete respondeu  placidamente.
Elas conheciam-se há pouco tempo, mas aos poucos começavam a entender um pouco uma a outra. Elizete fazia as colunas sociais, cultura, lazer, eventos. Áurea como editora chefe fazia o fechamento do diário além de política, seleção de colunas, fotos, matérias principais etc.. e Bartz  na área comercial, mais os colaboradores Jonas e Laura. Sem falar do Sr. Juarez Bartz  (pai) que apesar de ter passado a direção jornalística do Jornal para Áurea e financeira para o Juarez Bartz (filho), mantinha uma supervisão acirrada.
Passou quase meia hora, o grupo discutia amenidades, falava sobre tudo, mas sem poder decidir nada, já que a editora não se encontrava. Nem um sinal, nem um telefonema, um  raio que caísse do Céu. 
-         Só o que eu posso dizer é que esta conduta é lamentável, Áurea escreve bem, tem bom senso crítico, tem visão jornalística, tem faro...Mas, não tem juízo. Se eu não posso contar com ela nem no fechamento da edição, quando vou poder contar?
-         Ela já deve estar chegando, deve ter acontecido alguma coisa.
Elizete tentava acalmar o chefe, sem sucesso. As decisões não podiam esperar. Capa, editorial, manchetes, obituários, anúncios, editais, notícias. Tudo pronto, autorizado, revisado. Já passavam  das nove horas, quando a reunião terminou.
Elizete estava desapontada com a amiga, tentava imaginar o que teria acontecido, imaginava ela chegando no outro dia com a cara deslavada, com uma desculpa qualquer na ponta da linha. Áurea não podia imaginar que  Bartz estaria lá. Ela correu o risco. Na certa imaginou que o grupo ia fazer o de sempre decidir pelo que ela tinha deixado alinhavado, corrigir alguma bobagem e tocar o barco.
Um sentimento forte invadiu o pensamento de Elizete: e se tivesse  acontecido alguma coisa?
Como uma assombração seu telefone tocou,  era Tiago o ex-marido de Áurea, perguntando por ela.
-         Não, ela não ta comigo. Não foi  na reunião, não ligou, acabamos decidindo tudo. Bartz  ficou “Puto” com ela...Foi lá pelas cinco, disse que tinha uns rolos para resolver, saiu, mas garantiu que não demorava.
-         -  Juarez o Tiago acabou de me ligar perguntando da Áurea...Sei lá, o que eu acho?Acho que “deu merda”. Não sei...
Elizete desligou o telefone sem saber o que fazer, o que pensar. Ficou estática,  na esquina da Júlio com a Felisberto Soares, um taxista parou perguntando se ela queria ir a algum lugar.
- Não sei, uma amiga minha está sumida, acho que eu vou voltar pro Jornal e tentar...
- A senhora ta falando da jornalista loira?
- Sim, a Áurea, você viu ela?
- Levei até o Caracol, lá pelas cinco e pouco...
- Quarta feira, que aquela doida foi fazer lá? Ela foi sozinha?
- Isso eu já não sei, deixei lá e voltei, por que ela sempre demora e nunca quer pagar a roleta parada...
- Ela costuma ir lá...
- Ela vive dum lado pro outro...
Elizete resolveu ligar novamente para o chefe, seu Feeling lhe dizia que tinha algo mais nesta história. Por que ela teria ido a Cascata do Caracol, numa tarde de trabalho, com uma reunião marcada? As informações não se encaixavam, não combinavam, o que mais estava preocupando Elizete era o olhar atônito de Áurea.
Aos poucos todos estavam na redação Tiago queria ligar para a polícia, considerando que já eram uma e meia, quase oito horas passadas da última notícia dela.
Bartz mandou começar uma investigação queria:  fotos do taxista, descrição da roupa que ela usava, local, horário...
- Eu não acredito   que você esteja pensando em transformar isso em notícia?
- Elizete, é notícia. Ou você pretende que todo mundo fique sabendo pelos Jornais da Capital.
- A gente não ta falando de um fato, estamos falando da Áurea.
- Deixa “os caras” trabalharem, se for notícia a gente inclui um extra, vai ser um estouro, antes das seis esta pronto e as sete esta nas bancas.
- O que o sumiço de editora chefe do Jornal A Serra? Ou as loucuras de Áurea...e se ela não tiver “desaparecido” só esteja por aí...
-         Fala Elizete, o que você sabe? Perguntou  Tiago.
-         Eu não sei de nada, não to pensando em nada, acho que transformar isso em comércio não é legal.
-         - Que comércio? _interpelou, Bartz.
- Ora, notícia assim...vende, não vende.
- Crise ética... por favor!
- Eu vou na D.P. registrar a ocorrência, vocês são todos loucos...Disse Tiago
- Calma. O Jonas e a Laura vão contigo.
- O que o senhor quer?
- Que vocês não percam um único detalhe...Certo? Estão levando: máquina fotográfica, papel, caneta, gravador?
- Levar Filmadora?
- Tem aí?
- Tem uma pequena, amadora, mas dá para fazer umas imagens boas.
- Leva, mas prioriza as fotos, que é o nosso negócio.
- Elizete, entrevista o taxista.
- Eu to fora, não conta comigo...Ela é minha amiga e não vou fazer parte desse Circo...essa hora...não tenho tanto sangue frio.
- Jornalista não bate ponto, se não quer participar vai pra casa, decretou o chefe.
Elizete estava atordoada, ela e os outros saem  juntos, deixando o chefe falando sozinho.
-         O Juarez viu que zona isso aqui ta ficando, no meu tempo ninguém falava neste tom com o chefe.
Pai e filho ficaram na redação alinhavando a edição extra.
-         Eu tenho tentado abrir os seus olhos, mas Ce parece enfeitiçado por essas duas, elas fazem o que querem aqui...
-          Isso por que você não fez o que eu pedi, Jornalismo, foi inventar essa idiotice de Comércio Exterior.
-         Deu de sermão... O que Ce  acha?
-         Tem rolo, dos grandes.
Os dois montaram uma edição impecável, já incluindo fotos arquivadas, melhores momentos dela no jornal, fragmentos de textos e editais  etc...E a manchete em garrafais letras :   JORNALISTA DESAPARECE NO CARACOL.







