Passarada canta e nós nos desencantamos.
Passarada canta alegremente, não tem dilema, só seguir o
curso, cantar, construir ninhos, por ovinhos, alimentar os bicos famintos,
ensinar a voar e se vier tempestade, e se o vento derrubar tudo é começar de
novo, e de novo, e de novo...
Espanha não vai abrir mão da Catalunha, estão lá em
intervenção das Forças Nacionais, quem achou que um Plebiscito irregular iria dar
ao cidadão revolto a emancipação sem dor e sangue, se enganou. A Venezuela caiu no esquecimento, no
isolamento, está já em uma ditadura.
Amigos, meus amigos, as ditaduras as vezes voltam e o povo
vai sendo lentamente convencido de sua necessidade. O Japão precisa de uma
autorização para voltar a ter seu exército. Acho que a Alemanha já tem, não
tenho muita certeza, se não tem deveria já ir pensando em ter, porque a Coréia
do Norte quer brincar de guerra. Aqui, não sei, aos poucos a corrupção começa a
apavorar, aterrorizar, imaginar que depois de todo o movimento no subsolo do
poder, depois de escancarar a forma como o Brasil foi sendo destruído, ainda
serão os mesmos candidatos, com os mesmos vícios e desprezo pelo cidadão que
farão parte das eleições. Para que ter eleição, se vai continuar tudo igual? Se
a estrada não feita vai continuar em ruínas e as verbas gastas indo parar no
bolso dos ladrões... Para que continuar isso? Ilusão por ilusão? Mesmo uma
ilusão precisa convencer e aos poucos não está mais. O pior que aconteceu foi
Dilma sofrer o Impeachment e poder ser candidata, foi um desvio horrendo das
leis, então essa senhora mentiu sobre a situação do país, pedalou as contas só
para se reeleger, comprou a eleição com caixa 1,2,3, 171 anti republicano e se quiser pode ser candidata? Assim como Lula Jararaca (auto denominado),que vai “sentar o pau” nos coxinhas a vontade se
voltar. Aécio disse que manda matar quem
delatar, pegou o dinheiro sujo na mão, foi pego nessa falcatrua e voltou ao Senado com os aplausos de todos os
outros, que fazem a mesma coisa. Temer também está provando que mesmo depois de
ter caído numa cilada, só pensa em si mesmo e em quem pagou sua manutenção no
poder(fui a favor de sua permanência porque achava que a economia não agüentaria
um novo Impeachment, ainda acho) , ao tentar mudar “a machadada” ou a “decretada”
o que o país tenta proteger: o Trabalho e as Reservas Florestais. As “reformas”
caíram no esquecimento, no lodo do dia-a-dia do Congresso, como dizia o apenado
Cunha, eles trabalham muito, são muitas sessões... Só que é movimento inútil, sem mudança, só
trocar os quadros de parede, arredar os móveis, nada de por a mão no mofo, no reboco
podre, nada de olhar de perto as vigas corroídas pela ação do tempo, pela falta
de manutenção e pelos desvios, só tirar uma pilha de papel de uma gaveta e por
em outra.
Escrevi sobre a escravidão moderna, ao ir almoçar ontem, na
porta de fora do restaurante, haviam duas
crianças aparentando 6 e 8 anos, vendendo guardanapos: Tia, compra são 2 por
5,00 R$ só para me ajudar... Ajudaria muito a essas crianças se pudesse denunciar
os adultos sem vergonha que as estavam explorando, mas eu não fiz nada, porque são
pessoas miseráveis, nem sempre mortos de fome, mas miseráveis na alma, se
chamasse o conselho tutelar, essas crianças padeceriam mais ainda, porque o
Estado não tem estrutura para protegê-las, mesmo numa família violenta elas
estão mais protegidas do que num albergue. Se alguém reclamasse essas crianças
sofreriam a fúria de quem as oprimia, estavam num domingo, na porta de um
estabelecimento, na rua, oferecendo um produto... Teriam almoçado? Receberam as
vacinas e demais cuidados de saúde? Vão a escola? Os pais sabem que trabalho
infantil no Brasil é proibido? São exploradas pela família ou a família vendeu o
trabalho delas para algum “empreendedor”... Quando sai do restaurante, eles não
estavam mais lá, então não sei o que aconteceu, talvez alguém mais consciente
do que eu reclamou. Isso tudo numa avenida movimentada, numa cidade com mais de
250 mil habitantes, num domingo em pleno meio dia. Se um fiscal do trabalho
passasse ali teria que chamar um
conselheiro tutelar, já que trabalho é acima dos 14 anos, ele não poderia achar
que aquilo era trabalho escravo , se não teria que prender os pais, apreender
os guardanapos... Podia ele dizer que não era hora do expediente, era domingo,
então...
