Esqueci os óculos.
Vim a biblioteca e esqueci os óculos, então sobra ler no computador que é só ampliar as letras. Enquanto houver filmes com atores e livros impressos me sinto ainda parte do mundo. Engraçado esse teclado faz barulho, algo que os computadores não fazem mais. Parece uma velha máquina de digitar, e oferece resistência aos dedos, bem diferente... Uma hora sem nada pra fazer é muito tempo.
Vou brincar com um poeta que mal conheço Luis Cernuda, com uma só frase início de um grande poema "La Adoracion de Los Magos", achei que os poemas estavam em português, mas estão em espanhol, não sei.
"La soledade.La noche. La Terraza." Cernuda, que lindo começo para um poema de Natal..
Vou brincar com essa linda introdução, nada para fazer, dá nisso...
Vigília
A solidão. A noite. A Entrada. (ou para quem preferir o terraço)
Vigília de véspera de Natal, aqui chamamos de Novena. Lembro bem numa época muito antiga, não darei o nome aos bois, que a memória prega peças, mas foi assim, bem assim numa longa noite de vigília que vi um ser de luz. Sim. No terraço pequeno em frente a casa havia um portão, dois ou três degraus apenas separavam a calçada da entrada, um pequeno pátio coberto com varanda ligava a frente ao interior. Nunca tinha estado naquela casa antes, nunca subira os degraus, mas conhecia bem a gente alegre que ali morava, eram muito amigos e queridos. No fundo do quintal havia um pequeno altar montado sobre uma mesa, flores, velas, um crucifixo, a bíblia aberta, incensos e ao redor deste improvisado templo ao ar livre um cortejo de pessoas entoando cantilenas religiosas, nada de "Noite Feliz" essa melodia um pouco moderna, era algo com "No céu, no céu com minha mãe estarei" ou "Aleluia", não recordo, que a memória, como já falei, prega peças na gente. Havia nas mãos das rezadeiras rosários lindos alguns de pérolas, outros de rosas cobertos, a novena puxada pelo fio das contas, era difícil de acompanhar, muito rápido, muito direto e intenso. Então para quem naquele mar de reza não penetrava sobravam a noite quente e estrelada, a solidão em meio ao mar de vozes e o terraço, para de longe assistir. E é de longe que se assistem os grandes feitos, do degrau da escada que se tem o melhor ângulo. A tribo toda rezava com fervor, em sua cadeira de rodas e já com a energia pouquinha esse senhor, outrora grande e falante, brilhava. Todos rezavam, todos eram bons fieis, mas nem todos, naquele exato momento, tinham aquela luz como a das imagens dos santos. Não. Não era um santo, mas estava ligado ao Divino, estava recebendo a Luz do Universo, ou melhor estava emanando Luz, nesta época era eu bem pequena e já havia presenciado outras visões de luz, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, já contei isso, que um dia vi o milagre da luz na transformação do pão e do vinho no Cristo. Então eu sei, deste muito pequena, que Deus existe, não porque me contaram, mas porque via. Sei que somos feitos de luz, porque sei, porque via, porque sentia, porque sei. Esse senhor logo deixou o mundo terreno e sei que virou luz, sei que deixou saudade e que as pessoas achavam que partiu cedo, não, ninguém parte cedo ou tarde, apenas parte. Dos mistérios do mundo sei pouco, da noite sei menos, durmo cedo, sempre cedo, das estrelas sei pouco, sei que são lindas, só. Da solidão transformei em solitude. Cristo sei que foi especial, Maria uma grande mãe, do Espírito sei que sopra, que nos anima e nos conduz. Nascer é entrada para esse mundo, morrer é saída dele. Deus ( como as pessoas falam) acho que é um bom ser que nos ama, se existe, não sei, tanto quanto não sei se existo ou se esse poeta que deve ser maravilhoso, existiu. Com Deus tudo fica mais bonito e amável, talvez por isso precisamos dele... No outro dia era Natal, ceia farta, presentes, brincadeiras, nunca mais vi meu breve amigo que brilhava em sua cadeira de rodas, mas nunca esqueci dessa vigília. Será que ele sabia que era repleto de luz, naquele breve tempo das contas do rosário?
Fernanda Blaya Figueiró
P. S. Esse senhor pelo que me lembro e guardei com carinho na memória, era pai de um amigo do meu pai, o Chulipa. Não sei se é sobrenome ou apelido, mas são amigos até hoje.