Encontrado o corpo da Jornalista...
A Jornalista Áurea Macedo estava desaparecida desde o final da tarde de ontem, quando deixou a redação do Jornal  “A Serra” e de táxi se dirigiu até a Cascata  do Caracol, na cidade de Canela, na Serra Gaúcha. A polícia investiga o caso, já que além de marcas de fraturas indicando uma queda, foram encontradas também marcas que parecem de espancamento, o laudo médico deverá sair no início da manhã. A jornalista  tinha vinte e cinco anos, era editora chefe do diário e  cursava o mestrado na UFRGS em Porto Alegre. Áurea deixou uma filha de um ano e meio, fruto do seu conturbado relacionamento com o Jogador de Futebol Tiago Druck. Ele, que hoje joga no São Paulo, visitava a família na cidade, o casal recentemente tinha sido alvo de escândalos, quando uma revista da imprensa marrom teria anunciado o fim do relacionamento, devido a distancia entre os dois.
    A Serra vendeu mais do que nunca naqueles dias, o pequeno Jornal diário, ganhou destaque nos principais noticiários do país. Elizete escreveu uma matéria memorável sobre o assunto.
Vários textos ficaram no imaginário da população, naqueles dias , como o da jornalista Ana, amiga íntima de Áurea, que terminava assim: Áurea não morreu.  Ela foi transportada para Vênus, o Planeta do Amor...






