Crônica Artifícios para a longevidade.

Artifícios para a longevidade.
Ontem fui buscar uns exames de rotina  e quando voltava, passando na rua Princesa Isabel, mais ou menos uma quadra antes do Hospital Cardiologia, passei num posto de gasolina, peguei uma água e logo em seguida uma senhora muito magrinha,que vinha no sentido contrário, caiu bem na minha frente, tropeçou em alguns pedregulhos soltos na calçada de um edifício em construção. Muito assustada ela ficou alguns segundos entre um poste e o muro, recobrando as forças, perguntei se queria um gole de água, estava muito quente o sol, ela disse que só queria sair dali. Aos poucos começou a levantar, fui ajudando meio desajeitada, porque tinha um monte de coisas nas mãos,  um senhor veio e a apoiou por trás do braço, o que foi muito bom, assim ela levantou bem. Teve uma leve escoriação no joelho, nas mãos e bateu o nariz, sua grande preocupação, não estava tonta, mas seu olhar era de muita dor e apreensão. Disse que era a segunda vez que tropicava no mesmo local, perguntamos se queria que a acompanhássemos e ela respondeu que não, que estava bem, o senhor que a ajudou estava indo na mesma direção que ela, então voltei ao meu caminho e não sei mais nada sobre esse incidente. Seu olhar assustado ficou em minha memória, o constrangimento de ter caído e ser ajudada por pessoas estranhas, a revolta com os pedregulhos soltos e a angustiante fragilidade dela. Meu tio uma vez me disse algo assim, apontando um pacote com vários remédios: Isso é uma licença médica para continuar vivo. Nossa sociedade está envelhecendo e poucos cuidados estão sendo tomados para que a energia renovadora da juventude conviva em paz com a escassez de energia da maturidade, os jovens obreiros que estão erguendo o novo edifício, onde antes devia ter uma casa, raramente passo por aquela rua então não sei apenas imagino, nem ficaram sabendo do que aconteceu na calçada. Eles precisam tocar a obra, cumprir prazos, seguir o projeto, pagar suas contas, então no “corre corre” da vida não lembraram de varrer os pedregulhos soltos. A senhorinha vinha atenta, usava sapatos muito baixos, confortáveis, adequados a suas limitações físicas, mas mesmo assim tropeçou e sua preocupação com a batida no nariz era real, pois é um local sensível. Por sorte acredito que nada de mais aconteceu, foi só um pequeno incidente numa cidade que não para nunca. Algumas pessoas são naturalmente um pouco mais longevas outras artificialmente, como disse meu tio, elas precisam de uma licença medicamentosa para continuar. Algumas pessoas, mesmo seguindo todas as recomendações para uma longa e tranquila vida encontram pedregulhos soltos e tem que superar os obstáculos, já outras precisam conviver com suas escolhas e estilos de vida, seus próprios pedregulhos, tem que recorrer ao artifício da medicação para manter a maquininha funcionando bem. O Brasil precisa retomar alguns princípios de vida em comunidade, antes de entrar para o seu dia a dia é preciso olhar a calçada, verificar se nada ficou solto e pode causar problemas para quem nela transita. Essa avalanche cansativa de escândalos deixou todo mundo com um certo cansaço, uma falta de esperança, mas é preciso retomar o caminho do desenvolvimento e ao mesmo tempo ter atenção aos detalhes, o engenheiro ou o proprietário desta obra nem sonha que uma senhora caiu em frente ao seu projeto, que podia ter tido um acidente mais grave ainda se batesse a cabeça, então segunda feira, ao ir para seu posto de trabalho lembre um pouco dessa mini história e verifique se está tudo no lugar certo, isso pode mudar a vida de alguém. As cidades são de todas as pessoas, elas têm vida própria, um fluxo de energia constante e precisam de atenção, não só dos órgãos públicos, mas de quem nelas vive.

Fernanda Blaya Figueiró  

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