Notinha sobre poesia.

Notinhas

Assisti fragmentos de um filme sobre Carlos Drummond e sua amizade por cartas com uma professora primária gaúcha. Vou tentar ver inteiro pois é muito interessante e bem produzido o filme, só que faltou luz aqui então não pude ver inteiro . Ele, mesmo um grande poeta já, era aberto aos leitores. Isso mudou muito, até porque hoje a comunicação é por rede, é pública, nada é entre pessoas, é entre muitas pessoas ,acho que isso é artificial. Pensei em fazer um conto com o assunto e ao abrir o livro de Florbela Espanca encontrei este lindo poema que mostra que sempre existiram leitores/escritores.
"E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos,todo o dia. " que lindo isso. Eu tenho para mim essa imagem de livros e poemas como bons amigos para conversar, melhor ainda os que já se foram pois assim não se ofendem com a simplicidade do leitor, ou uma interpretação medíocre de suas grandes obras. Meu conto não precisa ser escrito, olha com que economia Florbela me brindou. Tem uma excelente série no you tube sobre sua vida, bom para entender um pouco a atmosfera em que viveu.

Fernanda Blaya Figueiró



Torre de Névoa

Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: “Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu! ...”

Calaram-se os poetas, tristemente ...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu! ...

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"



Reler poetas é uma coisa maravilhosa, poucos são capazes de ser tão sensíveis como nosso Poeta Maior Mario Quintana, que por anos a fio orgulhou o povo gaúcho por sua poética limpa e inteligente. Não precisou sair do Pampa para se tornar eterno, o eterno poeta de Porto Alegre.
É bom começar o ano lendo bons poemas, o jornal está assustador... Perseguição e morte na manhã de domingo(é segunda, mas parece domingo) é difícil de digerir. Vamos abrir janelas, que os poemas andam muito sem ar.
Emergência
Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
Mario Quintana

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