Esquete

A  história de Áurea caiu num longo período de esquecimento, até que surgiu  a idéia de transforma-la em filme. Sua filha Lua procurou o famoso diretor Marcos Gerald. Ele que  já havia sido premiado duas vezes com o  Kikito em Gramado, com melhor Roteiro e melhor Direção, e depois passou a  desenvolvendo temas saturados e sem atrativo.
Lua havia completado vinte e um anos, morava com os avós maternos, em Porto Alegre, o pai há anos treinava times da Arábia Saudita, nunca mais retornando ao Brasil. Ela achava que havia alguma coisa velada na história da mãe.
Inicialmente o cinegrafista achou a idéia sem propósito, pois mexeria muito com as emoções da menina, mas depois de pesquisar a história e ouvir atentamente as razões da garota, que estava disposta a encontrar um produtor  para o seu projeto, a qualquer custo, resolveu aceitar. Desde que tivesse total autonomia, inclusive para revisar o roteiro que lhe parecia fraco diante das possibilidades. Marcos viu no projeto uma chance de voltar ao cenário nacional
Convidou o cinegrafista Isaac Flermann para participar, começariam com um esquete, gravada na Cascata do Caracol, marcos queria sentir o lugar.
-         Corta!
-         Não ficou legal?
-         Não, acho que só a primeira parte. Ficou muito longo
-         Sei...
-         Vamos ver se você consegue “realizar” o que eu quero:
Um helicóptero sobrevoa a serra, dá um mergulho no parque. Sobe enfocando a escadaria, a queda d’água de baixo pra cima, simula o movimento de um caracol e finaliza com toda a força da cachoeira, com o som direto de lá.No fundo só uma voz masculina (não vamos esquecer que foi nos meados dos anos oitenta) entra seguida da música característica de chamada especial da época e narra em tom apocalíptico foi encontrado o corpo da jornalista... Pausa silencio Tchaikovsky  e a imagem no fundo da cascata: o corpo nu, enfoque no filete de sangue seco no canto da boca... dá pra entender.
-         A erva é da boa.
-          Mais ou menos...o clima é esse, mistério, sensualidade, medo, beleza, drogas é outra coisa que dá pra imaginar. Mais uma coisa, um pingo, na pedra, depois de todo o estrondo da cachoeira só um pingo caindo em uma pedra perto do corpo. Entra uma imagem dela viva sorrindo, dançando no parque.
-         Não sei, meio New Age?
-         Anos oitenta, achou cafona?
-         Na real? Acho que fica difícil de resgatar o curso da investigação, a abertura esta boa. Mas eu faria a clássica tela preta, ou branca, e começaria a contar a história do ponto exato em que ela se despede da Elizete.
-         É  uma, mas o clima tem que ser de suspense.
-         Vai querer guardar a esquete?
-         Sim, foca bem a escadaria, as sombras, a trilha, eu quero discutir o roteiro.Tem tudo para ser um grande filme, só que ta carregado de censura, de não me toques que não combinam com a história, achei o fim morno.
-         De quem é?
-         È baseado no texto da Elizete e da Ana, mas foi roteirizado pelo Franco.
-         Po! O cara escreve bem pra caramba.
-         Eu sei, mas ta muito congelado, nos conceitos moralistas da época, esse fim “ufólogo”, não tem muito a ver.
-         Vênus o planeta do amor...vai vender pacas...
-         Será? Já são seis e meia vamos subir, o parque fecha às sete.Ta aí uma coisa, como ninguém percebeu que ela tinha ficado no parque?
-         Naquele tempo não tinha o parque, o acesso era livre. Não tinha portaria, ingresso.
-         Tem certeza?
-         Claro, eu vinha aqui nas excursões de escola.
-         Eu queria subir sem barulho, para sentir o lugar, pode ser?
-         Papo boiola... .Vai na frente.
-         Mas tu é mala... heim vai pegando os detalhes.
-         Marcos ouviu?
-         Ouvi, parece um felino...Tadeu  que foi isso?
-         Deve ser uma Jaguatirica, ou um gato do mato.Temos que cair fora é contra as normas do parque  ficar aqui, como virou uma reserva tem muitos bichos, fora que daqui a pouco o sol cai e o frio fica insuportável.
-         Por nós vamos indo, Isaac filma a queda, pegando a luz do crepúsculo.
-         Luz do crepúsculo...Não viaja meu.
A subida foi bastante demorada, Marcos, Isaac e Tadeu ( o guia )  percorreram todo o caminho em absoluto silêncio, os sons da mata, o frio, a falta da luz do sol, o aroma de aragem, tudo foi impregnando em suas mentes.
Imaginar que há vinte anos atrás a jovem jornalista estava ali, diante da queda d’água, nua, preste a encontrar o seu momento derradeiro.
O que teria acontecido?