Vim a biblioteca e esqueci os óculos, então sobra ler no computador que é só ampliar as letras. Enquanto houver filmes com atores e livros impressos me sinto ainda parte do mundo. Engraçado esse teclado faz barulho, algo que os computadores não fazem mais. Parece uma velha máquina de digitar, e oferece resistência aos dedos, bem diferente... Uma hora sem nada pra fazer é muito tempo.
Vou brincar com um poeta que mal conheço Luis Cernuda, com uma só frase início de um grande poema "La Adoracion de Los Magos", achei que os poemas estavam em português, mas estão em espanhol, não sei.
"La soledade.La noche. La Terraza." Cernuda, que lindo começo para um poema de Natal..
Vou brincar com essa linda introdução, nada para fazer, dá nisso...
Vigília
A solidão. A noite. A Entrada. (ou para quem preferir o terraço)
Vigília de véspera de Natal, aqui chamamos de Novena. Lembro bem numa época muito antiga, não darei o nome aos bois, que a memória prega peças, mas foi assim, bem assim numa longa noite de vigília que vi um ser de luz. Sim. No terraço pequeno em frente a casa havia um portão, dois ou três degraus apenas separavam a calçada da entrada, um pequeno pátio coberto com varanda ligava a frente ao interior. Nunca tinha estado naquela casa antes, nunca subira os degraus, mas conhecia bem a gente alegre que ali morava, eram muito amigos e queridos. No fundo do quintal havia um pequeno altar montado sobre uma mesa, flores, velas, um crucifixo, a bíblia aberta, incensos e ao redor deste improvisado templo ao ar livre um cortejo de pessoas entoando cantilenas religiosas, nada de "Noite Feliz" essa melodia um pouco moderna, era algo com "No céu, no céu com minha mãe estarei" ou "Aleluia", não recordo, que a memória, como já falei, prega peças na gente. Havia nas mãos das rezadeiras rosários lindos alguns de pérolas, outros de rosas cobertos, a novena puxada pelo fio das contas, era difícil de acompanhar, muito rápido, muito direto e intenso. Então para quem naquele mar de reza não penetrava sobravam a noite quente e estrelada, a solidão em meio ao mar de vozes e o terraço, para de longe assistir. E é de longe que se assistem os grandes feitos, do degrau da escada que se tem o melhor ângulo. A tribo toda rezava com fervor, em sua cadeira de rodas e já com a energia pouquinha esse senhor, outrora grande e falante, brilhava. Todos rezavam, todos eram bons fieis, mas nem todos, naquele exato momento, tinham aquela luz como a das imagens dos santos. Não. Não era um santo, mas estava ligado ao Divino, estava recebendo a Luz do Universo, ou melhor estava emanando Luz, nesta época era eu bem pequena e já havia presenciado outras visões de luz, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, já contei isso, que um dia vi o milagre da luz na transformação do pão e do vinho no Cristo. Então eu sei, deste muito pequena, que Deus existe, não porque me contaram, mas porque via. Sei que somos feitos de luz, porque sei, porque via, porque sentia, porque sei. Esse senhor logo deixou o mundo terreno e sei que virou luz, sei que deixou saudade e que as pessoas achavam que partiu cedo, não, ninguém parte cedo ou tarde, apenas parte. Dos mistérios do mundo sei pouco, da noite sei menos, durmo cedo, sempre cedo, das estrelas sei pouco, sei que são lindas, só. Da solidão transformei em solitude. Cristo sei que foi especial, Maria uma grande mãe, do Espírito sei que sopra, que nos anima e nos conduz. Nascer é entrada para esse mundo, morrer é saída dele. Deus ( como as pessoas falam) acho que é um bom ser que nos ama, se existe, não sei, tanto quanto não sei se existo ou se esse poeta que deve ser maravilhoso, existiu. Com Deus tudo fica mais bonito e amável, talvez por isso precisamos dele... No outro dia era Natal, ceia farta, presentes, brincadeiras, nunca mais vi meu breve amigo que brilhava em sua cadeira de rodas, mas nunca esqueci dessa vigília. Será que ele sabia que era repleto de luz, naquele breve tempo das contas do rosário?
Fernanda Blaya Figueiró
P. S. Esse senhor pelo que me lembro e guardei com carinho na memória, era pai de um amigo do meu pai, o Chulipa. Não sei se é sobrenome ou apelido, mas são amigos até hoje.
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