Aquele que não queria ser pobre.

Pequeno exercício de literatura, ando cansada da realidade, não tenho quase assunto então invento,

Aquele que não queria ser pobre.
Ninguém, em sã consciência, quer ser pobre, a pessoa é por traição do destino, alguns convivem mais pacificamente com essa condição e alcançam a saída mais rápido, mas talvez se acomodem, outros lutam, sofrem, batalham e deixam a pobreza bem longe, nunca mais param porque no caminho do enriquecimento quem para sucumbe. Aqui no sul muitas famílias que tinham um pedaço de chão ou um trabalho no campo perderam seu lugar, perderam o paraíso, muitas de nossas canções falam deste sujeito que evadido do meio rural vive do passado, ou vive num passado que nem se quer conheceu, só na vaga informação de que um dia tiveram raízes no campo. E muitos que viveram no campo nos tempos antigos, mas que não eram o Patrão se sentiam injustiçados, tinham raiva e revolta por não ser o dono da terra, pois esse nosso personagem de hoje era assim, vivia no campo, era filho de capataz, então criou para si um lugar imaginário onde era ele o dono, onde era o Patão, onde as danças eram suas vinganças contra esse passado danoso. Não é preciso ser o Patrão, basta ser, e não é preciso não ser o pobre, basta ser, ele não aceitava isso. No seu mundo mandava, era seu pedaço de chão, tamanho de uma quadra de futebol sete, tábuas sólidas davam a acústica do poder, tudo no maior capricho, tudo aprumado e um pouco de luxo nos pequenos detalhes faziam seu sorriso de vencedor brilhar. Venceu a pobreza e nunca mais parou, viajava freneticamente como quem precisa mostrar a que veio. Gastava com a sabedoria de fincar os pés no chão e dar um pouquinho de inveja, mas não a ponto de comprometer nada. Tinha um velho amigo dos tempos duros da fazenda, era franzino, seguidamente se encontravam em eventos e seus trajes modestos chamavam a atenção, seu jeito de contar as mesmas velhas piadas e a alegria com que falava das brincadeiras “daquele tempo”, parecia a ele que o amigo em nada havia evoluído. Um dia depois de correr mundo e virar conferências encontraram-se numa festa de sua cidade natal. Evento comemorativo de grande porte onde estavam todos os velhos conhecidos reunidos, cada um contando suas histórias. Seu amigo com as mesmas lembranças, o mesmo jeito de rir das tolices...  Ele achava sua conversa um pouco cansativa, pouco instruído pensava tentando não demonstrar. Depois das entradas e petiscos  o prato principal só podia ser a tradicional carne de panela, algo que na campanha é quase tão usual quanto o churrasco, há muitos anos não sentia o aroma vindo da panela, acostumado com pratos finos de restaurantes pelo mundo, foi surpreendido pela felicidade ao reconhecer os sabores tão remotos, ao seu lado o amigo comia sem cerimônia como se não entendesse a magia do momento. Há anos não comia assim, as sensações o deixaram meio em devaneio, o amigo riu e comentou que nos dias de hoje ninguém mais apreciava a simplicidade. E a fazenda? Perguntou meio encabulado. Queres ir até lá? Hoje a estrada está sequinha em dez minutos chegamos. Ficou um pouco em dúvida, não sabia bem como seria rever o lugar de onde saiu ainda guri, mas o convite foi tentador. Pediu para acondicionar umas garrafas de cerveja, o amigo riu, não precisa disso comentou, os tempos mudaram, lá tem cerveja gelada e luz, disse no tom de brincadeira. E o Patão, ainda é vivo? Não, vendeu tudo aqui já faz muitos anos, mudou para o norte, os filhos foram estudar e não voltaram, depois que a Patroa faleceu, foi embora, ela está ainda enterrada aqui perto, ele viveu até os noventa quase faleceu por lá mesmo, quem dava notícias suas era o padre, mas isso faz muito tempo. O tempo passou só que o caminho era o mesmo, a vegetação, os sons da noite, o pó da estrada, tudo parecia igual. A porteira, o açude, os galpões, meu Deus pensou, não mudou nada, logo apareceram novos e potentes silos, equipamentos modernos de lavoura descansavam no campo. No alto da coxilha a casa da estância, exatamente como se lembrava, viu a escada do seu passado, estava bem cuidada e iluminada a propriedade, um pouco atrás as casinhas dos trabalhadores, quase pode ver o pai com um sorriso largo esperando por ele para ir ao açude, a mãe colhendo os ovos. Havia todos os sinais de prosperidade e abundância, ficou perplexo pensou que encontraria um lugar em ruínas, estava feliz e surpreso. Vamos entrando que a casa é sua, disse o amigo, abrindo a pesada porta da frente, mas os donos não vão se incomodar de ter visita assim sem aviso. O amigo riu, fica tranqüilo que aqui é tudo meu, fiz um bom pé de meia disse calmamente, fui comprando um pouquinho de cada vez e hoje a fazenda antiga é toda minha. Mas por que nunca me contou isso? Porque o amigo nunca perguntou,respondeu, eu sempre fui muito quieto, gosto do que faço e de ter ficado aqui. Acho que daquele tempo só sobrou eu, todo mundo foi embora, buscar espaço, fazer a vida, e tinha muita vida aqui para ser feita. Eram amigos de anos e não se conheciam pensou, foi soterrado por suas ilusões de grandeza, não sabia o que falar, abriu uma cerveja e ouviu pacientemente as velhas histórias, elas eram parte dele, ele era parte delas. Disse mais uma vez o nome da fazenda e a figura do Patrão apareceu em sua lembrança... Sentiu um cansaço de tanto correr, precisava voltar, voltar a seu mundo seguro e denso, aquela fazenda doía muito, era uma assombração.

Fernanda Blaya Figueiró  

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