  
Ecos da América
Foi bem aqui, há vinte anos Áurea se livrou de Elizete, pegou um táxi e foi ao local marcado para o encontro. Estava ansiosa para reencontrá-lo. Não fazia mais sentido continuar com encontros às escondidas, com meias verdades.
Chegou no Caracol antes dele, se dirigiu à escadaria, com toda a documentação, queria finalizar o assunto, publicar sua matéria. Tinha suado muito por aquela história, sabia que estava entrando num terreno perigoso, mas se achava segura devido à veracidade dos fatos.
Às seis horas em ponto o “diplomata” estacionou na entrada do acesso a cascata, um homem desceu, pediu ao motorista que aguardasse, dirigiu-se a escadaria. Usava um terno escuro, sapatos pretos, camisa clara,uma echarpe branca contornando o pescoço.Nada combinando  com o local. Mas como a área era muito visitada por turistas e empresários, não chegou a chamara a atenção.
Áurea usava calças jeans, uma bata estilo Hippie e sapatos mocassim. Ela estranhou a roupa formal que o Sr. Bartz  estava usando, não costumava andar assim, Áurea cumprimentou-o com uma alegria quase infantil:
-  Oi,  como vai?
- Bem,  por que você marcou aqui?
- Não quero que ninguém interfira nesta história, é uma verdadeira “bomba”. Você vai adorar, é uma revelação e tanto, eu tenho tudo aqui.
- Tem cópia em algum lugar?
-  Não, como eu falei ninguém sabe disso, a única testemunha, o cara  que me passou todos os dados foi encontrado morto, no parque Saint Hilaire , em Porto Alegre. Dois dias depois de me procurar no DCE da UFRGS, ele me contou tudo, como achei a história muito fantasiosa resolvi investigar e tudo indica que é verdade: Existe um cemitério clandestino, nos fundos da  Gruta da Glória, onde os militares  sepultaram centenas de vítimas do período da Ditadura Militar.
- Áurea você tem noção das implicações de uma matéria como esta? Em pleno processo de abertura?
- Mas alguém vai descobrir? Essas histórias têm que ser recontadas.
- O que de concreto você descobriu?
- Eu tenho um Dossiê, elaborado por ele.
- “Ele”, quem?
- O zelador  que cuidava da Gruta na época. Olha aqui, fotos dos militares carregando “pacotes”, cavando valas, jeeps, fuzis, tudo está retratado, datas dos “enterros” . Nomes, ele fotografava os uniformes, tudo de uma pequena janela, do interior da capela. O Lugar foi usado por muitos anos, por muitos militares diferentes. A pior é essa: um homem encapuzado é espancado com um pedaço de cano, tem várias cenas, uma atrás da outra...olha essa em que o milico está pisando na cabeça do sujeito...olha o nome no uniforme: Pereira é visível.
- Onde você encontrou isso?
- No lugar onde o cara me informou, um depósito nos fundos da capela.
- Só um pouquinho, você nem parece uma jornalista, o teu informante que foi encontrado morto ontem  é o mesmo zelador da capela,  é isso?
- Claro o Miguel.
- Eu  li na Zero Hora , foi largado no Parque Saint Hilaire.
- Isso, eu venho trabalhando  feito louca nesta matéria, quando eu soube que ele tinha morrido fui lá e peguei tudo o material é demais, não vejo a hora de publicar?
- No meu jornal é que não vai ser, nem por brincadeira eu vou entrar nisso.E acho que você já está envolvida demais. Esse é um assunto que não interessa a mais ninguém.
- Eu vou publicar. Se não for no A Serra , vai ser através do periódico do  DCE.
- Guarda isso, tem uma reunião daqui a pouco, eu vou voltar pro jornal, não quero, sob hipótese alguma, que você comente que eu estive aqui ou que sabia disso.
- Bartz, se tu não me deres apoio eu vou lagar o Jornal.
- A decisão é sua, isso tudo é sério de mais para ser tratado de uma forma tão leviana.
- Como leviana?
- Áurea nunca te passou pela cabeça que pode ser tudo uma armação?
- Eu pesquisei, tenho fontes, não é uma denuncia vazia.
- Me dá cinco minutos não quero que ninguém me veja contigo.
Ele  sai pisando firme tinha apenas quinze minutos para estar na reunião, entra no carro e informa a um outro passageiro que “ela” está com todo o material e que tem certeza de que não existe nenhuma cópia.
O homem desce e se dirige ao encontro de Áurea. Quando ela enxerga o vulto se aproximando corre em direção as escadarias, mas não consegue escapar, o homem puxa sua blusa e seus cabelos e lhe aplica dois golpes no rosto, um fio de sangue corre no canto de sua boca, ela cai já sem vida. O homem retira suas roupas e lhe atira na cachoeira, simulando o que seria um suicídio, guarda tudo em um saco e desaparece. O triste fim de Áurea chegava assim, sem alegorias, sem tempo para grande sofrimento, sem surpresa.





O filme.

