Notinha que sossego...

Notinha que sossego...

“Tudo que existe existe talvez porque outra coisa existe.
Nada é, tudo coexiste: talvez assim seja certo. Sinto que eu
nâo existiria, nesta hora — que não existiria, ao menos, do
modo em que estou existindo, com esta consciência presente
de mim, que por ser consciência e presente é neste momento
inteiramente eu — se aquele candeeiro não estivesse aceso
além, algures, farol não indicando nada num falso privilégio
de altura. Sinto isto porque não sinto nada. Penso isto porque
isto é nada. Nada, nada, parte da noite e do silêncio e do
que com eles eu sou de nulo, de negativo, de intervalar, espaço
entre mim e mim, coisa esquecimento de qualquer
deus...” Livro dos desassossegos Fernando Pessoa. Pg 171, aqui no Brasil número do artigo que define estelionato no Código Penal acho... Se Fernando Pessoa escrevesse um blog seria sem sombra de dúvidas esse livro, quanto sofrimento e angústia.

“Sossego, sim, sossego. Uma grande calma, suave como
uma inutilidade, desce em mim ao fundo do meu ser. As páginas
lidas, os deveres cumpridos, os passos e os acasos de
viver — tudo isso se me tornou numa vaga penumbra, num
halo mal visível, que cerca qualquer coisa tranqüila que não
sei o que é. O esforço, em que pus, uma ou outra vez, o
esquecimento da alma; o pensamento, em que pus, uma vez
ou outra, o esquecimento da ação — ambos se me volvem
numa espécie de ternura sem sentimento, de compaixão
frusta e vazia.”pg 201
“Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente
o que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento,
que é o que se chama cultura. Mas há também uma
erudição da sensibilidade.” Pg288


-Sossega, Bernardo!! Foi tudo um longo sonho... Acabou! Não fui louca a ponto de ler todo teu livro, li como fragmento que é, e como fragmentada que é minha leitura. Eu, aqui do futuro, aqui do Brasil, essa cópia borrada de Portugal, com todos os defeitos de teu Portugal, menos a riqueza a Rua dos Douradores, nunca fui a Lisboa, nem tenho porque ir, ela mora em mim, como em ti, por teu longo lamento. Perdoa Fernando por ser assim tão cruel!Homem de cafés, sombra do homem que pretendia ter sido, pobre Fernando. Andando nas ruas com suas costas miúdas, franzino, soturno, com seu paletó preto e chapéu, solitário em qualquer rua, triste em qualquer época, sensível em qualquer estado. Estado de sonho, viver sonâmbulo, todos, todos os poetas são assim. Uns mais que os outros, uns mais disfarçados que os outros. Nunca que ele soube entender o esplendor do amanhecer, a doçura do sorriso de criança, a leveza de nada ser. Era. Ele era com todo o peso da consciência. Ele Fernando era o patrão Vasques. Ele te escravizava e explorada, ele te fez prisioneiro do cotidiano, mas era ele também prisioneiro da vida. Perdoa, é bom, esse desassossego te seguiu eu sei, no outro lado da vida, lá onde vocês coexistem criador e criatura Fernando e Bernardo unidos numa só consciência, sem ruptura, sem estilhaços, juntos num só ser essencial. Faça as pazes consigo, eu te compreendo, se isso te ajuda, eu sei de tua infinita inquietude e da angústia de saber que há seres terrenos e densos, os felizes, os otimistas acima de tudo. Aqui deste futuro horrendo digo que esquerda e direita ainda atazanam com suas mentiradas e falsos ensinamentos. A Humanidade é exatamente a mesma, nada mudou. Ir, navegar para que,mesmo? Hoje navegamos no ar, navegamos em pequenas partículas jogadas na rede como peixes e outros seres, nada existe e ao mesmo tempo tudo isso afeta bruscamente a vida, o cotidiano... Aqui não tem mais Guarda Livros, está tudo on line, aqui tu não é mais possível. Não tem o escritório, o tempo das 8:00 as 17:00, tudo é fora do tempo.
Sossega, joga a cabeça para trás, olha o infinito céu, a lua, pede a Fernando que te emancipe, que te livre de ser Bernardo Soares, o Fernando mais melancólico e sofrível. Ele o fará, tenho quase certeza. Estão vocês onde? Há um “céu” para poetas e escritores ou o eterno limbo? Um dia viajo para ai e descubro, não  tenho essa tua angústia em saber, escrevo como dizes sem saber, só sentimento, mas como é difícil de sentir esse mundo.  

Fernanda Blaya Figueiró 

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