Crônica: Tempos de aniquilação do ser



Tempos de aniquilação do ser

"Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?"

Carlos Drummond de Andrade

Adoro este poema de Carlos Drummond, estou lendo A rosa do povo, acho um livro muito difícil, publicado em 1945 tem o lado mais político do poeta, é muito diferente de seus poemas mais conhecidos, tem uma forte crítica a nossa sociedade e uma desilusão profunda. Tenho dificuldades com esse livro pois a poesia que conheço de Drummond é a mais popular, a que passou pela peneira da censura, do mercado, poesia que cabe em cartão de aniversário, nem por isso bela, forte e importante. " A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais"p 158 no poema carta a Stalingrado sobre a esperança que a cidade deu ao mundo ao derrotar a ofensiva alemã. Vou levar muito tempo para entender essa nova velha face da poesia de Drummond.
Poesia, literatura, política vão mudando sem mudar, para muitas Nações a libertação da opressão Alemã trouxe a opressão Americana ou Soviética, mudaram os atores mas o drama foi o mesmo, a tomada de partes de território "liberto" e a divisão do mundo em dois grandes blocos.
E hoje? Hoje não é em nada diferente, há duas grandes correntes nas quais as Nações navegam, a Globalização seja ela capitalista ou comunista, porque o mundo comunista está também globalizado e o Isolamento total ou parcial, como de Cuba, Coreia do Norte, Venezuela, Irã... Há um terceiro e poderoso elemento que é o Terrorismo, seja ele por motivação religiosa, tráfico de seres humanos ( a nova forma de escravidão), de produtos ( o novo contrabando formando fortunas ilegais), ou de drogas e armas ( o poder das milícias e gangues, contra a sociedade organizada). Nenhum país do mundo está livre de algum tipo de terrorismo, as drogas são o mais profundo dos problemas da atualidade, já que mesmo com combate, repressão estão em todos os lugares, aqui está desfigurando as cidades criando legiões de usuários, tudo o que a sociedade organizada tentou até agora fracassou, então há um pouco de desilusão sobre a solução para o problema. A desigualdade social cresceu na mesma medida que o acúmulo de capital, as pessoas atribuem a miséria a riqueza, não concordo, acho que o desvio de dinheiro de seus fins verdadeiros, a corrupção gera mais miséria do que o acúmulo de capital, só atacar o capital não resolve, nem atacar os "empreendedores", os proprietários dos meios de produção, pois eles geram a renda do mundo, mesmo que especulativamente, sem essa força motriz não há capital, ele dilapida, a luta entre classes fomentada por algumas lideranças só gera mal estar social, é artificial. O melhor rumo da economia será a parceria, o fim da hierarquia incomoda uns e dá ânimo para outros, esse ânimo está mudando o trabalho, para o empregado antigo é uma ameaça a seu mundo, sua forma de vida, então este se sente em risco. Para a nova geração ele é natural estão nesta nova modalidade por opção e se sentem parte das empresas, mas livres para buscar outros espaços se acharem que devem.
O Mundo está em plena metamorfose, as questões femininas e étnicas, dominam a retórica. Há em tudo duas faixas bem distintas de entendimento, de nível de discurso, do meio para cima da pirâmide econômica percebe e entende o mundo de uma forma e do meio para baixo de outra, eu estou entre mais para base, para povo, do que para topo, a elite. Os discursos da direita e da esquerda já foram desmascarados, há um ceticismo porque as massas não querem mais serem definidas, elas se autodefinem, encontram formas de sobreviver, as duas correntes ideológicas já estiveram no poder e acabaram muito parecidas entre si, são corruptíveis e não conseguiram responder as questões sociais. Há tribalidades que não são mais territoriais, são por afinidades e virtuais, há muitas tribos em conexão e no entorno de nosso Planeta as Nuvens formam a consciência coletiva, como foi previsto e formatado. Há ainda os andarilhos virtuais do mundo, como eu , tentando criar a minha própria trilha, rosnando para tudo e todos, minha pretensão é a liberdade com responsabilidade, quem rosna tem que estar pronto para o eco, o retorno do rosnado. Tudo isso é só uma percepção de uma escritora do terceiro mundo, não é "verdade", posso agora mesmo negar todas estas falas, pois a rapidez das transformações não permite mais a consolidação das ideias. Como vai funcionar esse texto, vou publicar, alguns robôs lerão, vão traduzir, que nada que escrevo é lido no Brasil, vão se apropriar, destruir, triturar, peneirar, transformar e vender. Amanhã este texto estará sendo odiado ou idolatrado, com um nome de robô, Eu, autora, não existo e isso é fantástico, é a própria libertação destes tempos.
Estamos no tempo da aniquilação do ser.
Fernanda Blaya Figueiró

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