Naquela noite a mente de Marcos  foi invadida. Ele tinha acabado de adormecer, sentiu o cheiro da morte da jornalista, um enorme felino tigrado corria  ao encontro dele, pulava na sua direção e cravava as presas em sua pele. Acordou assustado, banhado em suor, foi até o banheiro lavou o rosto, se olhou no espelho. Nunca uma história tinha lhe causado aquela sensação.
No sonho parecia que o animal ia lhe matar de uma forma violenta e rápida, ele se aproximava por trás, sorrateiro, corria na sua direção e o atacava sem chances de defesa. Ele chegou a sentir um gosto de sangue na boca, o cheiro de suor, urina, sei lá um odor forte, como uma  adrenalina. Apesar de ser  cético sentiu uma intuição, como um aviso.
Abriu uma cerveja gelada, não conseguia relaxar, colocou o esquete a rodar, as imagens eram brutas, mas revelavam uma solidão, uma realidade estranha para alguém que sempre viveu rodeado de gente, cimento, eletricidade.
Parou no momento em que ele e Isaac tinham ouvido o barulho de um  felino, aumentou o som e mesmo assim não conseguia identificar nada. Achou estranho que o equipamento não tivesse registrado nada, o rugido foi alto e claro. Passou lentamente o filme, várias vezes e nada.
Só apareciam as vozes deles, o som da cascata e alguns pássaros, um grito bem fino e agudo sobressaia em meio aos outros sons, parecia o pio de uma ave de rapina.
Sentiu um arrepio na espinha, os pelos de seus braços ficaram eriçados, viu entre as folhas de um arbusto, os olhos do felino fitando fixamente a câmera. Seus lábios se moviam deixando os dentes amarelos à mostra, como se fosse atacar. Mas estranhamente não havia o som correspondente, nem chiado, nem rugido, nem ronronar.
A Jaguatirica parecia ter o tamanho de um cão pastor, seu pelo era dourado, com manchas pretas bem definidas,uma mascara negra desenhada em torno dos olhos  amarelos  e um contorno de manchas brancas, que pareciam ter sido traçadas a mão. Ela ou ele olhava fixamente para  a câmera e saia silenciosamente, subindo a mata na mesma direção que eles, como se estivesse  observando-os, suas costas eram pintas de forma uniforme, em  perfeita harmonia, a calda era forte e longa.
Marcos não entendeu como não haviam percebido a presença daquele animal imponente.
Chamou Isaac que acordou assustado no meio da noite, olho para Marcos  sem entender o que ele queria, o rapaz dormia profundamente:
-         Oh! Maluco, assim você me mata de susto, eu tava sonhando que uma onça pintada estava em cima de mim...
-         Olha aqui?
-         O que?
-         Olha?
-         A Onça que eu  falei, do meu sonho.
-         Não é onça é uma jaguatirica.
-         Como você sabe?
-         Pesquisei, na Internet, é o maior gato do mato do Brasil, quase em extinção.
-         Eu vou passar de novo e você  vai me dizer o que está errado. Ok?
-         O som.
-         Isso. Onde foi parar o grunhido que nós ouvimos?
-         Não sei, mas se a câmera registrou os outros sons  tinha que ter gravado   este também.
-         Tem mais uma coisa, esse grito de ave de rapina, eu não lembro de ter ouvido.
-         Nem eu...to fora, eu não vou mais lá, esse negócio está ficando muito louco pra minha cabeça.
-         É como um eco.
Issac repassa a fita em velocidade mínima e a sombra da jaguatirica parece percorrer todo o filme, desde o momento em que eles a focaram, na base do precipício até a chegada ao topo. O  animal parece tê-los acompanhado como um observador.
Os dois beberam até o amanhecer, para tentar disfarçar o medo que sentiam, no final, com o sol raiando já brincavam e riam de suas reações, frente ao fato desconhecido.
-         Achei um título muito bom.
-         Qual?
-         Ecos da América.
-         Nada a ver, parece coisa de caça as bruxas.
-         A Jaguatirica e o Condor.
-         Por que condor?
-         O Grito, não lembra o de um condor? O maior pássaro da América.
...





Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay!!!

...brasileiro  torturado durante o regime militar do Uruguay...regressa ao Brasil....Jean Paul dentista acusado de subversão, encontrado morto...as Mães da Praça de Maio...o General Pinochet do Chile acusado... Ele que foi testemunha do assassinato do Médico russo...preso por anos na cidade de Santiago... Declaração Universal dos Direitos Humanos  a corte marcial...na Argentina foi descoberta mais uma vala comum...instaurado inquérito sobre o desaparecimento da filha do poeta...Militares libertam o brasileiro torturado...nada ficou comprovado...a Cruz Vermelha emitiu laudo comprovando...O seqüestro do diplomata...Tupamaro... o Padre polonês havia sido...Morreu a última testemunha.O Condor voa sobre o sul da América. Para fazer justiça aos que morreram e para punir aqueles que usaram seu nome....As pesadas patas do felino não deixavam marcas nenhuma de sua presença ali...O Biólogo garante que não havia marcas da presença do animal...ações antes identificadas como sendo...MR-8.
-         Corta!
O Filme abordou a história da Jornalista Áurea Macedo como uma “viagem” ao mundo New Age. Em nenhum momento foi citado nem  a presença da jaguatirica, nem o pio do condor, mas a verdade está lá na queda d’água adormecida.
Bateu recordes de bilheteria, sendo Áurea representada por Lua, que vestiu a história de sua mãe com maestria.
No filme Áurea se despedia de Elizete e seguia de táxi para a Cascata do Caracol, para encontrar um grande amor, sua figura ficava iluminada e ela fazia um longo passeio pelo interior da mata. Apresentando ao público os tesouros que a natureza revelava, dançavam  entre duendes e outros seres mágicos, colhiam cogumelos saborosos e no final uma Luz esverdeada atraia seu corpo para o imenso céu azul, seu sorriso ficava no ar. Amanhecia e as gotas de orvalho eram coloridas pelas cores do arco íris.
Serviu para que Lua inventasse  um fim mágico para ela.
As luzes,os cogumelos, a mata, a mágica, a beleza de Lua, acompanhada de uma trilha sonora inigualável, renderam muitos produtos, desde CD, DVD, Bonecas, Lanches, Camisetas...
E é claro :3 Kikitos de Ouro:
Melhor roteiro, melhor direção e melhor trilha sonora.
























II Parte



Os Ecos









Era Medieval da América Latina.