Existe uma imagem que nos ajuda a nos sentirmos menos
culpados: A Balança da Justiça. Colocando a fome ou a necessidade que as
crianças e a família podem estar passando numa mão e na outra o que a lei diz,
ou as consequências de tentar agir dentro do que a lei determina. Neste aspecto
acho dá para entender as deturpações que nossa semi democracia vem passando, o
medo de punir corretamente, o medo de a punição desencadear uma onda de
tragédias, de ações nefastas, mas esse medo de agir dentro do que a lei manda apenas
demonstra que a lei é fraca e injusta, ou que não protege a sociedade. Se as
duas crianças fossem abordadas o que teria acontecido? É proibido o trabalho
infantil no Brasil, com exceções, nas quais vender produtos na rua não se
incluem, é proibido no Brasil que crianças passem fome, não tenham casa ou sejam
discriminadas, mas acontece. Somos todos iguais perante a lei, mas nem todos
conseguimos ter acesso ao mínimo, ao básico. Eu tenho, não posso reclamara de
nada, mas convivo com muita gente que não tem, e nada posso fazer sobre isso,
só votar e reclamar. Votar em quem? Se o cardápio será o mesmo.
Quantos personagem vieram a sua mente, amigo leitor? Oliver
Twist, Gavroche, João e Maria, Pixote...
O brasileiro se acostumou com o errado, o torto, aceitamos
isso por anos de cansaço, por saber que nada é feito, repetidamente, entra
governo, sai governo e é tudo conversa fiada... Entra ditadura, sai ditadura,
entra democracia, sai democracia e o caldo entorna, volta ditadura... Isso é a
vida acontecendo, a democracia está passando por um teste severo e a gente
queria uma transição suave de uma democracia falida para uma verdadeira. De um
país imenso tomado pela corrupção para um país imenso funcionando corretamente.
Se os poderosos estão roubando o povo se acostuma a viver nessa insegurança, de
saber que somos todos iguais perante a lei no papel, se fossemos Aécio, Lula, Dilma, Collor, Sarney e tantos
outros poderíamos “dar um jeitinho” e
passar como rolo compressor sobre as leis, jogar as migalhas para o povo,
iguais e tão desiguais.
Escrever é isso, uma folha em branco, um olhar agudo, um
coração pesado...
Para que criança nenhuma precise vender guardanapos nas ruas
é que existe o Conselho Tutelar, as Escolas, a Vara da Infância e Juventude, os
Postos de Saúde, Hospitais, a Previdência Social, o Bolsa Família, as
Universidades, os Museus e Bibliotecas... Não tem problema nenhum vender
coisas, não há demérito nisso, mas há leis, regras, normas que precisam ser
cumpridas. Se um adulto estivesse vendendo os guardanapos seria certo, desde
que pago os impostos, contribuição para
a previdência e fosse ambulante registrado no município. Caso contrário é
errado. Para que a corrupção lá em cima, no topo da sociedade seja combatida é
preciso ir nos acostumando a exigir o certo, conviver pacificamente com o
errado está nos destruindo. Se as pessoas alertassem, como alguém certamente
fez, os pais das crianças que aquilo é errado eles pensariam duas vezes antes
de ‘usar’ as crianças. O Brasil tem solução e passa por uma tomada de consciência
da nossa fragilidade jurídica, da nossa ação na polis. Para defender a democracia
é preciso exigir o certo, o correto, mesmo que seja penoso e que tenha um custo
alto, que já estamos pagando por ter sido lenientes com o errado, o desvio. São
sim só palavras e imagens, é cansativo
escrever e ler sempre a mesma coisa, mas é assim mesmo que as mudanças
acontecem...
Fernanda Blaya Figueiró
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