Conto Uma errata

Uma errata

Advertência
Esse é um conto inventado, encontrei uma errata, num velho livro, que não me pertence, que logo devolvo a querida Carmem, que não aceitou me vender, ela o quer e terá...Misturei alguns causos e outras milongas, tudo meio Borgiano, qualquer semelhança é mera coincidência, ou não, fique bem a vontade para reclamar.
Antônio chegou apressado na editora, depois de tudo pronto, de toda a revisão um único erro, uma nota de roda pé, quem? Diga-me quem lê nota de roda pé? Era o fim do mundo para ele, como isso foi acontecer? Os primeiros 500 exemplares já impressos, encadernados, prontos, prontinhos para o lançamento e um mísero estagiário encontrou o problema... Era o fim! Preparou a errata, mandou imprimir e colocar uma por uma, o livro estava impecável, aquela errata era o fim, uma mancha! O fim! 1ª Edição, outubro de 1972...
Como?
Em janeiro de 2018 o livro ainda a continha? Ficções, Jorge Luis Borges, tradução, Carlos Nejar... Errata a nota... A anatomia da melancolia, caiu como uma pedra sobre sua cabeça, um livro assim jogado, num cesto, sem nunca ter sido carimbado? Sem perder a errata? Limpo! Sem uma só orelhinha. Capa dura vermelha, contracapa manchada de umidade, ficou imóvel por longos e longos anos? Seria a releitura “O Jardim de caminhos que se bifurcam”? Ou alguém maquiavelicamente vem “plantando” livros propositadamente, com o único objetivo de que chegue a algumas mãos, seria perversidade? Ou ainda colocando pessoas com pontos no ouvido tentando envolver escritores ou escritoras em tramas muito manjadas? Não me venha plantar mendigos que esses conheço bem, não sei quem ou porque intento busca invadir o universo mágico da escrita criativa. Se tens alguma profunda dúvida pergunte, o máximo que pode acontecer é não ter respostas.
Voltando a Antônio e o fatídico dia da Errata, ele estava envergonhado, tinha trabalhado muito na edição, estava constrangido ( isso é uma licença poética, não sabemos quem era o revisor, inventamos um nome Antônio e juntamos esta bifurcação, sabemos que alguém trabalhava na Editora Globo, que devia ser no prédio histórico hoje transformado e revisitado, que devia conhecer Mario Quintana e seu humor típico, talvez Érico Veríssimo e Carlos Nejar, não estamos acusando a pessoa que cometeu o erro de nada, apenas usando a imaginação para compor um conto, algo tão raro, inclusive não temos como saber sua aparência e nada a seu respeito existe só o lindo cartão romântico: Errata, tão cult. Nem se era homem ou mulher podemos saber). Ao encontrar o Editor Chefe (devia haver um) perdeu a voz, mas foi logo acalmado, isso acontece, ainda bem que foram só os 500 primeiros... Mas Antônio perdeu longos anos em poucos minutos, ou talvez fosse algo do livro que Borges gostava de pregar certas peças... No fim pediu demissão, havia cometido um erro e o peso, a pressão era muito para ele. Eram tempos prósperos e logo encontrou um lugar como arquivista, era mais calmo, mais longe do centro, mais perto de seu grande amor, o rio. Ele era um adorador do rio, de seus mistérios, gostava do som, da inquietude, do constante movimento da água. Casou, viveu, teve filhos. Amava o rio e o Beira Rio, amava seu time, o Inter era sua vida, ou ao menos uma parte muito importante dela. Um dia ele teve que mudar, as coisas mudam, o movimento da vida o mandou para longe, um lugar sem rio era para ele um lugar sem mistérios. Como é estéril para um caminhoneiro não ter a estrada, é uma profunda opressão, para ele era o rio. Antônio fez 76 anos há pouco e logo perdeu um dos amores, Dora. É o fim , como no dia da errata pensou, é o fim. Viu-se sozinho no meio de uma cidade sem rio, muitos amigos partidos já, filhos longe, trabalho feito, pronto, tudo devidamente arquivado. Era bela a cidade, tinha muitos amigos, boas e amargas lembranças, mas e o rio? Num ímpeto largou tudo, fechou tudo, entregou a chave para o proprietário. Seu Antônio, ele disse, o senhor tem certeza? O senhor chegou aqui rapazinho, faz 46 anos, tem certeza? Tenho! Agradecido pelos anos de aluguel, eu vou voltar, vou voltar! Pegou as malas, os gatos, os cachorros pediu o favor a um amigo caminhoneiro, de ajudar com a pouca mobília, os retratos de Dora, as coisas poucas que a gente tem na vida, um relógio de parede, sem o tic-tac não sobreviveria, as contas de reza de Dora, seus tambores e roupas de cerimônia, Dora ia com ele, as cinzas levou com todo o cuidado. Tremia de pensar em rever o rio, de voltar ao estádio, seu coração apertado parecia que não conseguia conter a emoção. Voltou, a irmã o esperava na porta, tu é louco Antônio, deixar tudo assim? Nessa idade? Onde eu vou colocar tudo isso? O quartinho é pequeno te avisei. Não tem problema ele respondeu, o que não puder guardar eu dou... Arquivou tudo em poucas horas, limpou, organizou, sobrou espaço, para o espanto da irmã. Era sábado, ela tinha feira, ele calçou os sapatos, um bermudão, a camiseta Gloriosa e saiu, pisou o mesmo chão de antes, o rio estava lá saudoso, rugindo, inquieto, ventava pouco, calor... Foi chegando devagarinho como quem pede desculpas. O entorno um pouco mudado é verdade, mas ele o rio, continuava lindo e misterioso. Depois de 46 anos colocou a mão na água e se sentiu um guri. Ouviu o ronco do estádio chamando como sempre, tudo mudado. Tudo definitivamente mudado e ao mesmo tempo o mesmo templo. Sentou nas cadeiras, cadeiras?? Tímido dividiu a alegria com um grupo de colorados, torcia como antigamente, não havia um só desconhecido, eram todos irmãos do rio, do Beira Rio, do Inter. Venceu!! Seu Antônio perdeu algumas e venceu outras!! É a vida. Quem lembra da errata?

Fernanda Blaya Figueiró

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