Já os Ecos da América se levantam de tempos em tempos para contar os fatos ocorridos naquela época de escuridão e medo:
A Operação Condor consistia em uma grande rede de inteligência, financiada e idealizada pelos EUA com o objetivo de extinguir as guerrilhas de esquerda na América Latina e manter todo o continente no Bloco Capitalista durante a Guerra Fria. Também chamado de Plano Condor era uma aliança entre as ditaduras da Argentina, Brasil, Chile, Uruguai, Bolívia e Paraguai. Incluía troca de informações e de prisioneiros, aniquilação de opositores dos regimes, treinamento de soldados etc... Até hoje documentos, sítios arqueológicos, testemunhas, tudo vem sendo acobertado e eliminado.
Os relatos dos presos políticos,  torturados e caçados,  mantém uma uniformidade que se atribui à doutrina da Operação que “ensinava” métodos de tortura físicas e psicológicas, o que faz com que todas as histórias pareçam uma só.
 Uma lenda conta que há muitos e muitos anos atrás um  Condor caiu no pátio da Casa das Virgens do Sol. Ele assumiu a forma humana, vestia um terno escuro, uma camisa clara e  uma Echarpe branca, a imagem sedutora atraiu muitas moças ao seu ninho, que só então descobriam o engano, elas eram devoradas e o povo dos Andes atribuía  a esta lenda o prenuncio do fim do Império Inca.
O Condor, Soberano, vigia a América.
A jaguatirica, com seu olhar,  aguarda pacientemente:
O Fim de mais um império.


O Novo Império
-         O Novo Império.
-         Para levar ou consumir aqui?
-         Para consumir aqui. Quanto custa?
-         ½ dia.
-         È obrigatório?
-         Depende, onde o senhor cumpre a sua jornada?
-         Z.14.
-         Z.14- Obrigatório.
-         É a mesma história pra todo mundo?
-         Certamente. Essa é sua  senha, digite na tela e assim será emitido o seu comprovante.
O filme que você está assistindo foi produzido pela O.M.C. (Organização Mundial do Comércio). 
-         Boa tarde. Pronto para iniciar a sessão?
-         Sim.
-         Ótimo, vejo em sua ficha que os seus dias são muito produtivos, você  pretende constituir família?
-         No momento não. Eu vim assistir ao Novo Império.
-         No N.I. o Cidadão é  quem mais importa. Este é um filme interativo. O que você prefere: continuar interativo ou receber o filme pronto?
-         Receber pronto.
-         Você tem vontade de votar nas próximas eleições?
-         Sou obrigado a responder?
-         Não, existe um filme par “sim”, um filme para “não”. Ou o  senhor pode assistir aos dois.
-         Demora muito.
-         Dez minutos.
-         Vou optar pelo “não”.
-         Obrigada, não esqueça de preencher a ficha de avaliação. Um bom filme.
A Bela imagem feminina desaparece, as luzes se tornam mais claras, a cadeira de Germano reclina quase na posição horizontal, seu refrigerante favorito é servido acompanhado de pipocas e uma barra de chocolate. O filme é projetado em uma tela individual.
Inicialmente são apresentadas imagens do mundo antes da instalação do N.I., uma voz masculina narra os fatos que mais assombraram a terra, os tempos de guerra, torturas, fome, destruição, geradas por paixões humanas como Deus, Território, Dinheiro e Poder.
Depois é mostrado o período de transição, no qual a natureza volta a dominar o homem, fruto dos erros no manejo biológico dos períodos anteriores.
Só então a retomada do controle do homem sobre a natureza, com o completo domínio do clima, da produção de mantimentos e do ar.
Entra a imagem feminina novamente e passa a declinar sobre a importância do indivíduo para a sociedade, a  perfeição do Novo Império e o conceito fundamental da Liberdade de Escolha.
São Direitos do Cidadão:
I -  Votar e ser votado aos cargos eletivos.
II Trabalhar para adquirir seu sustento. Não trabalhar desde que tenha rendimentos familiares suficientes para manter-se. Ser remunerado pela jornada que solicitar.
III Atingir a qualificação que quiser.
São deveres do cidadão:
I  Ter a instrução mínima de 6 graus.(Domínio completo da escrita, matemática básica, física básica, filosofia básica, história básica e Biologia Avançada)
II  Elaborar um projeto de metas individuais, dentro das possibilidades que atingiu.
III Pagar o tributo a  O M. C., compatível com o seu grau de instrução.
O lema da OMC encerava a sessão:
 Seja feliz!
Germano preencheu a ficha de avaliação com todos os pontos positivos.
Leve e satisfeito resolveu passar dois dias no sul da América.
Colônia do Caracol.
-         Por que você morreria nos dias de hoje?













O traíra.

