A arte não tem sentido...
Tem coisas que estão fora do tempo. Há muitos bons poemas
simplesmente ignorados em seu tempo. Porque há tempos diferentes numa mesma linha
de tempo. O ano vai acabar, foi conturbado, mas não mais do que antes. A ciência
fez tanto esforço para matar as religiões que está quase se tornando uma. Arte
não precisa ser aceita, compreendida, nem consumida, é o que é e pronto. Há
quem diga que as ideologias não morreram e eu acredito, elas só se adaptaram,
mudaram o discurso para chegar ao poder, uma vez chegando lá viraram o que
combatiam. Empoderamento foi a palavra da moda neste ano, tudo bem é uma
palavra boa, importante, animadora, positiva, mas os empoderados deveriam
cuidar de sua aproximação com o poder. Um poderoso é um perigoso, um invejado e
uma potencial vítima do poder que ocupa, pois ninguém fica eternamente no
poder, ele muda porque é precisa mudar.O fim de um poderoso começa no momento
da tomada do poder, ou ele desiste ou é aniquilado, até esse fim, está na corda
bamba. Viver o poder tem que ser algo transitório, sempre há alguém puxando o tapete
dos poderosos. O mundo está mudando
muito rápido, as fronteiras, moedas, as ideologias, as conquistas estão em ebulição.
Sempre é assim, quem não vive o poder olha para ele de fora e enxerga seu vulto,
quem está lá dentro é sugado e triturado, até ser expulso ou eliminado. O Ano
vai entrar novo em Berlim com um muro para proteger as mulheres, isso é uma
tragédia, elas não sabem mais se defender sozinhas, viveram em uma bolha de cidadania e educação
frágil e imaginária, limitada só ao seu mundo, não é real a vida que levam e ao
mesmo tempo é, só que acabou “os tempos bons” foram embora, agora são “os
tempos de vacas magras”. Aqui no Brasil há separações enormes entre as pessoas,
temos muito medo uns dos outros e tudo por uma luta pelo poder, poder sobre as
pessoas, as armas, as drogas, o dinheiro, os partidos, as ideologias. A
diferença é que aqui as pessoas não acreditaram totalmente nas promessas, elas
mantiveram a guarda, as suspeitas e sabem viver na selva urbana, algumas não é
claro. Pessimismo? Não. Apenas um olhar que pode estar errado. É certo separar
um lugar para quem não se sente seguro, é uma forma da sociedade agir e reagir,
mas olhar para o “estrangeiro” como uma ameaça não faz bem. Somos todos humanos
em busca de algo, vivendo a vida, tomando decisões em cada rua e esquina. As
sociedades mudam quando se sentem em perigo, a arte é parte disso, apenas, não
é melhor ou pior é parte do todo.
Quando você diz: “eu sou uma escritora”, por exemplo, não
diz sou uma boa escritora, ou uma escritora mediana, ruim, péssima, isso quem
diz são os outros e muda com o tempo. E dizer: “eu sou uma escritora” é entrar
na seara do poder, porque é algo que transita no mundo do poder, nenhum
poderoso quer ser ignorado e muito menos criticado por uma escritora, seja ela
ou ele quem for. Teve um tempo que para ser um bom escritor o sujeito deveria
ser alemão, judeu e homem. Não sei se este tempo passou , eles de fato sabem
escrever ou sabem criar valor no que é escrito, mas mesmo assim não poderão
entrar no muro só para mulheres. Na prática a coisa está correta, mas na teoria
é perigosa. Leroy Sane ( não conheço peguei no Google, pesquisei melhores
jogadores da atualidade), se quiser não poderá passar a entrada do ano dentro
do cercado só para mulheres. Olhem que coisa complicada. Aqui no Brasil mesmo
com todos os nossos problemas, que são muitos, são profundos, são sérios, muita
gente vai passar nas praias, junto, pulando 7 ondinhas, como manda a tradição
para ter boa sorte. Vai haver sim casos de arrepiar o cabelo, pois nossa
sociedade anda absurdamente involuindo, regredindo. Há mais muros aqui do que
em toda a Europa, muros de bairros, de centros de compras, imaginários e reais,
abismos. Mas para nós tupiniquins há um modelo melhor em algum lugar, um outro
lugar, aqui almejamos algo que não temos e que não sabemos como conseguir, uma
diminuição na miséria, somos incapazes de fazer isso. Lá na Alemanha isso foi
conseguido, então é emblemática a notícia de um cercadinho só para mulheres. É
o empoderamento, aqui tem livros só escritos por mulheres, empresas só para
mulheres, é meio louco isso, se for natural por afinidade é certo, mas se for
um tipo de segregação não é. Porque um homem não poderia escrever junto com uma
ou mais mulheres? Não pode ser dito não
entram homens estrangeiros, seria xenofobia, dizer não entram homens negros ou
brancos, seria racismo. Então é Lugar só para mulheres, só que é um Lugar
proibido para homens, um cercadinho pode virar uma prisão, é preciso pensar
muito. Mulheres não alemães, nem judias que escrevem bem tem um monte, usei só
uma metáfora, para um período maravilhoso de livros. O empoderamento é algo bom
se for em equilíbrio, se a mulher puder ser livre para ir ao encontro do poder
ou não,exercer poder ou não tem que ser uma opção. O homem ser livre para ser
poderoso, mas não livre para ultrapassar o limite da lei. Não pode oprimir a
mulher nem ser oprimido por ela. É certo ter o muro ou cercado onde o grupo de
mulheres que quiser fique e se sinta protegida, mas não é bom que isso vire
ordinário. Que no cotidiano comecem a ter lugares só para um sexo, ou outro,
isso já foi superado. Retomar a paz e segurança ( que nunca é absoluta) passa
por incluir esse diferente e fazer com que ele entenda e viva dentro da lei e
dos códigos de condutas da sociedade em que está, ou volte para seu lugar de
origem. A Europa virou um lugar de muito poder e todo mundo quer estar lá,
então a perca do Paraíso para uns é a chegada no Nirvana para outros. Aqui não
é diferente, a Classe Média emergente lutou muito para conseguir um pouco de
estabilidade e está se sentindo acossada pela perda de seu mundo, seus pequenos
privilégios. A possibilidade de perder capacidade de consumo é muito
angustiante, toda a crise financeira que vivemos aqui nos assustou, queremos
muros financeiros que nos protejam. Só que cercadinhos são perigosos, uma hora
podemos ser excluídos também. Aqui não entram brasileiros, e isso já vem
acontecendo, então é hora de trabalhar para melhorar nosso mundinho. E ficar
atento ao que acontece no Mundo, ele está estranho, meio careta. Não era nada disso que eu queria escrever hoje, mas foi o que deu, fazer o que? Se não descarrego esse assunto ele volta, então, tá escrito. Imagina carregar essa fala chata toda ano a dentro, perda de tempo.
Fernanda Blaya Figueiró
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