Vou contar sem contar

Vou contar sem contar
Era uma vez uma pessoa, que não era eu, era muito diferente de mim, sua história soube e vou contar tentando não dar seu nome ou quem foi, porque tudo anda muito chato em literatura, se um poeta decide prosear, há um turbilhão de reclamações, se um poeta decide citar a outro há muitas acusações de ser esnobe ou prolixo, ou falsamente erudito. Coisa que definitivamente não sou, talvez falsa, mas erudita não. Talvez algum robozinho destes enxeridos que vasculham o lixo dos outros, que mapeiam acessos e pensam saber tudo, pense que sabe quem é esta pessoa. Sua pele foi bela, seu cabelo foi longo, sua estatura foi um pouco alta, seu peso variou, sua nacionalidade foi o Planeta Terra, teve sim documentos e eram sim válidos, mas parava pouco. Quando era viva assustava as outras pessoas, hoje só resta sua voz em lindas melodias e canções que são poemas ou hinos. Os poetas podem errar, podem se iludir, podem criar utopias e depois serem soterrados por elas, os cientistas são menos feliz com isso, porque tem um compromisso com a realidade e com a verdade, se um cientista erra o dano é medonho... Poeta nenhum tem. Descobri porque não gostei de alguns poemas, porque olhando daqui de 2017 eles me pareceram ilusórios e tomados por uma falsidade enorme, algo que foi sendo deturpado e corroído, mas voltando a minha pessoa, ela foi capaz de contar como era ser ela, não foi nada fácil, não foi sem desdém ou sem olhares repreensivos. Sabe aquele tipo de gente que anda de ônibus, que não pergunta muito e vai tocando a vida? Era assim, não pedia muita explicação,  fazia suas coisas, nasceu, foi crescendo, vendo o mundo, sentindo, aprendendo onde ficavam as coisas, não se iludia muito com as igrejas, as casas, as delegacias, ia tangenciando passando e cedendo o lado, sabe, um cumprimento rápido, um olhar sem medo, mas sem desafio, fumava só, falava pouco e tocava a vida, foi aprendendo a técnica que a melodia existia em si naturalmente... Então assim já adolescente, já mulher, já sábia foi mostrando seu cantar, foi enfrentando os desafios da vida, a falta de dinheiro, os amores complexos, os filhos criados com pouco, as noites de embalar o sonho dos outros. Um dia gravou e o povo gostou, foram muitos longos anos para a carreira consolidar, mas lá no fundo do olhar era a mesma de sempre, com um olhar que assustava por dizer com graça as mazelas da vida e assim ensinava as outras pessoas, denunciava sem denunciar, falava sem falar, cantava sem esforço. Já depois de muita, mas muitas cantigas, brigas, reconhecimentos, conquistas, derrotas partiu, como todo mundo parte. As coisas todas que cantou vez por outra voltam a acontecer e alguém uma hora ouve suas canções e usa, que é mesmo para usar, para mudar o vento, para lembrar que a vida é essa passagem do saber de um para o outro... Minha pessoa é tão bela e forte e tão inesquecível que dá uma certa esperança de que lá depois daquele rio, ou daquele lindo edifício haja uma estrada que nos leva longe e nos trás de volta... Disse ela uma vez, ou talvez não tenha dito, não sei: O que pensarão sobre minhas canções a gente lá do futuro se é que elas lá chegarão, mas saibam que não anulo uma só, não modifico, nem escondo, pois eu gosto de abrir os olhos pela manhã e dar uma espiadinha até costumar o olho com a luz do sol...  Ainda está tudo aqui? Minha pessoa, suas canções poemas chegaram aqui a esse presente que rapidamente se torna passado, mas que para ti é o tão projetado futuro... Hoje são mais necessários do que nunca, tudo está voltando tão assustadoramente igual que parece que o dia não virá, mas ele vem. Eu não tinha nada para contar mesmo, peço a quem se incomodou que pense qual pessoa não cabe na minha pessoa?

Fernanda Blaya Figueiró

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