-         Eu preciso muito falar sobre uma coisa  que tem me angustiado, só não sei como. Se eu te contar é certo que tu não conta pra ninguém?
-         Tudo o que é dito no consultório fica  entre médico e paciente.
-         É uma coisa horrível. Eu posso ser preso, inclusive.
-         Sei.
-         É sobre a Áurea, eu venho mentido, eu entreguei ela para um cara.
-         Um cara?
-         Não importa, ela estava envolvida numa reportagem comprometedora para um Pessoal, e esse cara é meu amigo desde pequeno, o grupo dele descobriu sobre a reportagem e ele me procurou, pediu para que eu conseguisse todo o material dela e marcasse um encontro, no qual eles iriam dar um susto nela, em troca eles iriam me conceder uns contratos muito bons. Além disso, ela estava grávida  e tinha dito que o filho era meu, isso podia acabar com a minha vida.
Só que agora eu tenho sonhado com uma Jaguatirica e um Condor, todas as noites, eles vem correndo e me atacam.
-         O que você sentiu, na hora?
-         Que hora?
-         Na hora que entregou ela.
-         No fundo eu não sabia que eles iam matar ela, por que um susto pode significar muita coisa, achei que iam dar uma surra, ou sei lá fazer um tipo de ameaça. Eu tinha tesão por ela, só mais nada. Me senti um monstro. Entrei no caro, o meu amigo saiu, dois minutos depois voltou e disse que estava tudo resolvido, fui pra redação, fiquei esperando com todo mundo, me fingi de indignado, ajudei nas buscas. Mas na hora em que o Corpo de Bombeiros achou o corpo, que eu desci a escadaria e “vi” me deu uma dor muito forte, eu sai vomitando, correndo, o que alias limpou muito a minha barra, a minha reação foi de profundo espanto. De raiva daquela vagabunda, do que podia me acontecer, por sorte os caras são profissionais, a gravidez não constou no exame do legista, em um mês estava encerrado, como suicídio. Só que eu fique com medo dele.
-         Ele?
-         Deus.
-         Tempo esgotado.




     








O Algoz
-         Missão cumprida.
-         Muito bem, foi um serviço limpo, parabéns. Como você se sentiu?
-         Covarde.
-         Covarde?
-         Uma coisa são esses “comunas” sujos, traidores da pátria, esses “vermelhos”. Outra é uma moça, que só tava fazendo o trabalho dela, sem saber direito o que fazia. Tão bonita, ficou apavorada quando me viu, tentou fugir, sorte que era fraca e caiu com dois socos, acho que já caiu morta.
-         Não era “comuna” ainda, esse pessoal é muito persuasivo, em pouco tempo ela estaria no topo do sucesso, uma aproveitadora. Não podemos nos deixar enganar pelas aparências. Por que você tirou as roupas dela?
-         Por que ela fugiu e eu segurei pela blusa, só que rasgou e caíram gotas de sangue, para não comprometer a perícia eu tirei tudo, antes de jogar. Faço um relatório?
-         Não, os tempos estão mudando, nada de relatório. Tire uma semana de folga.
-         Sim, senhor.
-         Dispensado.
-         Obrigado, senhor.
-         Entregue este documento ao sair.
Mensagem Sigilosa:  Queimem o Arquivo



Miguel o Arcanjo.

-         O Miguel está morto, todo o material sumiu.
-         E o filho?
-         Não sabe de nada, você já pagou o cara?
-         Não, o Miguel tinha desconfiado e escondeu dele. Ele disse que queria para queimar.
-         E a Capela?
-         Não tinha nada, reviramos tudo, a única pista que agente encontrou foi uma pasta dele, com vários recortes de uma jornalista: Áurea Macedo. Conhece?
-         Sei ,  Hippe, mas bem posicionada, acho que pelos textos dela é de esquerda.
-         De repente ele passou alguma coisa pra ela.
-         Ela trabalha no DCE da Ufrgs e num jornal na serra. Quer que eu faça contato?
-         Tem que ter cuidado, esse pessoal da imprensa é fogo, ela pode ganhar uma bolada com uma história assim.
-         Mas não dá para esperar e acabar sabendo de tudo através dum jornaleco. Isso se os “milico” não colocarem as mãos antes de nós, por que se eliminaram o Miguel é por que vazou.
-         O Miguel jamais deixaria essa história acabar na mão desses “porcos”, desses liberais filhos da puta, desses “nazi”. Nem o filho dele, só se ele estava negociando com os caras também. O Miguel era da causa , mas aquele verme.
-         Ou foi um dos nossos.
-         Tenta falar com ela, mas não diretamente.
-         Liguem a televisão.
-         Que foi? Liguem!
Encontrado o corpo...a Jornalista Áurea Macedo estava desaparecida desde o final da tarde de ontem, quando deixou a redação do Jornal  “A Serra...
-         Puta que o pariu!
-         E agora?
-         Tinha cópia?
-         Não.
-         Como?
-         O Miguel nunca deixou ninguém fazer.
-         E vocês aceitaram?
-         Mas tem o cemitério?
-         E os “porco” não iam limpar a área?
-         Primeiro vamos acabar com a raça do traidor, o verme do filho dele, e depois correr atrás, tem que tentar ligar as mortes, achar alguém que tenha visto eles juntos, vasculhar a redação do jornal.
-         O pessoal da serra me ligou, a polícia já rastreou tudo. Ta tudo lacrado.Tem um dos nossos lá, mas tem muita gente deles. Até o legista.
-         Vai dar suicídio na cabeça.





