Poética em tempos sem graça
Não sei como é a poética de nosso tempo, ou do meu tempo,
porque eu não vivo no meu tempo, acho... É algo assim pegou a mina, ou as
cachorras na rave, a mina falou com o
porteiro, sobre o ratatata da noite. Foi um ratatata medonho. E ai todo mundo
foi pegar o ônibus e cada um desceu no seu ponto e tocou a vida. Livro ponto?
Tem ainda, mas o pessoal bate e some. Puristas? Sim a gente não pode escrever P
a agente tem eu escrever PQTP, é assim, não tem mas tem uma censura bem
diferente é estranho. Criança de 5 anos pode ler o teu poema, teu conto e aí
como fica se estiver muito sujo, a poesia suja da nova poética, sórdida, ao
alcance de qualquer criança é estranho. Um pingo de barro na roupa limpa da
sociedade, que está abismalmente separada, uns no muito sujo outros na profunda
esterilidade doentia, muita gente vive nas piores pocilgas outras nas frias salas que
lembram hospital.
Lirismo e libertação, lirismo é libertação e prisão.
A graça do nosso tempo é que há graça, mas é efêmera e
pasteurizada, tudo é o mesmo. Todo mundo ou segue a biblioteca vermelha, ou a biblioteca
globalizada. São dois pólos que se fundiram, na retórica continuam existindo, na
prática são uma só coisa. Há eloquentes discursos para a mídia e para a
intelectualidade ou nestes ambientes e uma libertação do povo destes dogmas, o
povo está se virando, como sempre se virou. Os encastelados divagam e o povo
coloca a mão na massa. Algumas vezes da certo, noutras desanda e aí o povo
começa de novo que para burro não serve. Morte corre solta no ratatata... Pergunto, não foi sempre assim? Vivemos uma guerra urbana e democrática porque
a crueldade pode atingir qualquer um, há sim locais e pessoas que correm maior
risco, mas ninguém está livre da guerra urbana. Isso assusta e estressa, somos
um povo estressado e assustado como bicho do mato, a selva é aqui. Mas tem
também o lado muito bom, tudo deu errado já, capitalismo, comunismo,
socialismo, globalização, blábláblá, então vai mudar pelo peso que a força da mudança tem.
O mundo virtual é feito a semelhança e imagem do real, a
ética e a moral do virtual estão refletindo a do real. O dinheiro é senhor dos dois mundos, como
sempre foi. O poder está disputadíssimo como sempre foi, é um rolo compressor,
vem triturando tudo e cheio de razões muito razoáveis.
A poética deste tempo é que ainda existimos, somos melhores
ou piores? Sei lá. A Terra é um lindo lugar para ser feliz ou infeliz, tudo
isso é conversa e as emoções por qualquer coisa são dopadas, a biodiversidade é
exuberante e onde cai um pinguinho só de água a vida brota, bela, verde,
amarela, por poucos minutos ou longos anos... O mundo é repleto de alimentos, mas
falta em muitos lugares e muita gente
passa fome pelo velho problema pré histórico da desigualdade entre os seres, os
poderosos mandam e desmandam e são cruéis, os mais fracos sofrem até que a coisa fica insuportável , quando se revoltam, até um
novo ciclo de desenvolvimento, abundância, regressão, revolta as vezes parece
que as coisas são artificiais, criadas para manter o movimento.
Estamos vivos repetindo padrões e modificando o meio, belo,
belo muito belo. Até o ratatata te pegar.
Fernanda Blaya Figueiró
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