Participei de oficina de Ester Mambrini na Feira do livro
Hoje participei em companhia de Carmem Henck, Ana e Ana Paula D’Avila de uma oficina sobre o conto Felicidade Clandestina, Clarice Lispector, duas adoráveis horas de boa leitura e análise de texto, algo que praticamente não domino. Minha experiência em literatura é toda implícita salvo alguns breves encontros como este. Mas fiquei tentada a brincar com o conto e tomei a liberdade de fazer esse jogo literário. Amanhã continua mas moro em Viamão e sair do centro as seis e meia é fora do meu “normal”, salvo exceções saio sempre cedo.
Exemplar do Editor- Proibida a venda
O dono da livraria chegou em casa entusiasmado com a programação da próxima feira do livro, seu olhos brilhavam, olhou a esposa e a filha e antes de por o chapéu no gancho próximo ao grande espelho, sentiu que algo grave havia acontecido. Viu refletido o olhar apreensivo das duas mulheres de sua vida. Olá, meninas!Como passaram o dia?Vocês não vão imaginar o que eu consegui... Em pé, uma ao lado da outra pareciam nervosas, olhou para as duas gordinhas lindas, sardentinhas, tinham as faces avermelhadas... Faces robustas e silêncio! Meu Deus, pensou. Paciência... Tirou da bolsa um exemplar de Caçadas de Pedrinho, cortesia do editor, proibida a venda... Ganhou um beijo de cada uma e contou a grande novidade... Na Feira do Livro contaremos com: Monteiro Lobato. Viu os olhos da filha fitarem os seus cheios de apreensão. A mãe pediu a ele que sentassem pois tinham que ter uma “reunião de família”. A menina estava tensa, mãos suadas, um desconfortável balançar das pernas. Então ele perguntou: o que aquela sua amiga magricela aprontou agora? A menina começou a chorar e abraçou o pai como se nunca mais o fosse ver. A mãe relatou o acontecimento da tarde, viu as duas meninas conversando e percebeu que algo estava acontecendo, foi direto ao ponto: explicou que a amiguinha dela queria muito um livro e que ela estava demorando a emprestar e isso não lhe parecia correto, fazer a amiga vir aqui quase diariamente e inventar desculpas para fazer o empréstimo. Quando a filha recobrou a calma, o pai perguntou a ela porque estava agindo assim, ele já havia explicado que ela não era uma boa amiga, que só aparecia para pegar livros emprestados e que nunca devolvia, na escola fingia que mal a conheciam e ainda zombava dela. Porque continuar perto de alguém assim? Ela não é sua amiga, o papai já disse isso quantas vezes? Diante da imobilidade da menina, de sua falta de palavras, chamou a esposa e perguntou o que ela havia determinado. A menina levou o livro e não havia dado ainda um castigo para a filha. Então, pensou rapidamente, de hoje em diante nenhum livro sai mais desta casa, se sua amiga quiser terá que vir aqui e vocês lerão juntas, ordenou com voz firme e ar de repreensão. Fez um bilhete que enviaria a professora de ambas, com sua determinação, além disso, nada mais de balas. A menina sorriu aliviada e pegou o pacote com a nova publicação, livro com cheiro de novo, capa dura, uma delícia de dar inveja a qualquer um.
Posso começar a ler antes do jantar? Sim! Disseram ao mesmo tempo o pai e a mãe, sabiam dos problemas de ser estrangeiro. Se ela falasse as meninas zombariam de seu sotaque carregado, se pegasse sol a chamavam de “Camarão”, era muito mais alta e desenvolvida que todos de sua turma, ler em português era uma tortura, mas aos poucos aprendia a língua... Maldita Guerra Fria, como queria voltar à Praga, e ter a sua vida de volta. Eram Clandestinos no mundo, não poder disser seu próprio nome, não poder voltar a sua casa, a seus amigos era doloroso e cruel. Imaginava todos os dias o retorno, mas era impossível, impossível. Ver a filha subindo as escadas alegre e animada com o novo livro foi muito bom, assunto resolvido. Recife é uma linda cidade, amava os cartões postais, que mandava imprimir como se fossem a sua Praga... A mãe riu de sua “punição”, disse que sabia que as meninas nunca a deixariam em paz, mas que ela precisava aprender a “não mendigar o afeto”... Certo, Mãe! Você está sempre certa. Vou tirar esses malditos sapatos que usar meias nesse calor é um inferno... Que felicidade poder tirar essas porcarias, conto os minutos para chegar em casa, penso o dia inteiro nessa furtiva felicidade... A mãe riu de tanta bobagem, tirar os sapatos, só ele mesmo.