A voz de Áurea.
Àurea Macedo, brasileira, jornalista, solteira...
O que mais me doeu foi deixar Lua sozinha, eu acho que os meus pais fizeram um bom trabalho, mas uma criança nunca deveria perder a mãe tão cedo. Nem uma mãe deveria perder um filho. Acho que esta deveria ser uma relação “sagrada”.
Com relação à história, o fato e seus ecos, como estão sendo chamadas estas conexões. Achei uma idéia legal.
Na real se dependesse de mim eu prefiro o devaneio que o Marcos adotou no filme, se eu pudesse ter morrido daquele jeito, para mim teria sido mais dentro do que eu sou.
O que me moveu?
Acho que foi a Matéria em si, o fato de ter a notícia nas mãos, poder trazer a tona, ter domínio sobre uma questão tão precária. Acho que poderia  sintetizar como uma palavra: vaidade.
Poder? Não sei, claro que eu sabia que estava manipulando com uma questão de poder, mas eu não almejava o poder. O poder, as manipulações, as guerras de interesses são partes do homem. Variam as desculpas, mas basicamente a sociedade feita de homens é uma sociedade de disputas, de hierarquias, de exclusão.
Logo que meu corpo caiu no fundo da cascata eu fiquei aterrorizada, fiquei confusa, anoiteceu, os animais da mata começaram a se aproximar, primeiro foi a jaguatirica, ela veio cheirou o corpo e olhou para mim, ela me via, achei que fosse me devorar. Comecei a achar que tudo não passava de um sonho, ela sentou ao lado do corpo e me fitando nos olhos  contou tudo, que ela era do lado de cá. Que havia uma luta de poder e que em breve o condor ia chegar, para buscar a carniça.
O nome dele vinha sendo usado por um dos lados, indevidamente, mas ele estava colecionando os mortos e ela tinha que guardar por um tempo, para que o condor não sumisse com tudo.
Ela foi muito legal, me libertou, com muita rapidez. Eu assisti a tudo, como observadora, a reunião, o teatro do Bartz fingindo espanto, a reunião dos Comunistas e a dos Militares. O sofrimento dos meus pais, do Tiago, da Elizete...o meu funeral.
Depois vaguei, em casas destruídas, com seres nojentos me assombrando.
Minhas roupas foram ficando rasgadas, meu cabelo endureceu, vi muitas mortes, muita gente chegando aqui. Às vezes eu ia até lá ver a Lua, mas aos poucos fiquei presa, fui perdendo as lembranças, soube do fim do capitalismo, da formação do Novo Império.Vi o filme. O dia que a Lua acendeu, já velhinha, mas ela não  me viu.
Tenho estado ai, sem saber bem porque, qual o grande pecado que eu estou pagando.
Voltar?
Germano, técnico da Colônia Z-14. Eu?






















III Parte

O grito.











Liberdade!

Liberdade...liberdade...liberdade...
Liberdade!
Liberdade...liberdade...liberdade...
Uma pequena índia, do alto da serra gritou:
Liberdade!
Liberdade...erdade...dade...dade
O eco foi se propagando e um pequeno índio dos Andes respondeu:
Liberdade!
Liberdade...li ...dade...
Foi tão alto que chegou nas duas costas e atravessou os oceanos e se espalhou por todo o mundo:
Liberdade!
Liberdade...berdade...dade...Li
E até hoje os homens não  sabem o que a indiazinha quis dizer.






O universo

Dizem as bruxas que tudo o que é lançado no cosmos volta três vezes.
Ao  desejamos a Guerra, recebemos três guerras de volta.
Ao  desejamos Paz, recebemos três “paz” de volta.
E assim por diante.
Meu erro foi desejar um único casaco de pele.
Pele de jaguatirica. Recebi vestir  três vidas de Jaguatirica e vive o bicho, corre, amedronta, fere, mas tudo de coração limpo.
É pesada, manhosa, insaciável, neste exato momento estou rolando no chão, com as patas para cima, ronronando, com a barriga cheia...
Levar três vidas assim...
Ninguém merece.













El Condor.

O Céu é meu.
Ou você duvida?









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