Notinha sobre poema: então queres ser um escritor?

Notinha sobre poema: então queres ser um escritor?

Nunca antes havia lido um poema de Bukowski, só sabia de seus romances, mas esse poema diz tudo, é muito bom. A maioria dos poetas e escritores escreve assim, com uma força animadora, uma voz potente, claro que o trabalhar o texto, a palavra é importante e bom, cada um tem um ritmo e uma habilidade próprias. há escritores maravilhosos que passam a vida toda em um só texto, reescrevendo e isso é a sua forma de ser. Eu escrevo por pura vontade, sem pretensão, não quero participar do mundo da escrita, só do meu mundo da escrita. Publico talvez por vaidade, algo que hoje em dia é falsamente desvalorizado e por outro lado enaltecido e transformado em "Sucesso". Sucesso e Fracasso são como Guerra e Paz ou todas as dicotomias amplamente divulgadas. Eu não quero ser uma escritora, eu sou. Quando me perguntam o que faço digo que sou blogueira é mais fácil e natural deste tempo. Mas muito bom o poema, ele deve ter sido assediado por muitos futuros pretensos escritores em busca de fórmulas para o sucesso, então a resposta é perfeita, 
"quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa.
e nunca houve."

Usando uma expressão chula: de tanto se dizer uma mentira ela vira verdade. Se para uns é natural para outros é a base de muito esforço e trabalho árduo mas se for para ser será. Então eu sou uma escritora blogueira, é bom colocar os pingos nos iiis. As vezes fico sem assunto,  em outras sou tomada pela história que quer ser contada, acontece de tudo. 

Henry Charles Bukowski Jr.:
Então queres ser um escritor?
se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.
se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.
se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.
não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.
quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa.
e nunca houve.
Tradução: Manuel A. Domingos

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