Ondjaki na Feira do livro: “As
gordas podem tudo!”
Ontem assisti parcialmente um bate papo
divertido e descontraído do escritor Ondjaki com alunos, acho que
de Gravataí, não assisti toda a palestra porque chegou uma outra turma e os
lugares eram deles. Bem, ele fez um exercício de montar uma pequena história, foi escolhida como protagonista uma
mulher e para dar emoção e clima a
história ele solicitou ao público que pensasse numa característica física que a
impedisse de fazer um esporte radical, perna quebrada, uma sugestão, e gorda
surgiu no imaginário dos alunos, ele imediatamente disse, mais ou menos :- Não!
Ser gorda não é impedimento, as gordas podem fazer tudo o que quiserem! Ele arrancou entusiasmadas palmas da platéia,
puxadas por mim, pelo reconhecimento da liberdade que temos, nós gordas. Logo
se definiu que a protagonista estaria grávida de trigêmeos, e novamente ele foi
muito humano, quando alguns alunos pensaram que para poder participar de um
campeonato, não recordo a modalidade, sua personagem abortasse os bebês, ele se
apavorou. “Não! Não faríamos ela abortar três bebês por tão pouco...”(fala
aproximada já que não gravei na hora) Por sorte as crianças concordaram, mas as
feministas podem não gostar muito, na hora não deu polêmica. Neste momento
deixei o lugar para a turminha que chegava.
Esse jovem escritor vai longe, ele é
carismático e muito bom com a interação com o público. Um pouco antes, em
informal conversa na fila para as senhas das palestras, conversei com algumas “meninas
maravilhosas", sobre a Feira, as vidas, e literatura. A Feira do Livro de Porto
Alegre, para mim é feita de várias tribos, desfilam entre os comuns Coronéis e
Caciques da Literatura, eles tem cada um seu próprio público e rigorosos
códigos de conduta, há os livreiros, que estão a negócios, os núcleos
universitários , as diversas oficinas, cada um com seus escritores e leitores,
os escritores técnicos, os poetas e os artistas em geral que tem na feira a
oportunidade de lançar coletâneas, de fazer contação de histórias performances
e apresentações musicais. Tem o “povo do centro” que se incomoda um pouco com a
“tomada da praça”, que nos outros 330 dias do ano é só deles, território é
território e ninguém gosta de ceder, então para esse pessoal ter que dividir a
praça com essa “Fauna das artes” é um pouco incômodo... Como quem mora no
litoral e vê por três meses a enxurrada de turistas invadindo as ruas, trazem
movimento, prosperidade, oportunidade de trabalho, mas um pouco de zueira, é o
contraponto.Eu, nessas tribos, sou Andarilha e
arisca, caminho, olho, participo um pouco e volto a minha trilha, a minha
labuta interior que é esse momento a folha em branco e a mente repleta de
imagens. Histórias estão acontecendo o tempo inteiro, alguns escritores
transformam elas em livros, em produto e isso é bom, outros, como eu, tem uma
relação com essa arte que não é comercial, não que seja melhor ou pior, mas diferente.
Escrever é viver e ao mesmo tempo compreender o próprio tempo, e nós mesmos
escolhemos os caminhos que vamos fazer, eu opto pelo caminho longo, por me
perder em meus próprios e emaranhados labirintos, gosto disso, tem quem prefira
aprender os atalhos, andar na sombra de seus mestres e galgar os degraus que
levam ao topo rápida e eficazmente, é uma opção, uma aposta. As tribos em alguns
momentos se chocam e se encontram, casualmente ou por ação do destino? Como
saber? A literatura não é diferente de outras artes, nem Porto Alegre é
diferente de outras cidades, cada uma tem seus dramas e histórias.
Gostei muito do breve passeio e destas “pipetas”
de interação...
Nós gordas podemos tudo o que
quisermos!! Maravilha!! Mas, as crianças tem alguma razão seria meio esquisito
imaginar uma gordinha em algumas atividades de alto risco, mas não
impossível... Eu? Não!! Meu esporte radical é caminhar nos centros urbanos, há
perigos sim, uma pedra solta, um meio fio desgrenhado, um ladrão na esquina,
sabe que eles tem um pouco de medo de nós “velhas brabas”, é só fazer cara de “diretora
de escola” que eles piam manso... E claro: sempre andar onde tem polícia, que
por mais braba que seja, nos caminhos
ermos não tem regra...
Fernanda Blaya Figueiró
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