Fernanda Blaya Figueiró.
O dono da livraria chegou em casa entusiasmado com a programação da próxima feira do livro, seu olhos brilhavam, olhou a esposa e a filha e antes de por o chapéu no gancho próximo ao grande espelho, sentiu que algo grave havia acontecido. Viu refletido o olhar apreensivo das duas mulheres de sua vida. Olá, meninas!Como passaram o dia?Vocês não vão imaginar o que eu consegui... Em pé, uma ao lado da outra pareciam nervosas, olhou para as duas gordinhas lindas, sardentinhas, tinham as faces avermelhadas... Faces robustas e silêncio! Meu Deus, pensou. Paciência... Tirou da bolsa um exemplar de Caçadas de Pedrinho, cortesia do editor, proibida a venda... Ganhou um beijo de cada uma e contou a grande novidade... Na Feira do Livro contaremos com: Monteiro Lobato. Viu os olhos da filha fitarem os seus cheios de apreensão. A mãe pediu a ele que sentassem pois tinham que ter uma “reunião de família”. A menina estava tensa, mãos suadas, um desconfortável balançar das pernas. Então ele perguntou: o que aquela sua amiga magricela aprontou agora? A menina começou a chorar e abraçou o pai como se nunca mais o fosse ver. A mãe relatou o acontecimento da tarde, viu as duas meninas conversando e percebeu que algo estava acontecendo, foi direto ao ponto: explicou que a amiguinha dela queria muito um livro e que ela estava demorando a emprestar e isso não lhe parecia correto, fazer a amiga vir aqui quase diariamente e inventar desculpas para fazer o empréstimo. Quando a filha recobrou a calma, o pai perguntou a ela porque estava agindo assim, ele já havia explicado que ela não era uma boa amiga, que só aparecia para pegar livros emprestados e que nunca devolvia, na escola fingia que mal a conheciam e ainda zombava dela. Porque continuar perto de alguém assim? Ela não é sua amiga, o papai já disse isso quantas vezes? Diante da imobilidade da menina, de sua falta de palavras, chamou a esposa e perguntou o que ela havia determinado. A menina levou o livro e não havia dado ainda um castigo para a filha. Então, pensou rapidamente, de hoje em diante nenhum livro sai mais desta casa, se sua amiga quiser terá que vir aqui e vocês lerão juntas, ordenou com voz firme e ar de repreensão. Fez um bilhete que enviaria a professora de ambas, com sua determinação, além disso, nada mais de balas. A menina sorriu aliviada e pegou o pacote com a nova publicação, livro com cheiro de novo, capa dura, uma delícia de dar inveja a qualquer um.
Posso começar a ler antes do jantar? Sim! Disseram ao mesmo tempo o pai e a mãe, sabiam dos problemas de ser estrangeiro. Se ela falasse as meninas zombariam de seu sotaque carregado, se pegasse sol a chamavam de “Camarão”, era muito mais alta e desenvolvida que todos de sua turma, ler em português era uma tortura, mas aos poucos aprendia a língua... Maldita Guerra Fria, como queria voltar à Praga, e ter a sua vida de volta. Eram Clandestinos no mundo, não poder disser seu próprio nome, não poder voltar a sua casa, a seus amigos era doloroso e cruel. Imaginava todos os dias o retorno, mas era impossível, impossível. Ver a filha subindo as escadas alegre e animada com o novo livro foi muito bom, assunto resolvido. Recife é uma linda cidade, amava os cartões postais, que mandava imprimir como se fossem a sua Praga... A mãe riu de sua “punição”, disse que sabia que as meninas nunca a deixariam em paz, mas que ela precisava aprender a “não mendigar o afeto”... Certo, Mãe! Você está sempre certa. Vou tirar esses malditos sapatos que usar meias nesse calor é um inferno... Que felicidade poder tirar essas porcarias, conto os minutos para chegar em casa, penso o dia inteiro nessa furtiva felicidade... A mãe riu de tanta bobagem, tirar os sapatos, só ele mesmo.
Fernanda Blaya Figueiró.



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